es-DELTA DO SÃO FRANCISCO, DE MANHÃ - PENEDO, À TARDE

22.11.2018

A água do chuveiro também é fria, o colchão está vencido e afunda no meio, mas de qualquer forma, acordei sem dor nas costas. Isso é bom.

A Portal Pousada oferece o café da manhã. Já vem o kit servido na sua mesa, meio litro de suco de goiaba, duas xícaras de café na garrafa térmica, um prato de macaxeira, uma pão francês na chapa, um ovo frito. Foi mais que o suficiente.

Continuo dormindo pouco, diante do meu ideal. Menos de 6 horas por noite. Mas estou bem. Ainda acho que tem relação com a claridade do dia. E, por volta de 8h30 já estou no Terminal Turístico. Porém, como estou só, terei que esperar mais gente. Eles saem com o mínimo de 2 pessoas.

Um rapaz que me atendeu me explica que ali tem 4 empresas que trabalham com o passeio de barco, e que o Terminal faz o controle para que todos possam atender o tráfego de turistas, sem ter que ficar disputando entre si, até porque a cidade é tão pequena, que todos são conhecidos. É a política da boa convivência. São 25 barcos ao todo. O que fui, disseram que carregava até 20 pessoas, mas só contei 17 coletes salva-vidas.

Chegaram outros turistas particulares interessados no passeio e às 9h30 deixávamos o Cais, com 4 passageiros e o navegador, Linaldo. Digo particulares porque as companhias, como a CVC, trazem turistas e já fecham os pacotes, normalmente para quarta e sábado, pois nos demais dias, levam os turistas para as piscinas naturais pelo litoral de Alagoas.

Meus três companheiros de viagem são goianos, residentes em Brasília desde sua fundação. São irmãos e viajam sozinhos, apesar de serem casados. Uma viagem dos meninos.

Quanto a isso, cheguei a uma conclusão, existem os homens comprometidos e os livres. Em relação aos dois tipos pode-se dizer que se dividem em duas categorias (desculpem-me a generalização, mas é claro que existem exceções):

  • Acham que você está 'dando mole' e estão interessados, se insinuando;
  • Acham que você está 'dando mole', mas não estão interessados e, às vezes tentam se justificar.

Não acho que estou com cara de quem está querendo algo, mas sou sorridente, comunicativa e ando sozinha. Sou encarada como uma 'aberração'. Mas como não pareço uma, eu acho, então devo estar procurando companhia. Será que é essa a conclusão?

Os meus companheiros de passeio deixaram bem claro que são casados, por mais de uma vez. Mas são muito simpáticos, viajam de carro, já estiveram em Maceió, tinham dormido em Penedo e iam dali direto para Aracaju. Moram em Taguatinga, cidade Satélite. Um deles é funcionário da Caixa Federal. Mas nosso contato se resumiu aos 35 minutos de ida, mais os 35 minutos de volta, nos 13 km de rio que separam Piaçabuçu da Foz do Rio São Francisco.

Na ida, fui fazendo as fotos do trajeto. Vimos muitos barcos pesqueiros e sua técnica nos chamou a atenção. Eles jogam a rede e depois ficam jogando um pedaço de pau, preso a uma corda. O objetivo é assustar os peixes que estão dentro da área da rede, de modo que eles nadem para a rede e fiquem presos.

Nesse tipo de embarcação, quem determina o tempo de permanência, são os passageiros. Junto à Foz, nas dunas que emolduram o Delta, desembarcamos todos. Um dos irmãos preferiu tomar banho no rio, junto ao barco. Dois se aventuraram nas dunas, sentido mar, e eu fui pelas dunas, sentido encontro de rio e mar. Avistei uns coqueiros e usei-os como orientação, já que sou desnorteada.

No meu caminho, fui encontrando algumas lagoas rasas, com água do mar que ficou presa, algumas estavam sem água, mas a areia estava encharcada, meio barrenta.

As dunas, pelas quais caminhei, não têm areia fofa como nos Lençóis Maranhenses ou mesmo na Praia da Joaquina, em Florianópolis. É bonito observar o mar surgindo do outro lado, e o encontro do rio com o mar é bem tranquilo, sem diferenças de cor, só aumentando um poco as ondulações da água.

O Linaldo mostrou um farol no meio da água e disse que ali havia sido um povoado, mas que, com a barragem do São Francisco, o volume de água deste diminuiu muito, fazendo com que o mar avançasse mais no leito do rio, alargando-o e cobrindo o lugarejo. Abaixo o encontro tranquilo entre rio e mar.

