es-Dois últimos dias em Salta

01.05.2018

Bom dia. Meu celular se foi mesmo. Me entristeceu, mas passou.

Levantei às 6h porque as sete esta programado um passeio para Cafayate. Um pouco antes das 7h já estou pronta conversando com a Antonela. Devia aguardar até às 7h40, mas eram 8h e nada. Ela liga para a agência e eles não fizeram a reserva, como compensação me oferecem a possibilidade de ir de táxi encontrar o grupo, ou deixar o passeio para quarta e fazer um city tour na parte da tarde. Opto pela segunda oferta, já que tenho mais um dia na cidade.

Apesar de outra noite mal dormida, já estou de pé, então separo a roupa que tenho que levar para lavar, mexo no computador e quando dá 11h, saio para levar a roupa, almoçar e visitar o Museu de Alta Montanha.

A lavanderia é bem próxima do hostel, um pouco mais de 2 quadras. Deixo pago os ARS 140 e ele me diz para voltar entre 20h30 e 21h.

Não quero comer comida, e nem gastar muito, então procuro o Mac Donalds da 'Peatonal' Alberdi. A promoção do dia fica por ARS 99 o combo, com suco de laranja. Um copo minúsculo, ainda bem que tenho minha água comigo. A batata está muito boa. Não é igual a servida no Brasil. E o lanche é bem pequeno também, apesar de ter 2 hambúrgueres. Tem um molho picante, o mais comum por aqui. Pergunto se têm a torta de maçã ou banana, para sobremesa e ela me devolve a pergunta querendo saber onde tem? No Brasil tem, e é o item que mais aprecio. A atendente fica com vontade de conhecer.

Mas depois que como, vou saindo e vejo o café Mac Donalds. E eles têm muitos tipos de tortas doces, peço uma que parece um mousse de doce de leite, coberta com uma fina camada de doce, de leite. Gasto mais ARS 40.

O Museu está ali encostado. Custa ARS 130 a entrada geral, e tanto a visita como a bilheteria são no primeiro andar. A primeira sala apresenta um pequeno vídeo mostrando as escavações que culminaram no achado das 3 crianças oferecidas às divindades no período incaico. Suas múmias têm mais de 500 anos, porém a secura e a frieza do ar mantiveram conservados até seus órgãos internos, tendo os pulmões expandidos e os demais órgãos desidratados. Sua pele, suas roupas, seus cabelos, os apetrechos que foram depositados com eles no altar de oferendas, pois entre estes povos, acreditava-se que eles iriam ao encontro dos deuses e precisavam portar coisas de valor, que indicassem sua importância social. Eram normalmente , filhos de chefes regionais, de povos aliados, dentro da dominação Inca de Norte a Sul , da América do Sul, na faixa mais oriental. As 3 múmias são chamadas de A donzela, por tratar-se de uma mocinha de 15 anos, A Menina do Raio, pois seu corpo foi atingido por um raio depois de morta, causando algumas queimaduras e deformidades na face e colo, e tem um pouco mais de 6 anos, e o menino, com 5 anos. Eram crianças que não tinham deformidades físicas, nem doenças, e pelo estado geral, comiam bem e eram bem tratadas, revelando assim sua condição social, além dos adornos e enfeites que portavam. Suas roupas ainda mantém o colorido. Eu vi o menino. Eles apresentam só um em cada período, trocando a cada seis meses, e mantém no Museu as mesmas condições climáticas encontradas na Alta Montanha à mais de 6 mil metros de altura.

Muitas informações são prestadas em textos e filmes pelos 3 andares do Museu, inclusive sobre a existência de muitos outros sítios como este explorado. Mas que os povos primitivos não querem mais que sejam violados, e que para efeito de estudo e conhecimento, os cientistas já entendem como suficiente.

Preciso refletir mais sobre o que significa par mim este comportamento do povo antigo, e sobre o comportamento do povo atual. Lá também mostram a múmia da menina de Cafayate, esta violada, foi vendida para particulares e demonstra a ignorância no trato com a história.

Acho que já esta na hora de voltar. Olho no relógio da igreja e são 15h. Irão me buscar às 15h30, então, deixe-me apressar o passo. Às 16h um carro com capacidade para 7 pessoas, vem me buscar para o city Tour. Nele já tem um casal mais velho, de argentinos das proximidades de Buenos Aires, e uma moça que vive na Capital argentina.

O casal é muito alegre e simpático, a moça, um pouco mais tímida.

A primeira parte do passeio foi em torno da Praça 9 de julho, e essa parte estou careca de saber, hahaha, sei mais do que ele, o guia. Mas passou-nos várias informações, pelo menos.

