es-QUILOMBO DE MUQUÉM EM UNIÃO DOS PALMARES E MACEIÓ - AL

18.11.2018

O café da manhã não foi grande coisa, já era de se esperar. A dor nas costas diminuiu, mas não que a cama ajudasse. O sono foi satisfatório. Fui dormir com a garganta raspando, e tive que ligar o ar-condicionado, dado o calor, e com a janela aberta, o repelente elétrico não vencia os pernilongos.

Porém, a manhã me reservou uma grande alegria. Por volta de 9h fui até o ponto de moto-táxi e solicitei ao Jackson que me levasse à Comunidade Quilombola de Muquém. Nem combinei valor nem nada, mas sabia que, em média, cobram R$ 10,00 por ida e volta. }}Ele não sabia onde ficam expostos os artesanatos e, lá chegando, foi perguntando a um morador onde se realizavam os encontros com as escolas. Era bem em frente, mas lá não tinha ninguém. Então ele perguntou onde achar as artesãs e ensinaram-nos o caminho. A entrada impressiona, com um túnel de árvores. Logo em seguida, vimos uma placa que indicava uma lojinha de artesanato, mas estava fechada, porém nos disseram que a casa da artesã era em frente.

Quando lá chamamos, um senhor nos atendeu e logo nos convidou a entrar, foi se apresentando e perguntou meu nome, levou-nos até a varanda da casa nos oferecendo assento em bancos de alvenaria.

O senhor José Edson Bezerra da Silva é um homem de 53 anos, afrodescendente cujos tataravôs ajudaram a fundar a Comunidade Quilombola do Muquém há mais de 170 anos. Sua esposa, Zeneide, conhecida por Zena, é uma das nove artesãs que ainda desenvolvem o ofício na Comunidade. Elas fazem peças de barro, moldando-as e cozendo-as. Inicialmente, nos tempos que só existiam forno a lenha ou a carvão, suas peças eram utensílios domésticos. Com o tempo, o fogão a gás foi ganhando espaço, e com ele as panelas de alumínio. Assim, os utensílios de barro foram perdendo terreno, e a renda de sua venda tornou-se insuficiente para a manutenção da família. Naquele tempo, as mulheres faziam os utensílios de cozinha, e os homens aprendiam a arte da olaria, confeccionando telhas e tijolos.

A agricultura tornou-se então o principal meio de sobrevivência, mas o manuseio do barro foi mantido como forma de preservar as tradições.

No entanto, ele observa que, tanto no Muquém como nas outras sessenta e seis comunidades quilombolas do estado de Alagoas, os programas públicos de amparo, através das bolsas escola, bolsa família, e tantos outros auxílios, que ele enxerga como base de manobra para política para garantir votos e reeleição, trouxe acomodação ao povo. Que as mães de família, obrigam a frequência escolar de seus rebentos, para garantir o recebimento da bolsa, sem nenhuma estrutura de apoio familiar para a efetiva alfabetização destas crianças. Disse, que já foram quase 90 artesãs, mas que a renda de aproximadamente R$ 500 por mês, tira a vontade do povo trabalhar, pelo menos entre estes com os quais convive. Preferem sentar-se a beira da calçada e ficar olhando o celular.

Contou-me que, quando, em 1910 houve aquela grande enchente no Nordeste, muitas casas, a igreja e até a escola da comunidade, instaladas próximas ao Rio Mundaú, foram inundadas. O Governo Federal então reconstruiu uma Igreja Ecumênica, a escola, as casas e até um espaço comunitário, em uma área mais alta da área quilombola. Seria interessante levar o turista lá, para conhecer esse espaço oferecido pelo governo, mas que ele tem vergonha de fazê-lo, pois se encontra cheio de mato e lixo no entorno. Pergunto a ele:

_ "Mas você acha que é o governo que tem que cuidar do espaço¿"

_ "Não, ele responde, mas a comunidade não entende como espaço público, e não zela pelo espaço porque dizem que nem usam aquele lugar..."