Na praia siris, garças, e pequenos crustáceos. Muitos vendedores de artesanato e alguns alimentos, a base de peixe, ou cocadas. Achei muita gente para pequenos grupos como o nosso, mas enquanto ali estávamos, chegou dois catamarãs de companhias turísticas, cheios de prováveis compradores.

Quando fui caminhar, no final de minha trilha, vi um vendedor solitário, me aproximei do senhor Manuel, que disse preferir ficar ali do que na 'muvuca' do outro lado, pois os turistas procuram aquele lugar para se banhar, na lagoa com pouca água, pois o rio é perigoso e fundo, e o mar está um pouco mais afastado. Disse-me que já ficou com mulher, mas nunca se casou ou morou junto, perguntou-me o meu estado civil, coisa que a maioria deles faz, e disse-me que tinha esperança de encontrar uma mulher ali, naquele lugar ainda. Prazer em conhecê-lo, já vou indo que está ficando tarde... (hahaha)

Ainda no retorno, um dos vendedores falou que as mercadorias já estavam quase arrumadas, se eu quisesse olhar. Eu perguntei se eram de graça, ou se ele trocaria por minhas sandálias havaianas, pois no celular não tinha barganha, e eu não tinha mais nada comigo.

De volta ao barco, observei que o caminho agora é mais perto da margem. Perguntei ao Linaldo com uma suposição, que se confirmou. Por estarmos contra a corrente, na margem, que é mais rasa, requer menos esforço do motor. Tirei algumas fotos, principalmente do mangue, pois agora estávamos bem próximos a este, mas a volta foi mais contemplativa. Chegamos de volta às 12h10, ou seja, fizemos o passeio em pouco menos de 3 horas, mas satisfatórias. 

Nesse horário, uma das moradoras lavava as roupas da casa nas escadas do rio. Interpelei-a, pedindo autorização para uma foto. Ela , um pouco constrangida, afirmou que não tem o hábito de lavar ali as roupas, mas que sua nenê tinha sujado muitas coisas no dia anterior, e com a quantidade de água do rio, ficava mais fácil o serviço. A água encanada nas casas modificou este hábito.

Voltei rápido para a pousada para banhar-me, arrumar minhas coisas, comer o lanche que sobrou do dia anterior, e voltar para a Rodoviária, pegar um micro-ônibus para Penedo.

Minha prima de Aracaju tem uma comadre em Penedo, e quando eu disse que pretendia passar a noite por lá, antes de rumar para Aracaju, ela perguntou-me se não queria hospedar-me na casa deles.

_ "Se não for inconveniente, gostaria sim."

_ "Você não imagina como são pessoas maravilhosas. Tipo, a grande família, literalmente, abençoados."

Assim que, tomei o micro ônibus às 13h45, pagando R$ 6,00 pelo transporte de 45 minutos até Penedo, descendo em frente ao supermercado 15 e aguardando ali minha nova anfitriã. Quando chegaram, Marcia e Carlei, na verdade, não eram desconhecidos. Já tínhamos nos encontrado uma vez em na capital de Sergipe.

Muito atarefados que são, me levaram para sua grande casa, comentando que iriam para Aracaju no dia seguinte, sem saber que esta também era minha intenção, oferecendo sua para uma permanência um pouco maior na cidade. Fiquei agradecida, mas me interessei pela carona. Confirmada mais essa cortesia, chegamos à casa. Fui apresentada à mãe de Marcia, a alegre Dona Maria, aquela pessoa que parece ser uma parceirona nos cuidados com a casa e com os filhos.

Entendi depois o que a minha prima quis dizer com "a grande família". Moram ali, nas duas plantas residências da propriedade, o casal com seus quatro filhos, a avó das crianças, e mais três sobrinhos, num ambiente que transpira harmonia. Certo que devem haver os problemas, como em toda família. Mas a vibração é ótima.

Depois de instalada no quarto de uma das filhas, que está vivendo, durante a semana, numa cidade que dista 73 km, para estudar, deixei minha bagagem para correr até o Centro Histórico a fim de fazer umas visitas que não pude realizar em agosto do ano de 2017, em função do horário de funcionamento, e também porque queria ver o por do sol no São Francisco, novamente.

Devido as demandas de meus anfitriões diante da viagem do dia seguinte, não puderam me acompanhar nas andanças pela cidade. Assim, a pé mesmo, sai dali em direção à Santa Casa de Misericórdia, caminhei por uma rua cheia de antigos casarões, a maior parte em bom estado de conservação, e com utilização do espaço , até chegar à Praça da Matriz, passando antes pela Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, onde acontecia a reza do terço da misericórdia, e onde aproveitei para fazer minha oração de agradecimento, como de costume.

