es-Pela Cordilheira dos Andes, a caminho do Chile

13.04.2018

Vou atravessar hoje, 10 de novembro, mais uma fronteira entre países. Na vida... atravesso todo dia!

Resolvi sair um pouco mais tarde para acertar as contas com o Javier, do Hostel Lagares, e pegar umas dicas com ele. Orienta-me onde comprar o cartão para o ônibus, e onde tomar, em direção a Lujan de Cuyo, esperando carona depois na Ruta 40.

Assim, após me despedir de todos, pois também gostei muito deste Hostel (tem lugar que nos faz sentir em casa), comprei o cartão logo na esquina, gastando ARS 30, já com uma carga de 11 para o coletivo. Aqui, o transporte urbano também é bem barato.

Vou para o ponto indicado, mas acabara de passar um ônibus, de modo que um morador que estava na parada me indicou outro ponto. Lá deveria tomar o 19 da linha 1. Consegui pegar o ônibus às 10h. Só que demora uma hora até a Praça Central de Lujan, de onde ainda teria que caminhar mais de 2 km até a rodovia. Passei no posto de serviços da YPF, muito forte aqui na região. Na conveniência me muni, como sempre, de água, 1 alfajor, 2 tortitas de Mendoza bem quentinhas, e parei sob um viaduto para pedir carona às 12 horas. Emmanuel e seu caminhão, encostaram as 12h30 para me levar ate a Ruta 7, estrada essa que cruza a Cordilheira Argentina. Deixou-me na pré-Cordilheira, junto a um ponto de ônibus.

Cantando e pedindo carona para todos os que passavam, inclusive carros pequenos, comi minhas tortitas, uma massa de pão salgado bem macia. Enquanto aguardava, vi passar uma raposa cinzenta, atravessando a rodovia, para um lado, e pouco depois para outro.

De repente, só dando tempo de eu comer e tirar umas fotos do lugar, para um carro vermelho e o Juane ajeita seu material de trabalho para me dar lugar. Ele é professor de esportes náuticos, e exerce sua função no dique de Potrillo. Me leva até a entrada do dique e, assim como o Emmanuel, recomenda cuidado.

Mal parei no encontro da saída do dique com a Ruta, parou um argentino com cara de boliviano. O Fernando é militar da Gendarmeria, vivendo no Regimento de Upallata. Ele é solteiro, tem 34 anos, e disse que teve uma vida difícil, sofrida, coisa que se nota em sua fisionomia, mas eh muito experiente e adivinha algumas coisas a meu respeito. Também eh um pouco mais ousado com as mãos, mas ja me posiciono para evitar constrangimentos desnecessários. Vai trabalhar mais tarde, mas se oferece para me levar a Santiago se eu dormir com ele. Explico que preciso conhecer a pessoa um pouco para poder me entregar, e que meu coracao ja tem dono. de modo que recuso a carona, educadamente.

Ele me deixa junto a aduana de caminhões, mas os caminhões demoram a sair, e os que saem nem me olham. Então continuo pedindo para todos, afinal, são 15h e quero chegar a Santiago ainda hoje.

Reparo num carro vermelho passando, pouco depois ele está de volta, pela outra pista, me perguntando para onde vou. É de uma família, e se compadeceram de mim, ali sozinha, no sol, e no meio do nada. Já tinha comido meu alfajor a esta altura. A Verônica esáa amamentando o Joaquin Francisco, de 1 ano e meio, que esta sentado em seu colo no banco da frente do passageiro. Me carregam por mais uns 40 km, dizendo que eu já estava a 130 km distante de Mendoza. Estavam indo para casa, num povoado de 30 pessoas, já na Cordilheira Frontal, onde vivem há três anos por força do trabalho. Me dizem que vão passar em casa para engatar um carrinho e me levarão ate mais a frente.

Na casa deles me oferecem o banheiro, o que muito me agrada. Ali encontramos seu outro filho de 10 anos, o Fabrício, muito lindo e educado, e seus 3 cães.

As vistas de sua casa são maravilhosas. Dizem que as montanhas ali ficam nevadas, é comum fazer calor num dia e depois já esfriar. Que vão sempre para as praias do Chile, e que estiveram em julho em Jujuy e Salta, tendo sentido ali, mais frio do que em casa. Pois o frio daquela região é úmido, segundo eles, enquanto o de Mendoza, quase um deserto, é seco.

Engatam o carrinho, pergunto se posso oferecer ao Fabrício um doce, e lhe entrego um saquinho de bolinhas de chocolate. Entramos todos no carro, seguidos por dois cachorros, que estão acostumados a passear de carro com a família, e são desencorajadas por pedras atiradas com muito gosto mas pouca forca, pelo Fabrício. Me levam até um porto de fiscalização da Gendarmeria e retornam.