Conto para ele a experiência que tive em uma das Comunidades Quilombolas do PETAR, na Vale do Ribeira paulista, como eles se organizam, como aproveitam o programa de quotas para negros nas Universidades Públicas, e como serviram de incentivo para o desenvolvimento da Comunidade os programas de amparo social.

No Muquém, eles não têm uma organização social, na verdade não se trata de uma Comunidade, em conceito.

Por definição:

comunidade

substantivo feminino

  • 1.

estado ou qualidade das coisas materiais ou das noções abstratas comuns a diversos indivíduos; comunhão.

  • 2.

concordância, concerto, harmonia.

Eles não se harmonizam, não concordam e só têm em comum os ancestrais e a terra, que vem passando para os herdeiros, de geração em geração.

Ao contrário do que vinha observando até agora, ele vê como paralisante os programas sociais. Estagnantes. Pelo menos dentro da cultura de seu povo. Eu digo a ele que é assim que a população do sul e sudeste enxerga os programas, como uma grande teta com muita mamando sem precisar trabalhar.

Comentei com ele que hoje, o povo nordestino, tem permanecido em seus locais de origem, não emigrando para o sudeste como outrora. Ele diz que nos anos 50, muitos nordestinos ajudaram a construir São Paulo. Mas que hoje, a grande metrópole necessita de mão de obra especializada, e o nordestino não se desenvolveu nos estudos, não tem qualificação, por isso, quando tenta a sorte em São Paulo, sofre, ganha pouco, e muitas vezes, acaba voltando.

Ele disse-me que ali, daqui mais um mês, aproximadamente, políticos começarão a bater palmas nos portões. Os mais conscientes irão perguntar se a pessoa tem candidato, perguntar se a comunidade precisa de algo, estender o santinho e dizer que, se eleito, vai beneficiar a comunidade. Os menos conscientes (ou de menor caráter, conclusão minha) irão perguntar se a pessoa tem candidato e oferecer R$ 100 pelo voto, R$ 50 agora e R$ 50 se eu for eleito. Ele espera ver o dia em que o cidadão abra a despensa para que o candidato observe a fartura em sua casa, e dispense o mesmo dizendo que não precisa vender o voto.

Ele enxerga que o eleitorado é mantido nos limites da linha da pobreza, sem educação formal, e assim se tornam altamente vendáveis e manipuláveis.

Na última eleição, colocou uma placa no portão com os seguintes dizeres:

'SENHOR CANDIDATO, A RUA É PÚBLICA, MAS É MINHA A PROPRIEDADE, FAÇA O FAVOR DE PASSAR ADIANTE, MEU VOTO É CONSCIENTE."

E não foi incomodado durante toda a eleição.

Antes que eu partisse, levou-me à loja de artesanatos, mostrando-nos as peças e um livro de fotos com as etapas do processo, desde a coleta do barro, sua preparação, a confecção das peças, a secagem, o cozimento e resfriamento. Disse que uma das artesãs é considerada patrimônio vivo do Brasil, e assim, recebe uma ajuda mensal de mais de mil reais. Disse que os demais artesãos são Patrimônio morto, eu o corrigi dizendo que são vivos, mas não são considerados patrimônio. Ele acha o processo desmotivador, acha que a comunidade devia receber o recurso financeiro. Nesse ponto, sinto que todos são iguais, receber um benefício todo mundo quer.

O Sr.Edson me fez um presente. Escolheu um busto para isso, mas eu o informei que não caberia na minha bagagem. Então ele escolheu uma pequena cabeça, que representa a cabeça de Zumbi, que foi decapitado, teve suas genitálias cortadas e enfiadas em sua boca, e depois a cabeça ficou exposta em praça pública. A cabeça era a forma de seu carrasco comprovar que o tinha matado, e assim poder receber as terras prometidas, Sesmaria de Atalaia.

Ainda bem que não a fizeram com a genitália na boca, brinquei. E ele riu e assentiu.

