es-DE JOÃO PESSOA À CAMPINA GRANDE – PASSANDO POR INGÁ

05.11.2018

Levantei-me às 8h30, tendo dormido só 5h. Mas tento aproveitar tudo que o caminho vai me oferecendo. A Glaucia já tinha ido para a praia, aproveitar sua última manhã de férias. O Alex não apareceu. E me pareceu que eu era a penúltima a tomar o café da manhã, já que só tinham duas xícaras sobre a mesa. Mas pode ser engano meu. Uma das meninas do hostel me disse que para chegar à Rodoviária, devia tomar o Cabo Branco\Cabedelo mesmo, mas descer na Integração. Ali poderia negocias com os transportes alternativos, que ficam na porta.

Ainda precisava pegar dinheiro, tinha só R$ 42,00 comigo, além do valor do coletivo, e sabia que o ônibus para Campina Grande custaria em torno de R$ 38,00. O 'alternativo' queria me cobrar R$ 35,00 na passagem até Ingá. Negociei por R$ 32,00 e fiquei feliz. Depois, ao ver outra passageira local pagando sua passagem, vi que a ela cobrou R$ 25,00. Mas no fim, ele deixou a minha por R$ 30,00. O Junior do Cosmopolitan, de Recife, bem que me disse que queriam cobrar dele um valor abusivo, quando ele informou que não era turista não. É uma prática distorcida. A visão de que o turista tem dinheiro sobrando e deve pagar mais pelo mesmo serviço. São estas pequenas coisas que vão se somando e formando o caráter nacional.

No caminho, fui conversando com o motorista. No banco de trás, duas moças, uma desceria em Campina Grande, estava com um bebê de colo. A outra com muitas compras, inclusive uma televisão, e uma criança de menos de três anos. O motorista solicitou a todas que colocássemos o cinto de segurança, por causa de multas. Quando passamos por um posto rodoviário, pediu que uma delas abaixasse a criança, que estava dormindo e chorou. Estranhei o pedido e quis saber o por quê. Ele me explicou que ambas as crianças teriam que ser transportadas em cadeirinhas adequadas, e se fossem pegos, a multa é de mais de R$ 400,00. Para ele carregar uma cadeirinha, teria que cobrar a passagem da criança. Dessa forma, trazia vantagem financeira para os pais das crianças e ficavam todos felizes. Em detrimento da segurança...

A distância entre João Pessoa e Ingá é, mais ou menos, de 100 km. Em alguns pontos do caminho encontramos vendedores na estrada, que aproveitam as lombadas junto aos povoados para ofertar seus produtos. As moças resolveram comprar castanhas. Tinha pacotes de R$ 2,00 e de R$ 5,00. Muito barato, achei, mas o motorista disse que era possível comprar por R$ 1,00, estavam cobrando caro. Mas não pude comprar. Estava com sobra de R$ 10,00 e ainda tinha que pegar transporte da Rodovia até a Pedra do Ingá.

A Rodovia está em ótimas condições, e tem duas pistas, pelo menos entre João Pessoa e Campina Grande, que penso ser a segunda maior cidade do Estado.

Perguntei -lhe sobre o funcionamento do transporte alternativo, já que observei certa organização, com carro da vez, e banco de espera, junto à Rodoviária. Ele me disse tratar-se de um serviço autônomo, sem qualquer vínculo ou registro com ninguém. Então quis saber se um novo motorista se dispusesse a trabalhar ali, bastaria encostar o carro e iniciar suas atividades. _ "Não, disse ele, não é bem assim. Tem que comprar ou alugar o ponto. Eu mesmo o alugo, este ponto já tem 30 anos, eu estou nele há cinco anos. Já fui motorista de taxi, vendedor na rua, e estou pensando em parar daqui uns dois anos e vender galeto na porta de minha casa.

Já estou aposentado, minha senhora também, sempre trabalhei muito, criei os filhos, tenho minha casa, simples, mas não sou como muitos vizinhos, que estão na mesma situação que eu e ficam bancando os ricos, gastando um monte de dinheiro com cerveja, e com mais de uma mulher. Eu não. Tenho minha mulher e é só ela. Quando casamos ela tinha 16 anos. Está com 64 e eu com 66 anos. Tenho vizinho que vira a cara para não me cumprimentar. Nem ligo, faço o mesmo."

