es-Paraguai - ser ou não ser? Turismo de lazer ou compras?

04.05.2018

Viajar de ônibus por estas paragens não é como viajar no Brasil, não. As estradas são bem retas, mas passam no meio do nada. De vez em quando surge um povoado, que o ônibus se acerca, mas como dizia minha mãe sobre o trem em Flórida Paulista, só diminui a velocidade para quem quiser descer ou subir. Alguns lugares não têm nem Terminal. Logo que saímos, foi entregue um lanche com um suco, um sanduíche de pão de forma com queijo, e umas bolachinhas salgadas. No ônibus tinha água fria, no andar de baixo: café. Numa boa parte da viagem, eu estava sozinha na parte de cima.

A única parada que fez, em que pudemos descer foi às 22h30, para jantar, no povoado de Lomito, onde comi um 'lomito'. O banheiro não era lá grande coisa, mas estava mais cheiroso que o do ônibus.

Gastei ARS90 no lanche de carne, com alface, tomate e ovo, e a água de laranja. A próxima parada foi às 6h da manhã, na aduana. E às 8h30 chegamos a Assunção.

O terminal faz lembrar muito a Ciudad del Leste. Fui até o caixa eletrônico fazer um saque mas não tinha ideia da cotação da moeda, assim, me dirigi a dois policiais que passavam e eles me disseram que o real equivale a aproximadamente 2000 Guaranis. Mas passei por uma situação diferenciada neste país. O policial me perguntou como cheguei e de onde vim? De ônibus vindo de Salta. Me pediu o passaporte, verificou os carimbos e me perguntou até quando iria ficar? Disse que até segunda. Daí me devolveu o passaporte.

Muito estranho. Um trato completamente diferente de outros países onde o turista é auxiliado prontamente. Aqui me vi como uma bandida.

Saí e peguei um táxi que, por sorte, o motorista conhecia o Hostal Isla de Francia, pois anotei o nome da rua errado. É Elídio e anotei Egídio. Gastei 35mil guaranis.

No hostal, administrado por franceses, contei o que se passou, e ela me disse que trata-se de corrupção, alguns ônibus passam direto na fronteira, ou os agentes não carimbam propositadamente o passaporte, o que da oportunidade aos agentes de polícia multarem a quem está, teoricamente, ilegal no país, em 235mil guaranis. Ah! Entendi.

Paguei os 145 mil, por três dias de hospedagem, fui ao banheiro, pois estava muito precisada, e sai para tomar café da manhã e dar uma volta. Estou bem perto da praça principal, mas agora estou com uma dor partindo da virilha direita, acho que mal jeito ao dormir no ônibus, que esta dificultando um pouco o meu caminhar.

Num café bem bonitinho, comi uma torta de espinafre, uma 'medialuna' com goiabada, e um suco de laranja, comprei uma água sem gás para viagem, e gastei 40 mil guaranis.

De volta ao hostel, quase 13h, que seria o horário de check in, tomo um banho refrescante, o calor aqui está intenso e úmido. Depois durmo um pouco, pois na viagem, o sono não foi reconfortante. Quando acordo, saio para jantar, e acho, na travessa de baixo, o 'El bar'. Comprei um filé de frango à milanesa, no quilo , com legumes ensopados e a sopa paraguaia, que é um bolo de fubá salgado, muito boa. Tomei suco de pêssego, que comprei na caixa de um litro. De sobremesa um potão de pudim de leite, e ainda comprei 'pio IX', como chamam aqui, mas que na verdade é rocambole. Escolhi um recheado de goiabada e gastei 43 mil guaranis. Este trouxe para comer mais tarde com o restante do suco.

O hostel é a casa da família, mas muito bem pensado e organizado. As camas nos quartos tem cortinas, cada uma tem sua luz e duas tomadas, mais o lugar para a bagagem com chave, além de ar-condicionado.

Junto à cozinha tem um delicioso jardim, tem um lugar para se estender a roupa, e tem até uma pequena piscina. Os donos são muito hospitaleiros. No quarto comigo esta um suíço, mas tem um hóspede da África do Sul, uma japonesa, dois ingleses, e um senhor oriental. Estes os que vi até agora.

Deixei o ar-condicionado ligado por toda a noite, chegou até a ficar um pouco frio. Estava sonhando com trabalho, mas na 'Friulim', num tempo muito, muito distante. A empresa nem existe mais. Sonhava com a querida amiga Regina Palombo, de quem não tenho mais notícias, nem sei se está viva. De repente, achei que alguém estava entrando em meu habitáculo, sobre mim, e assustei. E gritei. Sons guturais saíram de minha boca, só quem já me viu tendo pesadelos sabe como é isso. E acordei. Percebi que também acordara meu companheiro de quarto, e envergonhada fiquei caladinha em meu espaço. Até dormirmos novamente. Levantei duas vezes pela noite, com a bexiga muito cheia. Bebi de uma vez, toda a água que me faltou durante a viagem.

Muito cedo mesmo, meu amigo se despediu de mim com um 'adios' e se foi.

Mais tarde, mas não tão tarde, levantei para o café da manhã, e uma bandeja de crepes franceses me aguardava, café, leite, bananas, laranjas, geleias, e margarina. Além de um bolo integral. O crepe com banana e doce de leite ficou uma delícia.

