es-De San Pedro de Atacama (Chile) a Salta (Argentina)

26.04.2018

Não lembrava se o ônibus para Salta saía às 9h30 ou 9h55, coloquei o relógio para despertar às 8h. Teria que guardar algumas coisas ainda, tomar banho, pois na noite anterior a água estava pouca e por isso, muito quente. Mas acordei às 7h. O Niklas também, 8h30 ele sairia para o Salar de Uyunny, e de lá para La Paz.

Como a Melissa ainda dormia, resolvi fazer tudo que precisava do lado de fora do quarto para depois terminar a mala. Fui tomar banho, agora não tinha mais água encanada. Teria que usar os galões de 5 litros que eles reservam para estas situações. Mas, tomar, banho, FRIO. Brrrrrr.......... Fazer o que? Eu ainda estava um pouco salgada do dia anterior.

Até que a experiência não foi tão ruim. E meu cabelo fica bem mais bonito quando lavado em água fria. Agora vou tomar o café da manhã, com uma das empanadas que comprei ontem à noite. E chá. Dei as pontas de massa da empanada para a coelha Cookie, pois a Maria não veio ontem, assim, só os hospedes lhe deram de comer. Infelizmente, fiquei sem me despedir da Maria.

E, não tem mais jeito, são 8h, já sei que o ônibus parte às 9h30. Tenho que terminar de arrumar minhas coisas. Ajeito tudo sem acordar a Melissa. Deixo um bilhete de boa sorte para ela, e beijos para Maria e Lucía. O Terminal está a menos de duas quadras de distância de modo que, às 9h10 estou lá. Um ônibus da Gemini sai para Salta no mesmo horário e chegou primeiro no Terminal. O local estava entupido de gente e bagagem.

O ônibus da Pulmann se aproxima e rapidamente acomoda os passageiros. As malas, nem tão rapidamente assim. Não coube tudo no bagageiro. Algumas malas foram acomodadas na cabine do condutor.

São 150 km até a divisa com a Argentina. Mas de muita subida. Um pouco depois que saímos da rodoviária, o assistente do motorista entrega lanches com biscoitos recheados e suco de abacaxi em caixinha. Por volta de meio dia estamos na aduana. São três fases até a liberação. Saímos todos do ônibus com nossa bagagem de mão. Passamos pela policia da aduana. Hora de apresentar o tal do PDI, que não tenho. A moça me cobra, digo que não tenho, acho que porque entrei com chilenos. Ela diz que chilenos não necessitam, mas estrangeiros sim. No entanto, confere meus dados no sistema, bate o carimbo e me libera. Entendo como uma burocracia desnecessária para quem está com passaporte. Passo para a segunda fila, que acho que é a de entrada na Argentina. Novo carimbo no passaporte. E saio buscar minha mochila, que esta sozinha no chão, lá fora, pois eu era a última da fila, pois passei no banheiro antes de entrar na nela. Entro de novo no prédio e passo minhas duas mochilas pelo detector. Quando passo, o assistente do motorista leva a papelada do ônibus com a lista de passageiros para a última etapa. Duas horas depois da entrada, saímos da aduana.

Como minha empanada com água. O assistente volta a distribuir caixinhas de merenda, desta vez continha também bolachas salgadas. O tempo total de viagem é de 11 horas, só fizemos parada na aduana, que não tem nada para comer, nem uma lanchonete sequer, e em Jujuy, às 17 horas, de 15 minutos na rodoviária. Ou seja, sem comer o dia inteiro. Levei mais de um litro de água que tomei ao longo do caminho. E também tinha amendoim, que por aqui chamam de 'mani'.

Ao meu lado, no ônibus, está um argentino de Mendoza, muito alegre e comunicativo. Conversamos antes de o ônibus sair, depois dormi um montão porque a estrada era muito reta e repetitiva. Mas por volta de 16h, entramos num trecho com mudança completa de paisagem, muito morro, muita curva e uma descida que não acabava mais.

Assim, fiquei invadindo a área dele para fotografar, pois eu estava na poltrona 64, do corredor, última fila do ônibus. E ele ia me antecipando as coisas, mostrando áreas cultivadas com milho, pêssego... Perguntei-lhe se ali plantavam quinoa, disse-me que não.

Os caracoles da Cordilheira para chegar a Santiago são fichinha perto dessa estrada, que também serpenteia pela montanha, mas em uma estrada estreita, com uma única pista de cada mão, e sem acostamento. Em algumas curvas, o ônibus invade a pista na contramão. Em alguns trechos, o asfalto sumiu. Em outros, muita terra e areia do barranco espalham-se pela pista. E a vista, é um espetáculo.