Mal desço do carro, converso 3 ou 4 palavras com o guarda, e um carro pequeno, com uma passageira, me pergunta para onde vou. Digo que até a alfândega está muito bem e pergunto para onde vão. Estão indo para San Felipe, onde moram, no Chile. São chilenos e vieram passar o aniversário da Raquel, que foi dia 09 de novembro, como meu falecido pai, na Argentina. Ela e o Jorge, seu esposo, já viajaram de carona até o Equador, passaram também alguns apuros e tiveram gente muito boa estendendo a mão. Parece que resolveram devolver a gentileza. Nessa viagem de carona, passando também pelo Brasil, saíram de casa os dois, e voltaram em 3. O Leon os pegou numa região off-line de internet , e, depois de 2 anos de convivência, a tabelinha 'furou'. Deus dá seu jeito quando a hora chega para qualquer coisa.

Além de sermos ambas escorpianas, o Jorge, seu marido, é de libra, como meu falecido esposo. Coincidências. Não acredito nelas.

Ainda na Argentina, no final da Ruta 7 tem uma posto de pedágio. ARS 30, mas eles não tem essa moeda, assim, posso dar minha contribuição.

Seguimos até a aduana juntos e a Raquel me sugere que siga com eles e pegue um ônibus em San Felipe, ou Los Andes, onde também tem Caixa Eletrônico para pegar pesos chilenos (CHP). Aceito a oferta, mas faço uma câmbio de ARS 500 na aduana para poder pagar o ônibus.

Tiramos fotos contra as montanhas nevadas, passamos pela aduana chilena, que é um pouco mais rígida,revistando todos os carros e pedindo a abertura de malas. Não se pode ingressar no Chile com produtos lácteos ou frutas. Mas os fiscais estavam menos rigorosos.

Na descida da Cordilheira, após a curva dos Caracoles, tem uma parada mirante, dali saquei umas fotos da estrada, da nova família e nossa.

A estrada não é tao assustadora quanto imaginei. É bem larga. Eu que já andei na Serra do rio do Rastro e na Serra dos Órgãos, não assustei nem um pouco.De carro a descida é muito rápida. Às 19h20 estávamos em Los Andes. Na despedida, a Raquel, vegetariana, me ofereceu um lanche de queijo com salada, muito rico. E eu em contrapartida, lhe dei meio saquinho de semente de girassol inflada e adocicada, que ela provara e aprovara.

Quando entro no Terminal vejo um ônibus se preparando para sair para Santiago, como a cidade é pequena e a rodoviária menos movimentada, dá tempo de eu embarcar na poltrona 5 depois de comprar o bilhete por CLP 2500.

Estou exausta, e fica bem visivel no meu rosto com olheiras e sorriso amarelo.

Até às 20h30 ainda é dia. Faltando 15 para as 21h chegamos a um dos turbulentos terminais de Santiago. Uma fila de táxis aguarda os passageiros. Um taxista se oferece, e eu recuso. Numa lanchonete tomo informação e me dirijo ao metro. Ali, um gentil funcionário, consultando o Google Maps, localiza meu destino no mapa, me indica a direção 'los domenicos', descer na estacão 'Baquedano' e sair em direção a Praça Itália.

Primeiro vou a bilheteria e compro o cartão com crédito para aproximadamente 10 viagens, o valor da passagem muda de acordo com o horário. Gasto CLP 9100. Entrego uma nota que pensei ser de 100.000, e depois dela me devolver umas moedas ainda fico esperando o troco, ate ela me explicar que só entreguei 10.000.

Na Praça Itália, peço ajuda a um policial, depois de orientada por um vendedor do tipo camelô, que ainda me preveniu quanto ao celular, pois eu o tirei da bolsa para ver o endereço e saía com ele na mão.

O policial se utilizou do mesmo recurso que o funcionario do metro, parando de atender uma ligação no celular, inclusive, quando percebeu que sou turista. E pediu também que tome cuidado com a bolsa, no que, eu, para deixá-lo mais tranquilo, engatei-a na frente do meu corpo, como costumo fazer, e fui junto com a multidão. Aqui me parece mais movimentado que Buenos Aires.

Foi fácil chegar, nem tão fácil de achar, e estou no Bairro Bella Vista. Um point noturno. Então tinha até bateria de escola de samba treinando. Muita gente mesmo.

Estou me sentindo uma paulistana 'porreta'. Me virando com transporte coletivo em grandes cidades, sem internet, e sozinha. Algum motivo tinha para nascer na Grande capital de São Paulo.