es-CAMPINA GRANDE SEM SÃO JOÃO

06.11.2018

A Prefeitura do Município adiou o início da festa junina devido à greve dos caminhoneiros. Minha hospedagem foi contratada pelo Airbnb. A Eliseth até contatou-me para adiar para a próxima semana, mas no próximo final de semana estarei em Caruaru. As cidades que têm as maiores festas de São João do Brasil ficam lotadas durante as festas, assim, é impossível vir para cá sem contratar hospedagem antecipadamente. E depois acontece isso. Devo admitir que foi frustrante, decepcionante. Minhas anfitriãs fazem de tudo para me proporcionar uma boa estadia, mas minha expectativa era bem outra. Bem diz a voz do povo para não criarmos expectativas. Mas a atitude da municipalidade demonstra uma falta de compromisso com o turista. A divulgação da programação da festa já ocorreu tardiamente. Eu até entendo que foi um motivo 'de força maior', mas ele poderia e deveria ter um plano B para situações como esta. É o que se espera em grandes eventos. Podia iniciar só com bandas locais, fazer a semana do improviso, só para proporcionar algum divertimento para os turistas que fielmente, vieram para a abertura oficial do 'Maior São João do Brasil".

Dessa maneira, meu sábado começou com lavação da roupa suja, literalmente. Tomei meu café, digitei mais um pouco os textos para o blog e fiquei aguardando a Álida para irmos ao Parque do Povo, participar do Momento Junino, divulgação que antecede à festa, porém destinada aos empresários e patrocinadores do evento. Tem cobertura televisiva, e algumas bandas comparecem para 'aquecer' o povo, um prenúncio do que será a grande festa.

Nesta edição a organização incluiu uma arquibancada, e como são dez semanas de Momento Junino antes do São João, alunos das escolas da cidade são convidados a participar como auditório. Uma inclusão popular.

Estiveram presentes as bandas Palove, Gaviões da Paraíba e Forró de Dois. Eu entrei com uma credencial de imprensa, na qualidade de blogueira (Ó), e porque a Eliseth e a Álida são repórteres, editoras e publicadoras de um jornal local que tinha periodicidade mensal, mas que atualmente só é publicado junto às festas mais importantes da cidade.

O evento é realizado na entrada do Parque do Povo, mas este é impedido de participar. A estrutura é coberta, toda enfeitada de bandeirolas, com mesas e cadeiras, serviço de bebidas e porções. Comprei uma lata de cerveja para dividir com minha companheira, e paguei R$ 5,00, estava bem gelada e até valeu o preço, já que eu parei nessa.

Dona Zapata se apresenta como cangaceira, há muitos anos, sem perder um único evento. Toda solícita, pousou para a foto e me confidenciou que não pode trazer celular para a festa, pedindo-me que lhe mandasse a foto. A Álida anotou o telefone e já enviei. Tinha também o Seu Madruga caracterizado (personagem do seriado mexicano aqui no Brasil conhecido como Chaves).

Logo que cheguei, estavam se preparando para tocar os integrantes da Gaviões da Paraíba, quando levantei o celular, e viram minha credencial, já se abriram em sorrisos. Acho que vou levar essa identidade para os bailes, quem sabe assim alguém me dá alguma moral...

O povo gosta mesmo de um arrasta pé, e já foram ocupando os corredores no 'arrocha'. Mantive minha pose profissional (Rs). Só dei minha balançadinha de leve. E fiquei apreciando a movimentação.

Perto de 14h saímos em direção ao Quiosque Cururu para comer algo, já tinha fome. Pedimos uma porção de croquetes de bacalhau, uma porção de tripa, uma cerveja, um suco de goiaba e uma soda limonada. Gastei R$ 42,00.

Ficamos ali por três horas, conversando. A Álida me falou sobre seus estudos em Biologia, as precárias condições de prática na Universidade, que resume o ensino à teoria, suas ambições na área. Falou também sobre a cidade, os açudes velho, onde estávamos, e o novo, meio abandonado à marginalidade. Sobre o desejo, já transformado em projeto, e apresentado à Prefeitura, para desenvolvimento de outras atividades ligadas ao forró para realização de eventos ao longo de todo o ano, aumentando o fluxo de turistas e o progresso da cidade, que já é a segunda maior do estado, com uma boa infraestrutura médica, hospitalar e educacional, sendo procurada inclusive por cidades próximas de estados vizinhos. Quanto aos comes, gostei das tripas que ficam crocantes, algumas não ficam tão sequinhas e embucham na boca.

