es-De Rio Grande a Montevidéu - saindo pelo Chuí

20.03.2018

Levantei-me mais tarde, queria esperar o café da manhã e ainda nao havia decidido como prosseguir a viagem.

Após um pao quentinho, aquecido na lancheira, ficou mais fácil raciocinar.

Perguntei ao Bruno, que penso ser o dono do Hotel Miramar, e um outro seu companheiro que estava na recepção, e eles me sugeriram tomar o ônibus urbano para a Quinta, um povoado junto à estrada. A saída era a partir da mesma Praça Tamandaré em que descera no dia anterior. No caminho parei para fotografar a Igreja Nossa Senhora do Carmo, agradecer e pedir proteção.

Na praça, pedi orientação a uma comerciante que me indicou a parada de ônibus. La encontrei uma simpática senhora que me ajudou a identificar o mesmo.

Confesso para vocês que não é fácil andar de coletivo com as mochilas. Passar na catraca é uma luta. Pedi ao cobrador do ônibus que queria ficar na estrada, perto do trevo para o Chuí. Ele me disse que era além do ponto final, mas, foi solidário e acabou me deixando bem no trevo, depois de passar pela Quinta e por uma região de sítios, com estrada de terra e tudo, onde faz ponto final. Notei no ônibus uma porta central que não é usada para descida. Estranhei. Então vi uma plaquinha e entendi que é para acesso de cadeirantes. Não sei se outras cidades, no Brasil, usam esse mesmo sistema, mas ainda não conhecia dessa forma.

Na hora que desci do onibus, no trevo, além de me dizer que devia ser fácil pegar carona por ali, pois sempre desciam passageiros com esse objetivo, ainda colocou a cabeça pela janela indicando-me a direção a seguir.

Depois de uns 500 metros pela Rodovia, cheguei a um ponto de ônibus, onde comecei a pedir carona, agora mais à vontade. Tanto fazia, carro pequeno ou caminhão, para todos ergui meu dedão. Uns 20 minutos depois, parou o  Sr. Renato, 76 anos, morador de Pelotas, que tem sítio nos diques (sei lá o que significa isso).

Ele me contou que é viúvo, sua esposa morreu em dezembro, vitima de um câncer de intestino. Disse também que o filho, de 42 anos, também esta se recuperando de uma leucemia. Que pagou R$ 200 mil para uma empresa de busca de doadores, após não ter achado compatibilidade maior que 50% entre os familiares. A doadora encontrada foi do Canadá, e ele operou em junho, tendo sucesso no procedimento. Os diques, pelo que entendi depois, ficam logo apos a reserva do Taim. Assim, como a próxima cidade era longe, prossegui com ele por uma hora mais ou menos, e fiquei em frente à Sede Administrativa da Reserva Ecológica do Taim. Com a recomendação, se não conseguisse carona,de que  às 15h passaria um ônibus para o Chuí. Fiquei no meio do nada. A chuva se aproximando. O relógio marcava 13h15 quando ali cheguei.

As 13h50 o Claudiomiro, ou 'Chorão' para os amigos, encostou o caminhão indo para o Chuí. Não posso reclamar. Estou sendo favorecida.

Coincidências da vida, ele também e viúvo sua esposa também morreu de câncer do intestino, mas ele acha que por causa de tanto regime para emagrecer. Deixou uma filha com nove anos de idade, que já conta com 13, e mora com a avó materna, o que lhe possibilita seguir na atividade de caminhoneiro.

Ele é da região mesmo, e já viajou o Brasil inteiro de caminhão, e uma vez de moto com sua esposa, pela América do Sul. Atualmente, transporta material de construção na região compreendida entre Pelotas e Chuí.

Mostrou-me as três usinas eólicas construídas nos últimos oito anos, passando a gerar energia no ultimo ano, energia esta toda consumida por São Paulo. Diz ainda que alguns motores estão parados, pois a geração de energia é muito maior do que a esperada. E a subestação não comporta todo o volume. A região é muito plana, assim, venta muito o ano todo. Já existem projetos para implantação de mais usinas. E o Uruguai resolveu implantar em seu território também este modelo, a partir do sucesso daquelas.