A Praça já era conhecida da viagem anterior, a Catedral estava novamente de portas cerradas, mas já me senti orientada. Rodeei a Matriz, desci pela calçada, e não pela escada, sentido Convento e deparei-me com uma placa que chamou minha atenção. Dizia respeito a comidas típicas, como num museu. A porta estava aberta e fui entrando. Era na verdade o ateliê do artista plástico Timaia. Ele veio ao meu encontro, me mostrou trabalhos seus e de seus alunos, esculturas em madeira de cedro, sucupira e outras. A maioria retratando santos católicos, mas ele afirmou não ser sua única temática, apesar de ser a dominante, pois é a mais vendável. Outros temas ele atende encomendas.

Diante dessa afirmativa, começamos a falar de religião, e ele afirmou que a religiosidade é uma forma de controle das pessoas. Eu contestei, pois entendo que a religiosidade é uma necessidade, intrínseca ao ser humano, que busca segurança, apoio, esclarecimento. No entanto vejo a igreja, enquanto instituição religiosa, independente da religião e do nome dado ao estabelecimento de regras que congregam pessoas com semelhantes princípios e necessidades religiosas, como o organismo limitador e controlador por ele mencionado. Ele então cita Confúcio, e diz que, alguém pega lá alguns de seus ilustres ditos, junta tudo e transforma numa religião. E inventa um nome tirado de alguma das frases, e agrega uma porção de seguidores. Creio que pensamos da mesma forma, só expressamos de maneira diferente. Ele me diz que está com poucas obras ali porque está fazendo uma exposição no saguão do Teatro Municipal, e que, se der tempo, para eu visitar, pois o expediente encerra às 17 horas, o que faz-me lembrar que já está na hora de despedir-me, pois já são 16h15.

Antes que eu saia, três de seus netos chegam da escola pedindo benção ao avô, que entusiasmado que estava com a conversa, não ouve e é chamado a atenção por sua esposa. Sua família o rodeia e faz do ateliê um ambiente familiar.

Desço apressada os últimos quarteirões que me separam do Centro. Aquela parte da cidade já está com a fiação elétrica toda embutida, o calçamento foi refeito. Estava toda em obras durante minha estada anterior. As ruas dos bairros estão sendo pavimentadas, e a cidade parece estar bem assistida.

Na escolha entre Igreja de São Gonçalo e Teatro 7 de Setembro, opto pela primeira, pois sabia que minha passagem ali seria mais rápida, e sobraria tempo para o Teatro.

Boa escolha. Mas a visita ao Teatro também seria breve, apesar de ser uma miniatura do Teatro de Manaus, ele realmente é bem pequeno, possui as cadeiras centrais e três andares de balcões. Todos em madeira, ricamente ornamentados. Um funcionário acendeu as luzes para minha visita e autorizou-me a subir os altos degraus da escada que leva ao palco. Uma sensação única estar ali, diante de um possível público. Emociono-me mesmo diante das cadeiras vazias.

Depois de visitar o teatro, propriamente dito, vou inspecionar as obras de Timaia no saguão. Elas têm uma riqueza de detalhes cuidadosamente esculpidas na madeira, que mantida só com verniz, dá uma característica impar à obra.

Ainda não são 17 horas, irei também até a famosa Igreja da Corrente, talvez a mais importante na história de Penedo, não sei, mas ricamente decorada com detalhes em ouro, num minúsculo espaço, e bem em frente ao majestoso Rio São Francisco.

Ando para lá e para cá na calçada às margens do rio, enquanto o horário do por do sol não chega, e vou observando o trabalho da balsa, que roda no eixo quando chega no centro do rio, pois ao contrário de balsas maiores, onde a embarcação permite que você entre com o carro por um lado, permaneça de frente pois desembarcará pelo lado oposto, nessa, o carro é colocado de ré, pois o desembarque é pelo mesmo lado da entrada. O valor para veículos de passeio é de R$ 28,00 e até os pedestres pagam, R$ 3,50 para quem não estiver de carro.

Enquanto o sol se põe, continuo a caminhada, procurando os melhores ângulos para as fotos. Após sua triunfal despedida, procuro uma barraca para um café com leite e um bolo de leite. Gastei a pequena fortuna de R$ 4,00 e ainda tive o privilégio de ser bem atendida, por funcionários simpáticos e sorridentes, e ouvir o canto de um bando de pássaros que se instalavam na árvore ao lado da barraca para o sono noturno.