Dessa fala é possível tirar algumas lições de vida, quanto à simplicidade e a arrogância, o ser e o aparentar ter, a necessidade de prestar conta para a sociedade, mas só no que diz respeito às aparências. Ele, de forma mais simples, conquistou o chamo de digno, seu teto, seu transporte, o arroz com feijão, como ele mesmo disse, para sustentar o corpo, e a vestimenta.

Disse ainda que uma filha metida a rica questiona sobre o comer arroz com feijão todo dia.

Mas a vida não deve ter sido fácil, pois ele é descrente na humanidade, se diz pronto para ser levado a qualquer instante, o que é bom, mas enxerga o fim do mundo muito próximo, e sem possibilidade de reversão.

Ele parou junto a entrada para Ingá e eu atravessei a pista e fui em direção a um ponto de ônibus. Lá estavam dois motoqueiros jogando cartas, sentei-me no bando ao lado de um deles e tentei negociar o valor do transporte. O Ricardo pediu R$ 10,00 até Ingá e R$ 20,00 até a Pedra. Eu só tinha R$ 12,00 a esta altura do campeonato. Perguntei de havia Banco do Brasil na cidade e a resposta foi negativa. Mas o outro motoqueiro indicou um comércio de nome Poliana para realizar o seque. Coloquei o capacete, tinha tirado as alças da mochila para carregar nas costas. O outro motoqueiro sugeriu que eu levasse na perna. Concordei. Fazia muito tempo que eu não andava de moto. Pedi ao Ricardo se podia segurar nele, mesmo porque, do lado direito minha mão estava ocupada com a mochila sobre a perna. Do esquerdo tinha duas pequenas bolsas a tiracolo. Meu cabelo ia ficar uma maçaroca só, mas já vinha embaraçando na viagem de carro com os vidros abertos...

Na Poliana só poderia realizar o saque quando entrasse dinheiro de pagamento de contas. Indicou-me o Pag Fácil. É um correspondente Mais do Banco do Brasil. Já foi o tempo em que o Banco do Brasil era presença constante em qualquer cidade do Brasil. O serviço bancário esta sendo todo terceirizado. A atendente de lá me informou que para valores até R$ 200,00 não precisaria de senha. Várias pessoas aguardavam sentadas, com senhas, para receber alguma espécie de benefício.

O Ricardo tinha comentado que estava com fome, e observamos que já era quase meio dia. Em frente ao Pag Fácil tinha duas lanchonetes. Fui à que ele me indicou e comprei dois salgados de salsicha, um suco e uma água por R$ 7,50. Acho que foi o único lugar que não subiu o preço ao ver que sou turista. Montei na moto e fomos para o Parque.

Ele conhece a maioria dos moradores, é nascido ali, e a cidade tem em torno de 6 mil habitantes. E trabalha de moto táxi há uns 14 anos. Na porta do Parque cumprimentou o moço da loja de artesanato e fui tirar informação. O Parque fecha ao meio dia para o almoço. Corre lá que o guia está com um grupo, disse-me ele. E sugeriu que o Ricardo aguardasse, pois a visita costuma ser rápida. O Parque é bem pequeno. Eu disse ao Ricardo que comprei um salgado e uma água par ele. Ele colocou a moto numa sombra e sentou-se para comer e me aguardar.

Quando entrei, o grupo já estava saindo, mas o guia gentilmente me acompanhou, explicando que, estudos sobre as inscrições, preveem que tenha sido feita de 2 a 3 mil anos. Que aparecem duas linhas pontilhadas, entre elas, símbolos do cotidiano terrestre, acima dela, símbolos celestes, e abaixo, símbolos marinhos. A pedra agora tem uma linha de proteção, impedindo que as pessoas se aproximem demais. Mas é perfeitamente possível fotografá-la e sem danificar o patrimônio histórico. Quis fazer uma fotos do entorno, e ele recomendou cuidado, pois as pedras são um pouco escorregadias. Observei que, pelo ângulo de inclinação, pois estavam todas bem secas. Quando retornei, ele já havia sumido.

