es-Montevidéu - Há males que vêm para bem; há bem que vem para bem também

23.03.2018

Dois últimos dias em Montevidéu. Amanhã, seguirei para Colônia del Sacramento.

Antes de contar minhas aventuras, quero falar sobre o que vi e senti em Montevidéu. É a maior cidade do Uruguai. Muito plana, sua maior altitude está no Cerro de la Fortaleza, com 132 metros de altura. O vento Sul, que esta soprando agora, é frio. O vento norte trás o calor. Na região central, cidade velha, transitam muitos turistas, as calçadas são bem cuidadas e limpas. Ha um policiamento ostensivo, porém ha poucos moradores de rua, e o movimento é sempre de uma cidade média, com povo educado e trânsito cortês.

Achei o povo bonito, mais os homens do que as mulheres. Mas todos são extremamente gentis e educados, com raras exceções. Aqui o uso da maconha é liberado, então é comum ver pessoas transitando pela rua com o baseado, cigarro ou cuia de chimarrão, cada um com seu vício. As crianças são bem obedientes, não é comum ouví-las gritando, os jovens são mais sonoros, mas mesmo em grupo, são bem comportados, e os adultos estão perfeitamente enquadrados nas regras de convivência social. Existem muitos idosos, que têm facilidade para se locomover em uma cidade tão plana, e ainda existem rampas de acessibilidade em todas as calçadas que observei.

Os ônibus não têm catracas, por vezes o condutor faz às vezes de cobrador, mas às vezes o veículo leva os dois profissionais. Usa-se dinheiro ou cartão de ônibus. A maior parte do transporte público tem letreiro luminoso na frente e ao lado da entrada, facilitando a leitura antes de pegar o ônibus errado. Os condutores, assim chamados por aqui, são solícitos. Se o ônibus circula apenas pelo bairro, o preço é menor, paguei URL 20. Percorrendo distâncias maiores, mais caro. Do centro velho ao Cerro paguei URL 33. O custo de vida aqui me pareceu semelhante ao de onde moro, mas os salários mínimos, que são por categoria, são um pouco maiores.

As universidades são públicas e privadas e se concentram principalmente em Montevidéu. Não são necessários vestibulares. Encontrei aqui um brasileiro que estudou três anos de medicina em Buenos Aires, e agora esta pedindo transferência para cá. É carioca. A entrada assim fica facilitada. Não sei como fica a saída, e a manutenção em lugar tão distante.

Mesmo nos bairros mais distantes, a cidade parece limpa e organizada. O calçamento é um pouco mais quebrado, as pequenas folhas de árvores, que insistem em cair pelo chão, com tanto vento, ali,  permanecem por mais tempo. As feiras livres têm muitos expositores sem barracas, com seus produtos espalhados sobre toalhas na calçaada. A cidade não parece correr contra o relógio.

Ontem foi meu primeiro café da manhã no hostel, as porções já ficam prontas, e consistem em três fatias de pão de forma, um punhado de margarina ou geléia, suco de laranja, leite e café. Tem uma torradeira estilo americano, que não usei no primeiro dia por não conhecer.

Minha primeira atividade foi em "El Mirador" da Intendência (Prefeitura Municipal), nas minhas verificações, constatei que há uma visita guiada às 11h, por isso deixei para o dia 20. Estive lá perto para ver a fonte dos cadeados no dia anterior, mas em horário inadequado. Ledo engano. Não faça isso. Aproveite para fazer as fotos da fonte de cadeados e visitar o mirante, não há visitas guiadas. Pelo menos não por enquanto.

Na Prefeitura, acontecia uma feira de Universidades, que ofereciam seus préstimos aos futuros candidatos às suas vagas. Ou seja, uma bagunça. Pedi orientações e fui encaminhada ao subsolo para os elevadores que levam ao topo do edifício. Meu Deus! Uma fila toda espalhada, e só um elevador panorâmico funcionando. A visita é gratuita, mas ao ver todos aqueles jovens ali se amontoando, e chegando outros pelas beiradas, confesso que me irritei, e quase desisti. Quando chegava perto da minha vez de subir, o elevador foi fechando as portas com poucos passageiros, percebi que a garotada queria subir em grupo. Avancei para aproveitar a viagem, mas não houve tempo. Assim, em meu espanhol que esta dando bem para o gasto, expliquei estar sozinha, se podia embarcar no próximo. Fui autorizada e fiquei ali, a frente de todos. Até tirei foto com eles no elevador.