Deixei aquele lugar com uma sensação boa, percebendo tanta experiência e discernimento em um homem humilde e pouco letrado.

O Jackson, que vai para São Paulo daqui a um mês, ouviu tudo, prestou muita atenção e, espero que tenha aprendido algo de valioso para evitar sofrimento desnecessário.

Voltamos já era 11h30. Perguntei quanto devia e ele me cobrou R$ 13,00. Achei que devia pagar mais pelo tempo de espera, na quinta e na sexta. Paguei R$ 20,00. Só subi pegar minhas coisas e parti rumo a rodoviária de micro-ônibus. Mal cheguei e, às 11h45 partia para Maceió o meu transporte, que achei conveniente, num dia em que já tomara chuva no retorno do Muquém, em que ainda chovia, em que ia pagar R$ 3,00 para o moto-táxi me levar até a estrada, e considerando que o preço total foi de R$ 14,00 me deixando na Rodoviária.

Na saída de União do Palmares leio o seu lema:

UM IDEAL DE LIBERDADE

Ainda a ser conquistada, penso.

A distância até Maceió é de 80 km, porém chego às 13h50 na rodoviária. Comunico-me com minha prima, tomo informações sobre o ponto e o ônibus com duas simpáticas comerciantes, fico lidando com a alça da minha mala, que agora está me atrapalhando, e chego ao ponto, onde entendo o que ela queria dizer com placa azul, pois um passageiro que também aguardava o ônibus diz que, eles vêm com o mesmo nome, a placa azul vai sentido praia, a vermelha vai sentido bairro. Eu queria ir para Pajuçara. Ele sugere o UBER, eu faço a cotação e deu R$ 11,55. Rejeito. Ele diz que, considerando minha bagagem e o não conhecimento do lugar, achava mais confortável e confiável. Eu explico que estou viajando a mais de 1500 km de carona. Ele entende minha opção e concorda. Mas aparece um carro de lotação indo para Pajuçara. Ele afirma que é o mesmo preço do ônibus, o motorista diz R$ 4,00. Resolvi embarcar. Ele ainda parou no posto para colocar gás, e me deixou em frente ao colégio onde minha prima me encontraria. Fomos até seu apartamento deixar minhas malas e depois procuramos um restaurante para almoçar. No Massagueira pedimos uma peixada com molho de camarão e pirão, duas long neck de Malzibier, e enquanto jogavam Portugal e Espanha pela copa do mundo, colocávamos em dia as fofocas. Gastamos R$ 46,28 cada. Voltamos de UBER pois chovia, por mais R$ 8,55. O Gilvan, bem apessoado, indicou-nos o município de Marechal Deodoro para um bom forró.

No apartamento e eu fui lavar umas roupas minhas enquanto ela foi ao mercado, eu ouvia um forró e comandos de quadrilha, achei que podiam ser na praia. Resolvemos fazer uma caminhada até lá, para verificar, e constatamos ser uma quermesse escolar. Mas continuamos nosso caminho. Conversa vai, conversa vem, eu tinha pedido a minha prima que prometesse que me deixaria dormir, antes de fazer calo na língua. Pois não é que, de repente, minha voz sumiu. Pronto, fui acometida por uma faringite. Toca comprar hexomedine. E agora serei uma boa ouvinte.

Caminhamos bastante pelo calçadão, na Praia de Pajuçara, observei a nova sereia com frio e retornamos ao apartamento já passavam de 21h, tomei um banho quente. Aqui também tem um interruptor no banheiro que liga a energia no chuveiro. Com exceção de Campina Grande e São Caetano, que nem tinham água quente, todos os demais lugares, a chave do chuveiro é dentro do próprio banheiro e, normalmente, está desligada.

Depois do banho tomamos um chá quentinho com bolo, biscoitos e pão com queijo na chapa, feitos com muito carinho por querida prima. Ela foi banhar-se e deitar e eu vos escrever. Linda noite!