es-De Córdoba a Rio Cuarto - Fim de Semana

07.04.2018

Despedi-me do Hostel Alvear entendendo que os 'grandes baratos' do lugar são:

- as áreas comuns, amplas e diversificadas;

- a diversidade de nacionalidades dos hóspedes;

- os quartos maiores do que a maioria dos hostels; e

- a cordialidade do atendimento, principalmente do Luís.

Tomei um táxi na porta e por ARS 120 me levou ate a Estação de Serviços na Ruta 36. Fiquei mais bem acomodada que das últimas vezes. Ali o trânsito é lento, porque esta dentro da cidade. Fiquei sob a sombra de uma palmeira, com um murinho para sentar-me. E se preciso fosse, tinha os banheiros da estação de serviços, como eles chamam.

Comecei com minha placa de Mendoza, apesar das recomendações do frentista, que disse que aos sábados seria difícil conseguir ir tão longe. Depois de pouco tempo, mudei de estratégia. Coloquei Rio Cuarto, pois sabia ser a próxima cidade grande dentro de meu roteiro.

Logo um caminhão parou, na estrada do posto. Tenho que ficar sempre num lugar onde tenham espaço para estacionar. Olhei, e o motorista acenou, chamando-me. O mesmo que já ocorrera desde o Uruguai. Quando falo, que veem que sou estrangeira, se assustam um pouco.

Confirmou que ia ate Rio Cuarto e embarquei. Seriam só 200km. Decidi passar o fim de semana em Rio Cuarto.

O motorista desse caminhão não tinha carga, uma coisa a mais para se observar. Sem carga, não tem tempo para cumprir. Assim sendo, o Marcelo Demichelis, que sem sorrir parece bastante com o Kevin Costner, inclusive com grandes olhos azuis, é descendente de italianos, mora em Rio Cuarto com suas duas filhas e tem 40 e poucos anos. Achou que eu tivesse também a sua idade.

Pelas conversas um tanto quanto mais ácidas, notei que teria que ser mais cuidadosa. Logo saindo de Córdoba, vi na lateral da estrada umas valetas com canos de passagem, e confirmei se eram de água. Ele disse que quando chove, junta muita água. E passam inclusive sobre a pista, mas a chuva não demora a passar. O que confirma minha tese sobre as calçadas no centro, mais uma vez.

Depois me mostrou as montanhas, dizendo que do outro lado esta o Chile. Então são as Cordilheiras???

Percorremos um bom trecho quando ele cismou que tinha que tomar banho, e almoçar. O almoço eu entendia, já passavam de 13h, podia estar com fome... Mas o banho, nas minhas contas, estávamos perto de Rio Cuarto, seu destino final e sede de sua residência. Para que o banho tão perto de casa???? Alerta vermelho.

Começou a perguntar algumas palavras em português, como ' hacier amor' ou 'foder'. Eu ria e explicava, fazer amor, transar, ficar, ou foder, depende muito com quem se esta.

Entrou para uma cidade em busca de um banho, não encontrou. Voltou para a estrada e logo mais parou em outro desvio para comermos o famoso 'choripan' argentino. Ainda não o tinha comido nessa viagem. Trata-se de pão com linguiça assada, pedi o meu com maionese, mas também pode ter "chimichurri", um moloho picante. Tomei um suco de pomelo e foi meu almoço, pois já tínhamos comido um pouco das castanhas que comprei no dia anterior. Aliás, ele não conhecia as castanhas de caju e do Pará. Ele comeu dois lanches e um suco. Nesta parada tinha banho, então, lá foi ele. Mas fiquei mais tranquila quando percebi que o dono do lugar era conhecido dele. Perguntou-me se eu queria esperar meu marido para fazer o lanche. Penso que estava me testando. Respondi:

_ "Ele não é meu marido, é um chofer que está me transportando. Viajo a dedo."

Desculpou-se e aguardamos, pois assim preferi.