Voltei à sede administrativa do Parque, onde se encontra um pequeno museu, mas com a riqueza de fósseis primitivos, da Megafauna da Terra. Esse é um termo que não conhecia. Eles possuem no acervo muitos pedaços de ossos da preguiça gigante que viveu no Brasil, fóssil de árvore, algumas réplicas, tudo extremamente interessante. A entrada para a atração é de R$ 5,00. Deixei R$ 7,00 em agradecimento ao seu tempo do almoço que ele ocupou comigo, ao interesse e domínio do assunto, e disponibilidade para explicar. E dizem que os jovens não têm compromisso com nada hoje em dia. É relativo. Quando eles se sentem motivados e desafiados, são competentes e eficientes.

Saindo de lá fui tomar meu lanche e fiquei conversando com o Junior, do artesanato, ele contou-me que nasceu num sítio ali pertinho, cresceu e casou-se por ali mesmo. É segurança do parque e cuida da loja para o proprietário da mesma. Falamos de muitas coisas. Eu não ia poder comprar nada, por diversos motivos, então, quando terminei de lanchar, ofereci a sacola a ele como agradecimento pela conversa prazerosa. Ele ficou com ela e agradeceu que, pelo menos, não fiquei com enrolação. Nos despedimos e ele também foi almoçar.

O Ricardo me deixou do lado certo da rodovia para Campina Grande. Observei um movimento de caminhões e carro perto de onde iria fazer o retorno. Ele disse que é um restaurante e questionou-me se queria ficar ali. Mas eu já tinha sacado um motorista de caminhão que se preparava para sair. Emparelhamos com ele, a rodovia entre nós. O caminhão no acostamento, a moto no recuo do retorno, levantei a viseira e questionei seu destino. Ele disse Monteiro. O motoqueiro confirmou-me que era após Campina. Então pedi a carona. Ele concordou e desci sem tirar a selfie que queria, sentada na moto com a bagagem e o Ricardo.

Desci, paguei os R$ 40,00, ele disse ter gostado de me conhecer, agradeci. Ele desejou-me boa viagem. E corri para meu novo transporte.

O Fabio dirige um caminhão graneleiro. É paulista de família paraibana. Costuma rodar entre o Maranhão e a Paraíba. Disse que após muitos anos em São Paulo, decidiu atender ao pedido da mãe, que trabalhara em São Paulo, mas já tinha anos que voltara à Paraíba. Mas sua mãe morreu em setembro do ano passado. Enforcou-se. Choquei-me. Disse que aos 58 anos, por depressão. Ele sente muito a falta dela. Disse que ela tocava uma fábrica de lingerie, que chegou a ter 60 funcionários, mas hoje está com 25, dirigida por seu pai, que é pensionista da mãe e está pra se aposentar também. Ele tem uma filha. Mas é sozinho. E seu caminhão estava na mão de um empregado, que andou fazendo coisas incorretas e ele resolveu voltar para a estrada. Como a maioria das pessoas, questionou-me se não tenho medo de pegar carona. E eu respondi o de sempre: Sinto-me protegida e Deus me acompanha sempre. O percurso era de uns 35 km. Ele deixou-me na porta da cidade onde fui até o ponto de ônibus, mas optei por um UBER. Gastei mais R$ 6,75, o dobro do que gastaria no ônibus.

A casa da Elizeth é bem perto do açude, quem me recebeu foi a Ádila, sua filha mais velha, e depois conheci também a Alana. Soube que estavam hospedando mais três garotas que vieram para um curso na Universidade. A casa das 7 mulheres, então, com a minha chegada. Cheguei por volta de 16h, e só me acomodei, tomei meu banho, de água fria. Aqui não tem chuveiro quente não. Conversei um tempão com a Elizeth. Fui ao mercadinho comprar jantar e café da manhã. Com R$ 15,00 adquiri um abacaxi, um litro de suco de caju, um pedaço de queijo coalho, 2 pãezinhos salgados e 2 doces, duas porções de chá. No retorno, com sede, após descascar e fatiar o abacaxi, ofereci a Ádila que aceitou e conversou um pouco comigo. Às 17h30 chegavam as meninas. Entre 18h e 20h tirei um soninho. E comecei a escrever tanta experiência dos dois últimos dias. Mas não consegui publicar pois o site do blog não estava conectando. Ainda assim fui dormir após a uma da madrugada. Tenho um quarto só pra mim, o calor, durante a noite, é agradável. E minhas costas precisam de descanso. Estou com dor na coluna torácica. Não consegui detectar o motivo.