O calor por aqui é realmente um diferencial, diferente de tudo o mais que conheço, muito úmido. É necessária a hora da 'ciesta'.

Tomei café com o senhor oriental e descobri que seu nome é Bonn, é vietnamita mas vive em Vancouver há 42 anos, e tem 79 anos. Me perguntou o que ia fazer durante o dia e me convidou a sair. Precisávamos passar no Banco para trocar uns dólares, então fomos, ao Banco, à oficina de atenção ao turista, e ali descobrimos que o 'Cabildo' ficaria aberto até às 17h.  Tudo o mais fecha aos finais de semana. Como Bonn queria comprar um cinto de couro azul para seu amigo, a moça da oficina nos indicou o Mercado 4. 

Aí o Paraguai começou se mostrar. Fomos para a rua indicada. Aqui tem dois tipos de ônibus.  Os bem velhos, quentes e desconfortáveis, cuja passagem custa dois mil guaranis, e o mais modernos, com ar-condicionado, onde a passagem custa 3300. O Bonn me entregou 5 mil, peguei mais 5 mil meu, e entreguei para o motorista, pedindo duas passagens. Me devolveu uma moeda de um mil.  E não me entregou o ticket. Voltei e expliquei seu engano. Me deu outra moeda de um mil. Devolvi. Disse que não, tinha que me dar 5 mil. Insatisfeito, me entregou os 5 mil. Mas como não me entregou o ticket, imagino que os 4 mil da passagem,  foram para seu cofrinho. Um passageiro nos indicou o lugar para descer.

E a Ciudad del Leste surgiu a minha frente. Tanto aqui como lá, com certeza, tem bons lugares para fazer compras, com produtos originais, lugares limpos. Mas...

Fomos procurando o cinto por todo lugar, fazia muito calor, detesto Ciudad del Leste. Não compro ou pago mais caro só para não ter que ir àquele lugar.  Não gosto daquele lugar. É opressivo. Insultante, no meu ponto de vista.

E eis-me aqui. Assunção, mostra tua cara.


Depois de andar muito e não encontrar o cinto em azul, o Bonn queria me presentear com um vestido. Não ia conseguir demovê-lo desta ideia. Disse que não tinha do meu tamanho. Então encontramos um paquistanês que fala espanhol, português, inglês, e outras tantas línguas. Bonn perguntou a ele sobre o cinto e vestidos de meu tamanho e ele indicou o Bonanza. Um lugar mais arrumado. quase uma Monalisa dentro do caos. Nada de cinto. Mas achei um vestido de malha de algodão estampado, do meu gosto. Custou 120000, equivalente a R$ 75,00. Ganhei o vestido.

Já era mais de 13h. Nossa boca estava seca. A moça disse que lá havia onde comer. Pelo amor de Deus, não se indica um lugar como este para um turista. A não ser que queira conhecer a fundo os costumes, valores e cultura da população. Gosto disso, mas quando os valores são maiores e melhores que os meus. A moca da SELATUR nem fala inglês, o que considero um requisito minimo para trabalhar num posto de atendimento ao turista.

Pegamos o ônibus de volta. Dessa vez entreguei o dinheiro certo, e acho que recebi o ticket correto. Quando vi dois postos de combustível Petrobras, sabia que estava perto do Hostel, e do 'El Bar'. Levei o Bonn para almoçar lá.

Comi espaguete ao molho branco, bife à milanesa, sopa paraguaia, e salada de alface, tomates e queijo. Ele comeu raviole com molho à bolonhesa, frango ensopado, e legumes refogados. Tomou água e um copo de suco de laranja, da jarra que pedi. Eu tomei o suco quase todo e trouxe o meio litro que sobrou para o hostel. Acho que tinha dois litros na jarra.

De sobremesa, pedi um pudim de 'ciruela', que na verdade era um pudim de claras, ciruelas são ameixas, secas neste caso, e elas estão dentro e fora do pudim, que é envolvido com uma calda de leite condensado e bebida alcoólica, só não sei qual. Pela descrição detalhada, percebe-se meu amor por doces.

Encontramos lá um iraniano, dono de um açougue muito limpo no mercado 4, uma das exceções do lugar. Vive aqui há 27 anos, fala inglês muito bem, que aprendeu num curso de Geologia na Índia. Tem 61 anos e é um homem muito apresentável, parece ter menos idade. Serviu de interlocutor entre meu amigo Bonn e mim. Quando falam devagar, entendo a maior parte do que falam. E acreditem ou não, consegui conversar com meu amigo vietnamita por todo o dia. Tenho que colocar a 'cachola' para funcionar, mas falo como criança, acho, mas me comunico. Bonn me disse que se estiver só, se minha vida não der certo com quem ou como pretendo, para lhe dar uma chance. É muito gentil, mas tem idade para ser meu papai, não posso dizer isso a ele. Não quero magoar seus sentimentos. É um bom amigo.

De volta ao hostel chego à conclusão que achei duas boas ilhas em Assunção, o Isla de Francia, administrado por franceses, outra cabeça. E o 'El bar', são redutos de inspiração e proteção. Ainda bem. Deus novamente me protege.