As despesas foram pagas pelo Marcelo. Conversamos bastante com o Sr. Jorge, se não me engano. E a moça que trabalha com ele, que desconfiei ser sua nora. Ficaram intrigados com minha aventura. Ele disse conhecer o Brasil e alguns outros lugares do mundo. Fez muitos amigos e os conecta pelo Facebook. Tem amigos inclusive em Torres. A mocinha me perguntou se não tenho medo de viajar só, ela me entende melhor do que eles. Explico o mesmo que a todos:

"Não tenho medo de morrer, porque acredito que só se morre no seu dia. Outros problemas, não temo pois, acredito na bondade das pessoas e na proteção Divina."

Isso coloca uma responsabilidade sobre meu condutor também, diante de terceiros.

Saímos dali mais de 14h. O Marcelo me diz que na Província de Córdoba, eles adotam a 'ciesta'. Ela serve para dormir e outras coisas mais. Eu digo que siga então para poder tirar sua soneca em casa. Mas estou em seu caminhão, se quiser dormir, deite-se. Eu aguardo.

Ele insiste para que me deite também, mas sei que não será como o Pedro. As intenções dele estão mais claras. Pergunta-me se eu me interesso por ele. Tenho dificuldade de dizer simplesmente que não. Não gosto de fazer as pessoas se sentirem desprezadas. Não sou assim. Explico que tenho um companheiro, de quem estou enamorada. Não me sinto a vontade de fazer isso com ele. Ele me diz que não tenho compromisso, e que o namorado está no Brasil. Afirmo que me sinto compromissada, é assim que sou. Não sei como são os costumes por aqui, mas comigo é assim.

Pergunta-me se sei fazer massagem? Devolvo a pergunta para saber se a quer?

_ Sim, diz ele.

_" Então posso fazer, desde que se deite quieto e de bruços. Não pode me tocar."

Ele quer que eu faça a massagem sob a camisa. Nego. Ele diz que só sei dizer não. Mas faço uma massagem relaxante em suas costas e pescoço, depois me retiro para que possa dormir. E assim foi.

Saímos dali por volta de 17h, eu sentada no banco do passageiro, sem barulho, com as cortinas fechadas e calor, apesar do ar-condicionado ligado, olhei fotos, as mensagens acumuladas do zap, comi o restante das castanhas, bebi água, e depois fiquei pescando com a cabeça, até que ele acordou.

Faltavam menos de 60 km para Rio Cuarto. Ele pediu-me para passar o endereço de onde ficaria, tinha me convidado para ir ao Cerro no domingo, depois alegou que o tempo estava fechando. Falou-me que a cor de minha camiseta chamara sua atenção, que não conseguiu ver o que estava escrito na minha placa. Minha estratégia de cores está dando certo. Independente dos motivos pelos quais param.

Orientou-me como tomar o ônibus circular para o centro da cidade. O ponto do ônibus estava bem perto. E, já não queria mais nada comigo. Achou, no caminho, que me dar nome e telefone me transmitiria sensação de segurança. Sim, mas não muda meu posicionamento.

Desci na Praça da Matriz e ali achei um café, pensei em fazer um lanche, mas mudei de ideia quando vi o cardápio. Achei os preços bons para jantar. Já tinha perguntado num hotel ali perto, o preço da diária, 800 pesos argentinos, algo em torno de R$ 160,00.

Pedi uma lasanha recheada de carne moída e verdura, com molho bolonhesa, que eles chamam 'tuco', como já disse antes. E mais um suco. Quando viajo, consumo pouco líquido diante de minhas necessidades. Gastei ARS180.

Ali aproveitei para reservar pelo booking mesmo, achando um lugar por um preço melhor. Pelo preço, a princípio, achei que fosse um hotel. Caminhei por umas seis ou sete quadras e achei uma residência no endereço. Perguntei na sorveteria ao lado e não sabiam dizer se ali era um hotel.

Resolvi entrar . E sim, confirmado, é um Hostel. Fui alegremente saudada pela proprietária, a Victoria. Trouxe-me para o andar superior e me mostrou um quarto com dois beliches e uma cama de solteiro. Acomodei-me na cama de solteiro. Ela me mostrou o banheiro comum, e achei que o valor do booking estivesse errado. Depois vejo isso direitinho com ela.