Depois de ter subido no Palácio Salvo, achei que ali não tivesse mais muita novidade, mas enganei-me. Primeiro porque se podem ver os 360 graus. Depois porque colocam fotos enquadradas, com a localização de cada prédio importante com um pouco de sua história ou função, de modo que você explora a cidade de lá do alto, sem precisar de guia. Depois de ter explorado um pouco, resolvi aproveitar o banheiro e observei a liberação do Wi-Fi. Nessa hora levei um susto que fiquei atordoada. Só pensava em voltar para o Hostel. Vi que eu tinha comentado fotos minhas, não costumo fazer isto. Tinha lá um "linda", uns comentários de amigos em foto de cinco anos atrás que havia sido republicada. Eu pensei: "Será que fiz porcaria sem perceber"? De repente, um: "Levantate" me fez acordar. DROGA! Deixei meu Facebook aberto no computador do Hostel ontem à noite. Já ali vi algumas gringas aceitando meu pedido de amizade. Desci ligeira, mas meu anjo da guarda dizia, acalme-se... Tirei ainda umas fotos da fachada do prédio e fui embora.

Acho que são quase 2 km de um ponto ao outro, fiz o mais rápido que pude, e quando cheguei fui direto ao computador. Meu perfil no Face tinha sido adicionado a Barra de Favoritos. Não tenho o hábito de pedir para o computador gravar a senha, quando não estou usando meus equipamentos. Alguns amigos me orientaram a trocar a senha, coisa que pedi para minha filha fazer para mim, mas até hoje ainda estou cancelando amizades e pedidos das mesmas, a maior parte para mulheres. E o indivíduo ainda teve a desfaçatez de me encaminhar um Messenger dizendo: "Te quiero" e uma carinha com olhos de coração. Esse é o mal que vem para bem. Tenho meu computador, por que fui usar o do Hostel, e ainda largar aberto. Cabeçuda, como bem disse uma amiga. Porque amigos podem ser sinceros conosco.

Meus próximos destinos eram por indicação de um conhecido que esta morando em Montevidéu, o Mestre João, que lecionava Matemática Financeira em Itu. Falou-me do Palácio Trancoso e da Igreja de São Francisco. Ali perto também esta o Museu Pre Colombiano, que consta de meu roteiro. Um pouco mais sossegada, consulto o mapa e lá vou eu.

Sai pela rua em direção oposta ao que estava acostumada. Saída... Pela esquerda (como diria o Leão da Montanha). E dou de cara com um cardápio na lousa, cujo prato do dia era porco. Adoro! Achei estranho o lugar. Parecia mais uma loja de plantas. Ou enfeites. O restaurante Tibet Garden é ao lado do hostel, fica no fundo e tem uma decoração de fazer inveja. A comida também estava muito boa e só me custou URL 180. Carrego minha água comigo então não pedi nada para beber, e a sobremesa estava inclusa, um pudim de chocolate do tipo industrializado.

Mas resolvi a questão da sobremesa logo mais à frente, quando vi um anúncio de Alfajor Helado. Gelado? Assim nunca comi. É um sorvete de doce de leite, envolto por duas bolachas e encoberto por uma camada generosa de chocolate endurecido pelo frio do sorvete. Gastei mais URL$ 40.

A igreja encontra-se fechada para manutenção até 23 de outubro, então só vi por fora. Ele disse-me que há visitas ao subterrâneo. Fica para a próxima vez.

No caminho, o 'Banco de la Republica'.

O Palacio Trancoso é adorável! Não sei se gostei mais do subterrâneo ou do restante. Nos primeiro e segundo andares estão móveis e decorações de época, muito suntuosos. Verdadeiras relíquias históricas. Coisa de encher os olhos de encantamento. Um Palácio como o imaginamos.

No subterrâneo, em salas preservadas com ar condicionado, encontram-se belos utensílios egípcios, gregos e mesopotâmicos, em grande parte para confecção de perfumes e óleos aromáticos, onde observei que o uso de vidro soprado é de antes de Cristo. Essa parte me impressionou pois não esperava encontrar no Uruguai acervo de tamanha importância histórica. Achei tratar-se de uma exposição temporária, mas não. A recepcionista me disse que foi comprada pelo Museu, e que ainda estava em instalação uma sala babilônica e outra que não me lembro de qual civilização. Maravilha! Um povo que dá valor a cultura torna-se grande sem perceber.

O próximo passo foi o Museu de Arte Pre Colombiana, neste a entrada custa URL 100, também tive acesso ao Wi-Fi e ao banheiro.

Em tempo, quando estava sozinha no quarto, em Rio Grande, por duas vezes me dirigi ao Roberto na cama ao lado de onde eu trabalhava no computador. Isso não havia me ocorrido antes. Acho que ele me acompanhou nestes Museus. E ainda teria muita explicação para me dar, se eu pudesse ouví-lo.

Dois grupos escolares visitavam o Museu. Soube hoje que o Uruguai comemora o Dia do Patrimônio, onde os locais históricos são visitados pelos estudantes. O que mais me chamou a atenção, no andar térreo, onde se encontra o acervo fixo, foram as influências dos povos pre históricos nas varias regiões das Américas Central e do Sul, marcadas na linha do tempo. 