A Marcia disse-me que se eu quisesse, às 18h poderia me pegar para o retorno à casa. Um pouco antes deste horário mandei-lhe uma mensagem pelo What'sApp dizendo que não se preocupasse, poderia voltar a pé mesmo, como fui.

Por volta de 18h20 iniciei minha caminhada de volta. Já escurecera, mas a cidade me inspirava tranquilidade e segurança. Quando passei de volta na rua dos casarões, por ser uma avenida plana e com as calçadas largas, muitos a usam para caminhar ou correr, se exercitando. A Santa Casa estava iluminada, com lâmpadas coloridas que vão se alternando, feito um pisca-pisca de Natal. Só estava com receio de não achar a casa, mas quando fui chegando perto, identifiquei pelo tamanho da construção.

Quem me atendeu ao portão, a pedido da vó, foi o Nicolas, por causa dos cachorros, um pequeno poodle e um cão maior, talvez pastor alemão de nome Sócrates, dócil, mas que sobe na gente, e por ser grande, me fez tremer na base. Os dois latiam muito e acabaram sendo presos.

Lá dentro conheci também a caçula da grande família, a tímida, bela e sorridente Nicole. Dona Maria estava a preparar o jantar para o genro, e comentou que sua filha, mãe dos dois netos que ali estavam, tem uma barraca e faz acarajé, substituindo-a na atividade, pois devido a uma 'estrepolia' que ela fez, segundo suas próprias palavras, empurrando um pesado guarda-roupas, e usando como alavanca seu próprio corpo, apoiado num batente, quebrou um osso da bacia, e não tem mais condição de fazer uma diversidade de serviços e esforços que antes executava com tranquilidade.

Hummm. Apeteceu-me o acarajé. Minha prima de Maceió tinha proposto comermos um, mas não houve tempo. Como demonstrei interesse em degustar essa iguaria, seu neto Nicolas, que já terminava de se aprontar para ir à Faculdade, foi incumbido de levar-me, de carro.

Minha intenção era retornar a pé, e estimei mais de 2 km de distância. A noite estava fresca, e eu já tinha andado mais de 5 km durante a tarde, o calcanhar doía um pouco, mas nada que eu já não esteja acostumada. Seria tranquilo.

A Sandra, irmã de Marcia, tem sua barraca na Praça onde tem uma gruta para Nossa Senhora de Fátima, e uma escola do outro lado da rua. Mas ela disse que os estudantes não constituem seu público. Uma barraca de bebidas e churrasquinho, de sua cunhada, completam a oferta de alimentação no local. A Sandra é tão jovem e miúda que pensei tratar-se de uma irmã ou prima do Nicolas. Ela já me esperava.

Solicitei uma tomada para carregar o meu celular, pois ainda não houvera tempo, desde que sai de Piaçabuçu. Solicitei também um acarajé no prato e perguntei se o camarão era sem casca, que me faz mal. Não era, mas poderia ser servido a parte, e por ser do maior, e estar fatiado, facilitaria eu mesma descascar. Enquanto aguardava, ficamos conversando Sandra, sua cunhada Quitéria, grávida de 6 semanas, e eu. Ela chupava limão com sal e, só de lembrar -me do limão, minha boca já saliva de vontade. Durante minhas duas gestações, também o consumi, mas nunca com sal.

O acarajé foi servido: bolinho de feijão, vatapá, pepino cortadinho e camarão. Tomei um guaraná e gastei R$ 12,50 num jantar gostoso e diferenciado.

Uma chuva caiu de repente, como já observei ser o padrão da região. O Moisés, marido da Sandra, e seu cunhado, montaram algumas estruturas de cobertura e os clientes se abrigaram, eu já estava terminando meu quitute.

Quando perguntei se tinham ideia da distância a ser percorrida, o Moisés disse que me levaria de volta. Assim que não tive que caminhar mais. Despedi-me. Cumprimentei Dona Maria e fui conduzida pela Nicole até meu quarto. Quando a Marcia chegou, eu já havia me recolhido, tomado meu banho e estava a atualizar os relatos para o blog. Ela, através de mensagens, desculpou-se por não visto minhas mensagens, pois estava lecionando. Eu combinando o horário de saída para programar o despertador.

Fui deitar era quase uma hora. Programei o relógio para despertar às 5h. A ideia era pegar a Balsa das 6 horas. A Marcia tinha compromissos na Capital do outro Estado.