Relaxei um pouco e fui tomar um banho. O banheiro é amplo, como toda a casa. Trata-se de uma residência com muitos quartos em que a inquilina, pelo que soube, resolveu transformar em hostel para garantir uma renda extra. Muitos ganchos para pendurar toalhas e roupas, uma banheira individual, como é sistema da região, nas casas mais antigas, e o chuveiro dentro.

Deixei o cabelo para o dia seguinte, lavei várias pecas de roupa que não conseguira lavar nos dias anteriores, por não ter onde secar, me vesti com o único vestido que trouxe, e quando vou sair... A porta do banheiro não abre, não tem janela, mas tem até ar-condicionado, também no banheiro. Puxo, de um lado, puxo de outro. Começo a bater na porta. Nada!!! Entro num principio de pânico. Acabei de chegar, o lugar não tem placa, o banheiro não tem saídas... O que esta acontecendo? Lembro-me do Marcelo. Já que ninguém me ouve, vou tentar chamá-lo. Mando uma mensagem pelo What'sApp dizendo que estou trancada no banheiro e ninguém me atende. Espero não ter me metido numa fria. Foi a primeira vez que me vi num filme policial. Até agora, as situações pelas quais passei, podia me movimentar. Mas ficar presa num banheiro de uma casa estranha, sem comunicação telefônica, sem janela para chamar ajuda, era como um cativeiro. Ainda bem que tenho o hábito de levar o celular comigo para o banheiro.

Comecei a esmurrar a porta, até que a Victoria surgiu.

_" O que foi Mari?"

_ " Não consigo abrir a porta."

Ela puxa o trinco e abre, depois me mostra que precisa baixá-lo com força. Mas observo que tem fechadura por fora. Não foi nada do que pensei, mas este é mais um item a se observar:

Não entre em cômodos sem janelas, que tenham trancas externas.

Logo em seguida, a Victoria me avisa que a outra hóspede já se foi, se quiser posso trocar de quarto. Não vejo necessidade, mas quando vejo o quarto, entendo o preço. É um quarto com uma cama de casal tamanho Queen. Tem ar-condicionado, uma janela com balcão, e um quarto adjacente, com camas beliches, em que posso estender as roupas que lavei. Desse quarto tem uma porta que posso fechar a chave, o que me da total privacidade, com exceção do banheiro, mas depois fico sabendo que só estão mais dois hóspedes, que na verdade moram na casa. Dois dias saíram por ARS 1144, o correspondente a R$ 214,00. É caro para minha proposta, porém não para a acomodação.

Escrevo minhas experiências de Córdoba e vou descansar já quase meia noite. Um sono relaxante numa cama grande. Com um bom colchão, mas não posso reclamar disso de nenhum lugar porque passei. Podia faltar espaço, mas os colchões e travesseiros estão bons. Ou eu estou menos exigente. Ou mais cansada.

Às 8h20 estou em pé. O café da manhã esta incluído? Verifico. Sim, está.

Vou ao banheiro, demoro minha hora, como gosto, saio vestida, desço para o café, mas não encontro ninguém, então me sento numa poltrona e continuo no celular. Surge o Felipe, o poodle da casa, vem me cumprimentar e fico fazendo carinho na cabeça dele. Parece um cachorro de pelúcia.

Um pouco apos às 10h, a Victoria aparece vindo do quintal, ao fundo da casa. Me pergunta se estou acordada há muito e me leva pra conhecer o quintal, que tem uma pequena piscina vazia, e uma boa área verde. Quando entramos, encontramos a Silvia, prima-irmã da Victoria. Elas ajeitam no canto da mesa meu café com leite, pão de forma integral, bolachas salgadas, requeijão cremoso, doce de leite e geleia. Também um copo de suco de laranja.

Ficamos conversando, onde me contam que são de Córdoba, a Victoria tem três filhos 'varones', estudantes em Córdoba. A Silvia já conhece o Brasil, esteve em Fortaleza, com uma alemã que aprendeu falar espanhol morando no Chile. Pensam em se aposentar para também poder viajar mais. A Silvia diz que não é como eu, tem dificuldade com o desapego. A Victoria já pensa que conseguiria seguir o meu exemplo.

Elas admiram muito as brasileiras, pela beleza e alegria. Tiramos uma bela foto, usando 'sombreros' que ficam acomodados em ganchos, junto à porta.