No andar superior, 4 espaços abrigam diferentes temas, um deles me pareceu fixo, uma sala dedicada a um expoente musical que ali trabalhou.

As demais são itinerantes, uma dedicada à artista Violeta Parra, em conjunto com uma das Universidade do país.

Uma de tecidos, mostrando a cultura em forma de artesanato e/ou protesto.

E uma de máscaras e ornamentos peruanos, muito peculiar.

Ainda é cedo, mas hoje à noite tenho ingresso para o Teatro. Então volto para o Hostel. No caminho vejo uma 'panederia', e vou atrás dos doces, sempre. Um doce que lembra teta de nega, porém uma teta amassada, me chama a atenção. O rapaz me diz ser um bombom recheado de, entendi, cereja. Não era, era doce de leite. Meus olhos até brilharam. Mas não foi decepcionante descobrir que não havia cereja. Pode te parecer que é muito diferente para eu ter me enganado, mas 'dulce de leche', ou cereja, falando rapidamente, pode gerar um som parecido. Ou não? Estou sozinha no quarto, então, não fosse pelo banheiro comunitário, seria como um hotel. Mas o banheiro é bem limpo aliás como todo o hostel, pelo que pude observar. Eles pedem para que os hóspedes mantenham o banheiro limpo e deixam um rodo e um pano de chão seco, o que facilita as coisas. Aqui não tem lixo para papel higiênico, ele é depositado no vaso sanitário e a descarga é muito potente. As toalhas de rosto e de banho estão incluídas na diária de US$ 16. Voltando... Aproveito para cortar e lixar as unhas dos pês e das mãos. Minhas unhas das mãos estão parecendo de mecânico. Por algum motivo que não consegui identificar, estão ficando escuras nas pontas. Minha unha esta abrindo. Falta de alguma vitamina ou stress.

Por volta de 18 horas saio em direção ao teatro, procurando algo barato para comer. Ali ao redor é lugar para turistar, tem belos lugares, com gente alegre, bem vestida e bonita. Não é o que estou procurando agora. Afasto-me para a paralela da Rua 18 de Julho e já encontro boas alternativas. Quero um lanche ou uma pizza. Comi um meio termo. Até por não saber pedir direito. Recebi um quadrado com oito pedaços de massa assada, coberto de muçarela e champignons, com um molho de tomate muito rico. A massa estava mais para pizza Hut. Tomei com um refrigerante de Pomelo. Light. Mas com muito gás. Foi satisfatório.  

O Teatro abriu as portas por volta de 19h40, usei o banheiro deles antes de ingressar. A recepcionista me acompanha por um corredor acarpetado em vermelho, que contém uma parede circular de madeira, repleta de pequenas portas de duas abas. Me indica uma delas, onde tem duas fileiras de três cadeiras estofadas, também em vermelho, e a minha é a do canto direito, na fileira de trás. Sou uma das primeiras a entrar. E, pelo tamanho do lugar, acho que não vai encher, apesar dos inúmeros estudantes que se encontravam na espera do lado de fora.

Tiro uma fotos, e me sento, me sentindo chiquérrima. Estou em um camarote baixo. No camarote ao lado esquerdo, entram duas paulistas, moradoras de São Bernardo do Campo e funcionárias das Casas Bahia. Uma delas reclama da coluna em frente a sua vista. No meu camarote também percebi este inconveniente, mas, pagando URL 150 para assistir Otelo (uma releitura em que Otelo é Branco e um mensageiro usa celular para as comunicações), achei sensacional, e assim me expressei, ao que, elas concordaram. Logo em seguida entraram nossos companheiros de camarotes e cessamos a conversação. As cadeiras da segunda fileira têm pernas mais longas, para que as pessoas sentadas à frente, não nos atrapalhem a visão. Porém, como a peca é longa, isso causa certo desconforto com o passar do tempo. No andar subterrâneo eles têm uma chapelaria, e seu uso é muito comum, considerando o frio que faz por aqui, principalmente no inverno.

Ao contrario do que esperava, o Teatro lotou. Ficou muito bonito. As fotos não são permitidas durante o espetáculo. Então, coloco meu celular em modo avião e ponho minha atenção no espetáculo, em espanhol, o que exige muito mais atenção da minha parte. Um dos artistas fala muito rápido. 'Despacito'. Não posso pedir, tenho que entender o contexto. Foi possível, algumas piadas entendi, outras não e não ria, enquanto todos os demais o faziam. Mas valeu muito a pena.

Cheguei de volta ao meu quarto quase meia noite, e vim a pé, cinco quadras. Bem sossegado. Demorou mais do que pensava. Hoje foi o dia dos enganos. Mas tudo termina bem, mesmo assim.

Mas tem Bem que vem pra Bem, e todo dia é um recomeço... Acompanhe no próximo post...