Dali fomos para o alto do Cerro São Bernardo, o que foi bom, assim encontrei o Juan e mandei uma mensagem para a Gisela sobre o 'sumiço' do meu celular.

Bem, até ali, nenhuma novidade. Mas aí começamos a passar por uma área mais longínqua da cidade, junto ao Memorial do General Guemes, herói no flanco norte, da independência argentina. Em frente à Praça 02 de fevereiro, ao Le Molino, onde acontecem as penhas gratuitas que a Caroline me falara. Seguimos para San Lourenço, uma cidade vizinha, aos pés das montanhas, e assim, com muito mais vegetação e umidade. Um lugar muito charmoso, com belas casas.

Lá mesmo, em San Lourenço, paramos num café, por volta de 18h, e comemos tortas com café. Eu pedi uma torta parecida com a de 'esquilos' que sempre como em Campos do Jordão, pois é feita com frutas secas e castanhas. E uma que me indicaram, de 'cayote'. Pelo que vi na internet, é um tipo de abóbora, que por fora lembra uma melancia, mas tem a carne branca e fibrosa. Peguei meio pedaço de cada, e gostei de ambas.


Na volta, paramos em um centro de artesanato, com muitas coisas bonitas, mas não comprei nada. Vi umas árvores que acho serem as resedás, mas têm com flores brancas, rosas e roxas.

Foi uma tarde bem divertida, sob o comando do José, e a companhia de pessoas inteligentes e divertidas.

Fui dormir tarde de novo, mas essa noite dormi melhor um pouco, até assustei quando acordada as seis da manhã pelo celular despertando.

Mas desta vez não me esqueceram, e o Miguel Ângelo passou um pouco depois das 7h15 para me pegar, interrompendo uma gostosa conversa com a Antonela, que só está aqui para substituir o Diego, o proprietário, que estava tirando uma semana de férias.

Hoje o passeio é de Van, e temos muitos ou só argentinos.

Tem o Sr.Jorge, viúvo há dois anos, com sua sobrinha. Uma casal não tao jovem, mas que parecem estar em lua de mel, duas amigas de uns trinta anos ou pouco mais, duas amigas de cerca de 50 anos, um casal com uma médica e seu marido, que me fez lembrar o Giba da Mara, minha prima, até no jeito, um outro casal que está viajando de motorhome, uma inglesa que vive em Buenos Aires, um outro casal que deve ser casado há muito tempo, pois nem juntos quiseram sentar, e ficavam falando alto um com o outro, para se ouvirem, um rapaz que viaja sozinho, e uma advogada, de uns 40 e poucos anos. O motorista e eu, claro! Lembrei de todos. Perfeito.A viagem ate Cafayate tem quase 200km, então, nos primeiros 100 km, dormi um pouco. Não sei o que está me acontecendo, mas acho que estou por demais ansiosa, assim, tenho dormido pouco, e ficado cansada.

Na primeira parada técnica, como chamou o Miguel - no Ponto das Cabras, me perguntou se eu estava bem. Disse-lhe que sim, bem cansada. Hahaha.

Mas ali tomei um café com leite e uma torta de chocolate para recarregar minhas energias. E ali terminava o Valle de Lerma, entrando numa parte de terreno mais acidentada. Do lado de fora as pessoas se divertiam tirando fotos das cabras e com as cabras. A Marcia, sobrinha do Sr. Jorge, pediu que ele tirasse uma foto dela com a cabra. Ele, desacostumado que esta com estes aparelhos de celular, enfiou o dedo no disparo da câmera e sacou logo umas 10 fotos, como se fosse uma metralhadora. Ai que medo. Ainda bem que esse homem não anda armado. Ali começamos uma bonita amizade de excursão.

Voltam a aparecer as montanhas multicoloridas, quebradas, e viradas, apontando suas camadas para cima. Me dá vontade de fazer um experimento, porque imagino-as como uma grande bolacha tipo waffer, com recheios coloridos, quebrada pelas mãos divinas, e permanecendo flutuando em um líquido que não as penetrasse, como se fossem impermeáveis. Vão flutuando e se amontoando como podem, deixando suas camadas expostas quando algum pedaço maior se acomoda sobre a parte menor, fazendo permanecer numa posição mais verticalizada. É assim por aqui, um grande waffer quebrado em diversas partes, e formando figuras interessantes, como um 'Titanic' afundando, um cemitério de lanchas, a garganta do diabo, o anfiteatro que tem uma acústica incrível, sapos, obeliscos, ramas de chocolate, frade, e tantas outras conforme viaje sua imaginação.

