es-Perrengues no Domingo de Manhã - PoA

20.03.2018

Fim do horário normal, uma hora subtraída no relógio, 7h30 estou de pé.

Fiz uma programação para o domingo na noite anterior. Como não programei nada pela manhã, resolvo voltar ao Brique. Disseram-me que de domingo e mais movimentado. Ativo o Google Maps e lá vou eu, achando que lembraria algo do dia anterior. Viro a primeira esquina, ando um quarteirão e já estou perdida. Ando um tanto e vejo um senhor passeando com seu cachorrinho pela outra calçada. Por trás de mim, ouço passos, vejo uma sombra de um lado, depois do outro. Surgem dois moradores de rua, "chapados". Digo:

_ "Bom dia." Eles:

_ "Ahn?" Repito:

_ "Bom dia."

Um deles começa a conversar comigo dizendo que pareço com sua mãe. Avisa o outro, a quem chama de negão, para deixar a tia quieta, que ela é 'de boa'.

O outro se aproxima e também começa a conversar. Aproximamos-nos os três de dois senhores com um pequeno cachorro. Paramos todos, eu em busca de proteção. Um deles mexe com o cachorro, o outro cumprimenta efusivamente o mais velho dos homens. Pergunto-lhes sobre o Parque Farroupilha. Eles me orientam, mas meus companheiros de rua, que queriam um trocado para o café, decidem me levar ate lá. Comprometo-me a pagar café para todos nós.

Eles não se entendem sobre qual caminho seguir. O negão tira a Certidão de Nascimento, mostrando chamar-se Adalcir de Oliveira Santos, e um monte de outros papéis, que ficam caindo pela rua. Me conta que ficam em albergues quando estão bem, e na rua quando estão chapados, tinha que confessar.

Ele escolhe caminhos que me parecem mais seguros e seguimos por suas escolhas.

Todos que passam por nós, estranham o trio. Mas, ninguém diz nada.

Quando digo que no Brique da Redenção pagarei o café o negão diz que o Brique e para o outro lado, bem longe dali e não iria ate lá. Mas começa a me contar sobre sua vida, sobre a família, que tem um irmão de 12 anos e que deseja que ele tenha o que não teve. Conta que esteve preso por mais de cinco anos, condenado a mais de sete, saiu antes por bom comportamento e por trabalhar na cadeia. Usou tornozeleira, cumpriu pena domiciliar.

Nisso o 'meu filho adotivo', que descobri chamar-se Renan, ficou zangado com tanta falação do negão e o empurrou. Os dois começaram a brigar de socos e caíram no chão. Atravessei a avenida rapidamente. Logo à frente encontrei uma igreja, fiquei em dúvida se ali me abrigava. Ia começar a missa. Entrei.

E assim começa outra história do domingo de Porto Alegre.