Disse-me ainda que a região sobrevive principalmente do cultivo do arroz, visto que a área é muito irrigada, ficando entre dois grandes lagos. E da criação de gado de corte.

Muito alegre ele falou do gosto por charutos cubanos e por whisky, já que no free shop encontra boas marcas por ótimos preços. Uma maneira de se sentir 'bacana'. E disse também que todo gaúcho toma chimarrão, e que compartilha com os amigos. Já no Uruguai, a erva é mais forte, e eles não oferecem para ninguém, e não gostam que peçam. Parece-me mais higiênico assim, sei lá.

Levou-me ate o Chuí, me indicou a Rodoviária para pegar um táxi ate a aduana, pois achou ser a melhor opção para conseguir uma carona para o Uruguai.

Andei mais dois quarteirões arrastando a mochila. Obrigada filha, por ter comprado uma mochila com rodinhas. O taxi estava no ponto. Combinei com o motorista R$15,00 pela corrida. Um moço bonito com dreads, nascido ali mesmo, mas com um sotaque do norte do estado. Falando com tantos gaúchos, percebo que nem todos têm o mesmo sotaque. O Chorão havia me dito que ali eles sofrem influência do castelhano na fala. Não era o caso do taxista, disse ele que seu pai, que é da região Norte do Rio Grande do Sul, foi o responsável pela sua educação e maneira de falar.

Na aduana, corri para o banheiro. Papel higiênico? O que carrego na mochila mesmo. Cheguei por volta de 18 h do Brasil. Mas o Uruguai não pratica o horário de verão. Fiz o registro de entrada após conversar com o fiscal, usando o passaporte. Primeiras palavras em castelhano. Ai que medo!

Depois, do lado de fora do escritório da aduana, toda ansiosa, dedão levantado para cada carro que passava. Os caminhões brasileiros aguardavam a liberação para a entrada, que normalmente ocorre por volta de 18 horas. A chuva ameaçava recomeçar. Minha aflição aumentava. Dois caminhões pararam adiante, corri até lá com as malas, mas eles iam, ambos, para uma cidade vizinha. Não consegui entender o nome. Mudei de estratégia e fui para o corredor central, onde ficaria na calçada certa para falar com os motoristas quando passassem.

Uma grande Scania passou e eu disse: 'Montevideo? o 'V' em castelhano, tem som de 'B'.

O motorista concordou e lá fui eu, de novo, de carona, agora com o Sr. Horácio, 61 anos, carregando garrafas de vidro para vinho da Bodega Faisan (lembrei-me de meus queridos amigos apreciadores de vinho, em especial da Sonia e do Paulo). Perdi só uns 30 minutos na aduana.(expressão de alegria:))

Até meu destino, seriam 340 km pela 'Ruta 9'. Ele ficaria um pouco antes.

A conversa com Sr.Horácio fluiu bem, disse-me que eu me expressava com clareza, que ficava fácil me entender, e que eu também o entendia bem.

Disse-lhe que sou 'jubilada' (aposentada), no que o surpreendi, pois no Uruguai, para se aposentar devem-se cumprir duas exigências, ter no mínimo 30 anos de contribuição a previdência e no mínimo 60 anos de idade. Que eles têm três tipos de previdência, a militar, a rural e a geral. Se aposentar-se por uma delas, não pode mais trabalhar naquele ramo de atividade. A aposentadoria é baixa, assim, as pessoas demoram para requere-la, e a burocracia é grande.

Ele é casado, tem uma filha de 23 anos, um gato preto e branco e um cachorro novinho que anda apanhando do gato. Mostrou-me as fotos. Eu já tinha mostrado de minhas lindas filhas, que aliás, mostrei pelo caminho todo.