A Victoria vendeu o carro recentemente, e tem que sair comprar algo, para o lado do Rio, e diz que é um bonito lugar para fotos. Um lugar onde o povo local vai para fazer assados e desfrutar nos finais de semana com bom tempo, como hoje. Acompanho-a, atravessando a ponte. No final desta, retorno por baixo, enquanto ela segue 'adelante'.

Ao descer vejo um homem no balanço, com sua filha balançando ao seu lado. Oba! Mais um balanço em que posso subir. A última vez foi no Canyon do São Francisco, em agosto. Confirmo com ele e vou procurar um balanço distante deles.

Vejo também um balanço para crianças com deficincia física. Alguém ai já viu isso? Não tenho crianças pequenas, então, pode ser que eu esteja com informações defasadas. Achei muito integrador.

Sigo pelas margens do Rio, observo o movimento das pessoas, volto pelo outro lado da ponte. Faço todo o caminho de volta, passando pelo Hostel.

Junto ao Hostel esta uma rotatória com o General San Martin. É uma figura icônica na Argentina, assim como Artigas no Uruguai.

Resolvo ir a Praça da Matriz e ver o que mais a cidade oferece, além de tirar dinheiro no caixa eletrônico, pois o Hostel não aceita cartão, então usei quase todo o dinheiro que tinha comigo para pagar a hospedagem.

No Banco Nacional da Argentina , consegui realizar o saque. Não encontro nos terminais a Marca Plus, então tenho que ficar testando de Banco em Banco.

Na frente do café Santorini, onde jantei no dia anterior e cadastrei o Wi-Fi, consegui obter algumas informações. Ali, na Praça Roca, da Matriz, também tem um centro de informações turísticas que me levou adiante, vendo o Teatro Municipal, uma lavanderia japonesa com uma fachada diferente, um colégio instalado num prédio antigo.

Numa loja, vejo um ditado popular que algum dos meus novos amigos argentinos já havia citado, 'viejo' que quer dizer: velho. E trapo, para quem não sabe, é pano velho.

Retorno pela mesma rua, pois cansei. Meus joelhos começam a doer. Não sei se vou emagrecer nesta viagem, tenho andado muito, mas também comido doces diariamente...

Domingo só estão abertos os restaurantes. Não quero gastar tanto com comida.

Perto do Hostel tem uma pizzaria aberta. Pergunto-lhes se vendem pedaços. Ela diz que só estão fazendo empanadas. A ARS10 cada. E são de massa folhada. Peço duas de milho, uma de frango e uma árabe. Duas águas saborizadas, de maçã e de limão, e gasto ARS80. O restante quero gastar com sorvete.

Vou para o shopping, único da cidade, e ao lado do hostel, comer meu almoço. Duas esfihas, as demais são para a viagem. E depois como uma torta de chocolate... E... O cucuruchon, de doce de leite grafitti e cereja. Demais de bom!

O sol esta forte, de volta ao hostel tomo um banho completo, lavo até minhas alpargatas, que estão cheias de pó, coloco-as para secar no balcão, e o tênis para tomar sol.

Nossa! Acabei de me recordar que já recolhi os sapatos, fechei a janela e as cortinas, e esqueci minha toalha lá fora.

Tudo secou em uma instante. Aproveitei o final da tarde de domingo de uma pacata cidade, que é a segunda maior na província de Córdoba, para limpar e cortar as unhas dos pês e das mãos, e fazer uma depilação. A claridade esta propícia, além da privacidade.

Amanhã quero seguir cedo. Já fiz reserva no Hostel Lagares, em Mendoza, desejo ficar ate dia 09. Na av. Corrientes 213 - região central. A nota é boa. O preço também. Vou pagar R$ 110 pelos três dias. Espero ficar bem acomodada. Assim, compenso o que gastei a mais aqui. Mas que valeu a pena. Pelo medo que passei, experiência que adquiri, pelas pessoas que conheci, pelos lugares que vi e por desfrutar um pouquinho de um dia comum em uma tranquila cidade de interior.

No fim de tudo, meu maior prazer tem sido conhecer gente, mais do que lugares. São as pessoas que me movem.