As montanhas são multicoloridas pela manifestação de vários minerais ali depositados ao longo de milhões de anos, os mais pesados se concentrando nas partes mais baixas. As máquinas e celulares pipocam fotos o tempo todo. Todos bem acordados e deslumbrados com tão magnífico cenário. Sem falar dos cactos, enormes fontes de água, semelhantes aos dos filmes de Fairwest. A descida termina, mas as cores continuam. Passamos por Pumnamarca sem parar. É um povoado bem pequeno. O caminho fica mais reto, a vegetação mais abundante e o câmbio de clima e região climática é muito evidente.

Jujuy é uma cidade bem grande, capital da província de mesmo nome. Ali descem alguns poucos passageiros. Já são mais de 17h.

Conseguimos ainda apreciar a paisagem até quase 20h. Agora as montanhas são arborizadas, mais suaves, com rios e muitas fazendas com criação de vários tipos de animais, e plantações.

Passamos por um lugar com casas grandes e bonitas, num padrão mais global, em contraste com tantas outras que vimos, de materiais rústicos próprios da região. O argentino disse tratar-se de casas de final de semana. Certamente para gente mais abastada da região.

Um soninho a mais, e lá esta Salta, muitas luzes, bem maior do que eu imaginava. São quase 600 mil habitantes. Do tamanho de Sorocaba, ou um pouco menor. Jujuy é ainda maior, tem mais de 700 mil habitantes. Só que na província toda.

Já estava escuro quando chegamos a Salta, às 20h15. Assim, passei no caixa eletrônico para realizar um saque, e procurei um táxi. O Hostal La covacha fica bem perto do Terminal, para uma cidade grande. Paguei ARS 40, o que corresponde a menos de R$ 9,00. No final da viagem, o chofer desceu minha bagagem e me beijou o rosto, se despedindo. Achei um gesto muito simpático.

Instalei-me, de novo em um quarto misto, mas agora com camas e não beliches, a Caroline me entregou um mapa da cidade com muitos dos pontos importantes, onde ela fez suas próprias marcações de lugares para comer. O motorista do taxi me falou das penhas folclóricas, de modo que fiquei muito interessada. Perguntei a Caroline e ela disse ter dois locais. Uma na cidade, onde se paga o couvert artístico, e outra mais afastada, onde os artistas se manifestam livremente e não cobram nada.

Preferi a da cidade, assim poderia ir caminhando. São umas 10 quadras de distância, e estava torcendo para valer a pena, pois estava também com muita fome, depois de passar o dia a bolachas e uma empanada.

Um trecho da Rua Balcarce concentra as penhas. Fui abordada por uma garçonete bem rapidamente. Disse que não se cobrava o couvert. Assim entrei na 'La Soneda', fiquei numa mesa pequena próxima ao palco, e um trio tocava música regional. Alguns casais dançavam. Parecia quadrilha de festa junina. E palmas são batidas no ritmo da música, como no flamenco. Adorei, lógico.

No cardápio achei um nome que a Caroline havia mencionado, e que até aqui, ainda não tinha ouvido: 'Humita'.

_O que é isso?

_ É feito de 'maiz'. Muito gostoso. Uma grande porção. - pois disse-lhe que estava com muita fome.

Muito bem, vou comer isso mesmo, uma água de laranja. Como antepasto vem pão e duas pequenas cumbucas. A garçonete já me previne que uma é picante. A outra é feita de feijão com cebola e urucum, como uma salada, no azeite. Muito bom!

A humita é um creme de milho mais consistente e com mais temperos. Muito bom também.

Tem um casal de dançarinos que se apresentam e depois chamam as pessoas para dançarem. O rapaz chamou uma moça perto de minha mesa. Decepção. Por que não fui eu?

Mais uma vez. Chamou outra da mesa ao lado, mas ela recusou. Sorte a minha. Lá vou eu dançar 'chalchalero'. É uma dança que lembra as quadrilhas. São vários os ritmos, mas as danças são semelhantes. Voltei sem fôlego para a mesa. Terminei minha água, paguei minha conta de ARS 205. Deixei 230 pois não cobraram a 'propina'.

Cheguei de volta ao Hostel feliz e satisfeita à 1h da manhã, caminhando sozinha por 2 km numa rua com muita gente e muita segurança.