Na maior parte do caminho, pegamos muita chuva. Não paramos para nada. Ainda bem que tinha preparado aquele sanduíche de mortadela, tinha uns damascos, que ele nunca tinha provado e uns 300 ml água, que tomei com parcimônia, pois não podia ficar com vontade de ir ao banheiro.

Ele me falou do gosto por bebidas, que como o uruguaio é o povo que mais consome whisky per capita. Que a produção da bodega Faisan fica quase toda para o consumo interno e que fabricam 10 milhões de litros de vinho ao ano.

Vimos o por do sol quando passávamos pelo 'Pan de Azucar', que fica na cidade com o mesmo nome.

 Disse-me também que o Uruguai tem três milhões de habitantes, estando metade na capital. A segunda maior cidade do país deve  ser Salto, das águas termais, e tem cerca de 40 mil habitantes. Eu disse que ouvira dizer, em minha outra viagem, que naquele país, para cada habitante existem 10 cabeças de gado bovino. Ele achou possível.

Por volta de 20h ele estacionou junto ao Parador e desci para verificar se encontrava pouso. Não havia mais lugar disponível. Na minha afobação durante a entrada no Uruguai, sem sinal de internet, preocupada com a linguagem, esqueci-me de trocar dinheiro.

A próxima opção seria ele me deixar junto ao pedágio, onde poderia tomar um ônibus para completar o percurso. Mas, sem pesos uruguaios (URL)?

Ele não dispunha para cambiar para mim, pois também carregava dólares, para trocar por reais no Brasil. Assim, só tinha uns 200 pesos consigo.

Pela sua expressão percebi a aflição ao me deixar ali sozinha naquela hora da noite. Mas disse-lhe que ficasse tranquilo. Sou do bem e alguém me ajudaria. Desejei-lhe boa viagem, com as bênçãos de Deus.

Fui até a administração do pedágio, procurei mas não encontrei ninguém. Então fui até a cabine de pedágio e o moço me disse um nome estranho.

_ "No entiendo."

_ "El boton", me disse.

Sim. Achei A campainha. Uma mocinha surgiu e me expliquei para ela. Em castelhano, vai vendo maestra Lilian... Ela autorizou a troca de US$ 20, que me gerou URL$ 578. Mostrou-me onde aguardar o ônibus de cor verde.

Menos de 5 minutos depois, passava um ônibus pelo pedágio e ela sai gritando do prédio:

_ " Ese tambien va a Montevideo".

Dei o sinal e fui para frente do ônibus. Abre uma porta central e desce um homem, que depois soube ser o ajudante do motorista. Informou-me o preço de URL$ 180, ao meu questionamento, guardou minha bagagem enquanto eu subia pelas escadas ao ônibus leito, sentando-me do lado esquerdo, junto à porta. Do lado direito, uma jovem maã com uma guriazinha agitavam o ônibus de forma agradável. A menina, com pouco mais de um ano recebeu-me com um: "Hola"!

Por volta de 22 horas desembarcamos no terminal rodoviário de Três Cruces. O ajudante do ônibus entregou-me a mochila e me indicou os hotéis próximos assim como a saída do terminal, essa última, sem o meu questionamento. Gentileza sua.

Rapidamente cheguei à rua. Achei o 'Hotel de la Terminal' e me hospedei por dois dias já que minha reserva no hostel Gaúcho se inicia dia 19.

Preocupava-me o fato de ter ficado todo o dia sem comunicar-me com ninguém.

Paguei R$ 262,00 com cartão de credito internacional, sem café da manhã, mas com Wi-Fi.

Meu celular já se descarregara. Quando consegui entrar pelo netbook no Facebook e avisar que estava em Montevidéu, foi um alivio.

Resolvi aproveitar esta estadia para lavar a roupa suja, no quarto mesmo, pendurando nos cabides apos torcer na toalha de banho, e colocar o blog em dia.

Meia noite, após o banho, deitava para dormir o sono dos justos. Feliz e agradecida!