Quando fizemos uma parada para fotos na garganta do diabo, perguntei ao Miguel se poderia fazer fotos minhas, pois fiquei sem celular. Pronto! Tornou-se o fotógrafo oficial deste passeio. E ele conhece bem o terreno de modo a buscar os melhores ângulos. (Infelizmente ele não me enviou as fotos, assim, asa fotos aqui publicadas foram obtidas na internet).

Alguns lugares nos mostrou, mas só pararíamos no retorno, com a luz mais favorável.

Paramos num lugar onde tinha uma lhama deitada sob uma árvore, de nome Sofia, igual minha gata, mas que não gosta que lhe toquem as orelhas. Tirei uma foto e depois brinquei que ia sentar nela, segurando suas orelhas como se fosse uma moto.

Também sob a árvore, uma senhora muito agradável vendia artesanato criado por seu filho, e executado ali mesmo, naquele lugar lindo, porém inóspito. Tinha umas máscaras pequenas, que me lembravam as venezianas, e só não comprei pelos mesmos motivos aqui já expostos anteriormente, falta de espaço.

Paramos junto a uma formação que lembrava um sapo, não descemos, mas o Miguel, agora já chamado Miguelito por alguns, tirou fotos para mim também.

Chegamos a Cafayate, uma pequena cidade, famosa pela fabricação de vinhos de altitude, como a sepa de uva Torrontes - que só tem ocorrência aqui, pelas montanhas lindas e pela serenata, com uma festa de 5 dias que atrai turistas de toda a Argentina e outros lugares. Tem até um hotel 6 estrelas na cidade.

Paramos num comércio que nos ofereceu uma prova de vinho. O Miguel falou no caminho que ali tinhas vinho "patero", cujo suco é extraído na pisa da uva, um outro tipo de vinho artesanal, que foi o que provamos, e os artesanais das pequenas fábricas. Também nos ofereceram uvas passas, e milho salgado. Tem uma planta chamada 'munha munha', que dizem ser um Viagra natural. O rapaz comprou 3 pacotinhos, dizendo ser para amigos, hahaha. Eu comprei um pacote de uvas passas, com caroços, porque são muito doces, grandes e suculentas. Espero que não se importem na entrada ao Paraguai. E também um pacotinho de milho, para a viagem de amanhã. Gastei ARS 65.

Passamos pela única e principal Praça,  e fomos direto para a bodega. Em dois meses de viagem, as uvas agora já estão bem encorpadas, para a colheita em fevereiro e marco. Lindíssimos os parreirais.

Visitamos só a fábrica, os funcionários estavam em horário de almoço e a visita transcorreu tranquilamente. No final, degustamos um branco adoçado, e um tinto. O tinto é Malbec.  Nessa fábrica,  trabalham como nos foi explicado na Lopes, Chile. Colocam as tiras de carvalho dentro dos depósitos de inox, para que o vinho adquira o sabor da madeira, como se fossem saches de chá. Disseram-nos que essas madeiras só são reutilizadas 3 vezes. E quanto maior o tempo de maturação do vinho, mais tempo pode ser armazenado para consumo. Os vinhos jovens, sem maturação, devem ser consumidos em até um ano e meio.

Chamam de vinhos crianças. Achei muito engraçado, pois não se referem assim às pessoas, estes são 'niños' ou 'chicos'.

O Miguel fez mais umas fotos minhas ali, e pedi se poderia fazer junto ao parreiral. Só eu quis, então ele fez foto minha. 


Hora de almoçar, sentei-me junto às argentinas Nury e sua amiga, me convidei a sentar com elas, para não ficar só. São excelentes companhias. Pedimos  três empanadas cada uma, elas pediram água, eu levava a minha, adivinha? Saborizada. As famosas empanadas saltenhas, que ainda não havia comido. São assadas, menores, uma massa muito gostosa, e com recheio picante. De carne. Cada uma custava ARS 15, e na hora de pagar, não me deixaram fazê-lo. 'Disseram que tinham me convidado. Não foi bem assim, mas quiseram fazer-me um regalo e se cotizaram para isso. Muito lindas. Obrigada meninas.

Quando caminhávamos até a Praça, a médica se aproximou, de modo que continuamos todas juntas. Ela diz que seu marido prefere se acomodar em um lugar e relaxar, tendo feito isso no restaurante, tomando um vinho em companhia dos homens. Só eram 6 na viagem, sem contar o Chofer.

Passeamos ao redor da Praça até achar a sorveteria, pois queríamos provar o sorvete de vinho. Tinha do torrontes e do malbec. Escolhi uma casquinha de 3 bolas laterais, muito engraçada, por ARS 50, e a Nurya novamente quis me regalar. Pergunto:

_"Mas por que?"

