es-DOMINGO CULTURAL EM MACEIÓ - AL

20.11.2018

Pontualmente, às 8h30 como combinado, o Henrique Dantas nos aguardava na porta do prédio onde minha prima reside. Eu o contatei, após busca na internet por um passeio guiado pelo centro Histórico de Maceió.Ele me passou as opções e os preços, teria disponibilidade no domingo pela manhã, o que me atendia, já que o passeio seria de três horas, e a tarde teria jogo do Brasil. Ele me explicou que só atende grupo de no mínimo duas pessoas, ao custo de R$ 80,00 por cabeça, para o Circuito por mim escolhido.

Já na orla de Pajuçara iniciou suas explanações, maceioense que é, já ficou clara sua paixão por essa terra. Com boas razões. Dirigiu-se ao bairro chamado Jaraguá, dizendo que, como os museus fecham aos domingos, ia oferecer-nos um up grade pelo preço combinado.

Naquele bairro, estacionou o carro junto a praça conhecida como Praça dos Dois Leões, em frente a Igreja Nossa Senhora Mãe do Povo. Fizemos por ali uma pequena caminhada. Ele explicou-nos que grande parte das denominações na cidade, tem origem indígena. O próprio nome: Maceió, e uma modificação que ocorreu a partir do nome do Riacho Maçaioque, hoje conhecido popularmente por 'Salgadinho', já que ocorre a mistura das águas no encontro com o mar, e também por ser um rio que recebe dejetos industriais e urbanos, tornando-o um verdadeiro esgoto a céu aberto. As ruas do Bairro, que teve enorme importância econômica para a região e foi responsável por seu desenvolvimento, pois ali se encontravam, e ainda se encontram alguns, enormes armazéns de açúcar, tendo Maceió o mais moderno Porto Marítimo para embarque de açúcar. A hidrografia da região, na época pertencente a Capitania de Recife, teve fundamental importância neste desenvolvimento e escoamento, primeiro do Pau-Brasil, depois das produções de açúcar e algodão, cada qual em seu ciclo histórico.

A importância do lugar foi tamanha que ali permanece a fachada do Banco de Londres Sul Americano. 

Em frente ao prédio que foi uma espécie de consulado, para controle do tráfego de pessoas, encontramos um protótipo da Estátua da Liberdade, feita pela mesma fundição francesa que confeccionou a estátua americana, e sua irmã gêmea, francesa. Acredita-se que foi destinada à Alagoas porque um ilustre pintor da época, Rosalvo Ribeiro, estudante na França, tornou-se amigo do idealizador da estátua. E havia uma encomenda de 4 estátuas de feras, que se encontram na praça 2 leões, um leão, uma pantera, um lobo e um javali. e assim, a pequena estátua modelo, seguiu junto e ali ganhou seu lugar definitivo. Em sua base, o antigo brasão de Alagoas.

As feras, diga-se de passagem, guardam uma verossimilhança que chegam a dar medo. Estão estrategicamente colocadas nos quatro cantos da praça, e parecem proteger com sua ferocidade, o local.

Ao contrário dos bairros mais residenciais que andei visitando, aqui as ruas são largas, os prédios, denominados trapiches, imponentes galpões para armazenagem, com fachadas harmoniosos, cem uma mistura de estilos, prevalecendo o neo-clássico. O prédio da Alfândega, o da Associação Comercial, a Câmara Municipal, que já foi utilizado por uma faculdade, mas mudou sua destinação com objetivo de resgatar aquela região para o turismo e para o próprio cidadão, o MISA, Museu da Imagem e do som de Alagoas. Observa-se muitas edificações passando por manutenção, assim como, muitas abandonadas. Diz o Henrique que na época do governo de Ronaldo Lessa, ele revitalizou o Centro Histórico, muitos bares e restaurantes ali se instalaram na ocasião. Mas o investimento na cultura e na conservação do Patrimônio histórico e cultural não se manteve, a região é tombada somente pelos órgãos estaduais. Estão procurando obter o tombamento pelo Governo Federal, e dessa forma conseguir mais recurso, mais controle e fiscalização.

Uma edificação teve o seu reboque descascado, ficando os tijolos aparentes, e o espaço é para eventos. Foi uma 'sacada' do engenheiro responsável pela transformação do espaço, trazendo uma característica que o situa num passado remoto.

Observando a região central da cidade, onde metade da fachada é mantida e a outra metade é modernizada, não existe fiscalização, e nem respeito pela história, infelizmente.

A partir desse ponto, inicia-se o passeio por mim contratado. O Henrique denomina essa próxima fase de circuito Pelourinho. A caminho do local, passamos pelo Coreto da Paz, onde aparecem, na terra dos marechais, as estátuas de Marechal Deodoro da Fonseca e do Marechal Floriano Peixoto, primeiros presidentes da República brasileira. Entre eles, as bandeiras de todos os municípios alagoanos.

Passou também por uma ponte que, um dia foi sobre o Rio Maçaioque, em seu curso original.

 Nos explicou que Pelourinho é uma pequena construção em forma de coluna, de pedra ou madeira, que servia para castigar criminosos, mas acaba por ser como uma Pedra Fundamental, um marco na história da cidade.

O Pelourinho não está mais lá, mas o lugar foi, comprovadamente, um engenho de açúcar. E como as praças importantes de outrora, necessitavam da presença da igreja, da casa grande, da setor de armas ou segurança, e da senzala, no entorno desse espaço temos a Catedral Metropolitana Nossa Senhora dos Prazeres.