E ela me responde:

_"Porque quero."

Considerei uma boa resposta e aceitei o presente. Meus sabores foram creme de figos, Mousse de damasco e vinho torrontes. Provei do Malbec que a medica pediu. Gostamos mais do meu, já que elas também provaram do meu, menos a Nurya que não consome nada alcoólico.

Dali fomos a igreja pois já eram 15h30, hora marcada para nosso encontro na Van, ali mesmo na Praça. Foi tempo suficiente para entrar, orar agradecendo e sair.

O retorno nos reservava parada para fotos do obelisco e as ramas de chocolate.

O anfiteatro, com uma parada maior e direito a um músico típico, com sua flauta e instrumento de corda, além de seu chapéu para gratificações. A formação parece a 'bombonera' de Buenos Aires, mas natural, muito encantador.

A ponte sobre o rio das Conchas, onde foi filmado o filme: Relato selvagem, nao assisti ainda. Mas incluo-o na minha lista de desejos.

Neste trecho de caminho, Sr. Jorge permaneceu um pouco de pé, contando 'chistes', nem todos entendi, mas as novas amigas me explicaram que não se deve usar as palavras 'cojer' ou 'escojer'. Em vez dis o devo usar 'elegir'. Mas parece que na Espanha não é assim, de forma que rende piadas um tanto quanto pornográficas nos países americanos de língua castelhana, hahaha. Acho que entendi pelo menos uma parte delas.

Em um posto de serviços chamado La Vinha, parada técnica novamente, só para banheiro e água. E descansei até a chegada em Salta. Fui a última a ser deixada, já perto de 20h. Meu amigo Miguel vai me passar as fotos por e-mail, conforme sugestão de minha filha. Obrigada a ambos, uma pela 'sugerencia' e ao outro pela disposição. (acho que ele perdeu o meu endereço de e-mail)

Logo que entrei, a Caroline me deu um recado da Gisela, dizendo que me esperava às 8h30 numa padaria. Agradeci a Carol e disse que então meu café da manhã seria com a nova amiga Gisela. As barreiras da língua se interpuseram. Fui tomar meu banho tranquilamente, e quando volto a cozinha, a Carol me pergunta se fui encontrar minha amiga.

_"Como assim? Mas não é de manhã?"

Ela conferiu as anotações, confusa e disse?

_ "Não, aqui esta marcado 20h30 ."

Oh não! Mas são mais de 21h... Uma confusão.

_ "Você não me ouviu dizer que ia tomar café da manhã com ela então?"

- "Sim. Ouvi. Mas pensei que seriam dois encontros."

Que pena. Lamento Gisela. Mas nao era para ser.

Fui arrumar minha bagagem, fiz contato com minha filha, relatei parte de minhas experiências e quedei-me, cansada, esgotada. O quarto agora com uma francesa, uma suíça, e um homem que chegou bem tarde. Quente, quente. Abafado. Mas foi minha melhor noite de sono.

Ainda estou esgotada, ainda mais sem conseguir me comunicar com meus amigos.

Faço meu desjejum, finalizo a arrumação, já tinha me despedido da Carol, linda e meiga, com abraços apertados, antes de dormir, porque, de manhã, quem esta é a Flor. Me despedi dela e dos franceses que estavam na cozinha. Parti a pé em direção ao terminal de ônibus, bem perto, menos de 1 km. Cheguei às 10h na estação.

Vou aguardar aqui, escrevendo, para passar o tempo e não perder as memórias. Salta me reservou coisas e pessoas lindíssimas, e alguns contratempos. Cada qual com seu objetivo no meu crescimento.

A perda material me fez recordar meu amigo George, que assaltado em seu sítio, no interior de São Paulo, diz calmamente que o assaltante devia estar mais precisado do que ele. Admirável, achei que não teria este despojamento. Mas tive. Tenho pena daquele homem. Deus o proteja, e que ele possa melhorar para não ter que se sujeitar mais a coisas como essas: sair sem pagar e extrair os objetos pessoais de outras pessoas. Isso é muito triste.

Antes de minha saída, chegaram dois ônibus, parecendo uma equipe vencedora de algum esporte, sendo esperados por muitos no terminal. Eram estudantes voltando de sua viagem de formatura de ensino médio. E de onde vinham? Balneário Camboriú. Saudades!!!

Agora, vou ao banheiro pois minha longa viagem de ônibus até o Paraguai, Assunção, se aproxima. O ônibus sairá daqui 30 minutos, às 12h30, e só chega ao destino às 8h da manhã do dia primeiro. Deus me fortaleça.