Ele conta que aquela igreja foi devotada a São Gonçalo do Amarantes, mas em função de uma graça recebida de Nossa Senhora dos Prazeres, diante de um naufrágio em que não houve mortes, foi encomendada a imagem da Santa, e por seu tamanho, só coube na nave principal, no lugar de São Gonçalo. ela acabou conquistando o lugar e o coração dos devotos, passando a ser a padroeira da cidade.

As outras construções importantes na Praça Dom Pedro I (ilustre visitante da cidade, que percebeu sua importância econômica e veio fundar a Catedral), necessárias como infra-estrutura mínima a época para chegar a condição de Vila: o atual Ministério da Fazenda, abrigava um armazém almoxarifado.

O Pelourinho, o hospital e a prisão já não existem mais. A Câmara do Legislativo foi construída sobre o antigo engenho, e mais recentemente recebeu dois anexos que, descaracterizaram a construção. No entanto, para corrigir isso, um concurso foi realizado, para um projeto de harmonização dos edifícios, e sobre os prédios que mais pareciam caixas de concreto, foram colocados painéis em alumínio, com 90 motivos que retratam a cultura alagoana, repetidos três vezes cada um, e que lembram as xilogravuras que estampam as literaturas de cordel. O projeto teve êxito, a meu ver.  Abaixo a construção histórica:

E a nova coberta pelos painéis:

No entorno da praça também estão localizados dois palacetes da época, o primeiro, construído pelo Barão de Atalaia, já com conhecimento da vinda de D.Pedro II à cidade.

O segundo, construído por seu oponente, Barão de Jaraguá, para hospedar Dom Pedro II e estrategicamente posicionado para bloquear a vista que o seu rival tinha do mar.

No entanto, nota-se o descaso com toda essa importância, tanto dos governantes como da população em geral, ao vermos o monumento que dá nome à Praça, sendo utilizado como varal para secagem de roupas.

Uma rápida caminhada pelo centro, que foi e é um grande centro comercial, mas que aos domingos encontramos sem movimentação, tornando-se até um pouco arriscado vacilar por ali.

Próxima parada: Circuito do Poder.

Na Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos iniciaram o movimento para a formação da Confraria Bom Jesus dos Martírios, de homens negros, que tiveram autorização para construir este espaço religioso para si. Chama a atenção o fato de ser recoberta de azulejos portugueses. A Igreja Bom Jesus dos Martírios representa o poder da igreja, maior outrora do que hoje.

Em frente, o antigo Palácio do Governo do Estado, hoje MUPA, Museu Palácio Floriano Peixoto, representa outro dos poderes. O executivo, que emana do homem que detém os recursos.

No grande espaço livre, em frente, as bandeiras e uma imponente fonte, que infelizmente encontrava-se desligada, não sei se permanentemente.

Ali vemos também o Palácio das Águias, que abriga a Intendência Municipal . Veja que a águia está sobre o seu pórtico principal.

Na revitalização deste espaço público, ele ganhou as arquibancadas, e dois palcos laterais para apresentações. Hoje existe na Praia de Pajuçara um espaço de eventos, maior e que concentra as principais atividades nesse âmbito. E este, apesar de me parecer um ótimo lugar para realização de eventos de menor porte, está também abandonado.

Próximo destino: Circuito da Liberdade, assim denominado por nosso guia, pois ali se reuniam os artistas da época, e ali se construiu o Teatro Deodoro, uma verdadeira expressão da arte e comunicação, na terra da liberdade anunciada por Zumbi dos Palmares.

Em frente a ele encontra-se a Praça Marechal Deodoro, rodeada por estátuas de bronze onde crianças dominam algumas feras, representando a força do bem sobre o mal, porém, ao meu ver, a ingenuidade da criança não enxerga o seu poder, ela só detém o mal com sua força quando este se torna demasiado próximo.

No espaço da liberdade, encontramos ainda a justiça, representada por seu Tribunal, velo e novo, em harmonia e equilíbrio.

E a Academia Alagoana de Letras, como expressão maior da liberdade através do conhecimento.

Encerramos nosso circuito indo ao Mirante de São Gonçalo, de onde podemos ter uma vista magnifica da cidade, observando a região portuária junto ao Jaraguá, os quatro planos de relevo da cidade, e lá no alto, o muro que foi fortificação, e a casa de pólvora transformada em Capela para abrigar, finalmente, a imagem de São Gonçalo de Abrantes, deposta de seu lugar original.

O responsável pelo agraciamento a Alagoas através do protótipo de estátua da Liberdade, também tem aqui sua homenagem, através da exposição de seu busto, Rosalvo Ribeiro.

E finalmente a gente, aqui, feliz com nosso guia, que é administrador, turismólogo, com formação e credenciamento como guia turístico também, que atua como consultor e professor em área afeta. Parabéns! Um poço de conhecimento da história de sua cidade, e muito mais. Quem gosta de história e for se aventurar pelas Alagoas, podem chamar o:

HENRIQUE DANTAS (82)99341.9896 ou (82)98151.7025

E-MAIL singturalagoas@hotmail.com

e ainda dá para acompanhar o trabalho dele através do

(instagram) henrik_dantas    

Atenção, a maior parte do acima descrito é resultado de minha memória da enorme gama de fatos e datas que o Henrique nos forneceu, agregada de alguma pesquisa para finalização dos comentários. se houver algum erro de interpretação ou de dado histórico, fiquem livres para me corrigir.