Já que não teve festa junina em Campina, resolvi ir a Cabaceiras para o Festa do Bode Rei. Chegamos de volta a casa era mais de 17h. Me arrumei. Mas chovia. Esperei diminuir e fui para o ponto de ônibus, seguindo as orientações da Elizeth. O ponto é perto do posto de combustível, pode tomar qualquer um que comece com 5. Um senhor que estava saindo do serviço me disse que o 092 também servia, e deixou seu companheiro, vigilante, tomando conta de mim, de longe. Passou o 555. Demorei de perceber e sinalizar, de modo que ele parou um pouco mais a frente. Obrigada motorista. Mal sentei, e senti um toque no ombro. Um passageiro atrás e do lado oposto me perguntou se eu sou evangélica. Não, respondi.

_ " E vai ao Shopping¿"

_ "Não." De novo.

_ "É casada ou solteira¿"

_ "Casada." E corto logo o assunto. Muito estranho.

Ele desceu no shopping. O ônibus rodou bastante antes de atingir a Rodoviária. Minha intenção era saber se dali sairiam Vans ou outros transportes alternativos para a festa. Mas não existe esta preocupação, e antes de descer fui questionada por um dos passageiros para onde eu iria. Quando soube me disse que o último ônibus para aquele município saiu as 19h20 em horário excepcional por cauda da festa mesmo.

Daí sugeriram que eu permanecesse no ônibus para descer na Integração. E voltar.

Foi o que fiz. E fiquei conversando com o homem sentado à minha frente. Bastante esclarecido, me falou sobre os recursos hídricos da cidade, que estavam preocupantes, pois nos últimos 7 invernos não chovia adequadamente. Disse que a água que vem para Campina é oriunda de um açude em Boqueirão. A tranquilidade surgiu graças a transposição do Rio São Francisco na Paraíba que em caráter emergencial, executou a escavação de um canal através dos vertedouros das barragens Poções e Camalaú. Eu não sabia que a transposição do São Francisco saíra do papel. Dessa forma ele se sente muito grato ao governo do presidente Lula.

Falou da importância de Campina Grande na região. Ele é funcionário de um hospital psiquiátrico. Admirou minha disposição em sair rodando pelo Nordeste à procura de forró. Perguntou se eu iria à 'Namoradrilha', e depois que ensinou-me o ônibus a tomar para retornar para minha hospedagem, me contou que também estaria no evento .

Peguei o 092 na rodoviária e desci um ponto após o que iniciei minha aventura. Queria tomar algo quente, e estava chovendo, uma chuva fina e intermitente, apressei o passo pensando na conveniência do posto. Estava fechado, tudo, inclusive o posto. Havia um quiosque de nome Guarany com salgados. Pedi um pastel tipo fogazza, de queijo, e um café, que estava bem quentinho. Gastei R$ 3,50. Foi meu jantar.

Quando cheguei de volta à casa, consegui finalmente acessar o blog e fazer as publicações dos últimos dias. Fui dormir depois da uma hora novamente.

E 8h30 estava de pé. Queria olhar os Museus, mas imagina que estariam fechados. Fui caminhando em direção ao açude, e vi uma família andando de triciclo. Interessei-me porque vi que tinham alguns unitários. Mas não eram, se tratavam de trenzinhos, um grudado no outro. Perguntei o preço, ainda pensando que eram individuais, e o proprietário me disse 20 reais por qualquer um. Contestei. O que parece uma charrete leva 2 adultos e uma criança. Tem cobertura. E o esforço de pedalar será dividido. Pelo mesmo preço que um ciclista solitário, andando no sol, sem ter com quem conversar e sem sombra. Quando vi que o trem era de dois ou três, parei de questionar. Ele ofereceu-me a bicicleta mas eu não sei andar, de forma que não adiantou. Então falou que o Lucas iria comigo por R$ 10,00. Depois mudou de ideia e resolveu ele mesmo me acompanhar.

O Ronaldo ajustou meu banco e começamos a pedalar. Nos pontos turísticos, eu pedia para parar pois queria fotografar. Soube que ele é de João Pessoa. Veio para Campina pois está separado da esposa, após 30 anos de casamento. Perguntei de que foi a iniciativa e ele disse-me que dela, por motivo de doença ela achou que já não estava mais sendo mulher para ele. Ele alegou que era bobeira, que não se incomodava, mas ela quis a separação. Então entrou de sociedade nesse negócio de bicicletas e veio para Campina Grande há 3 meses, onde moram seus filhos. Eu comentei que conhecia alguns casais que se separaram com tempo semelhante de casamento, mas que em geral, a iniciativa é sempre das mulheres.

Caia outra chuvarada, e abrigamo-nos todos sob um quiosque, ao final do passeio, após uma foto publicitária da:

LOCABIKE @locabikecg (83) 99158.1033

Queria tirar uma foto de uma escultura e tinham umas moças lá, me ofereci para tirar das quatro juntas e pedi que tirassem a minha. Descobri que eram 3 amazonenses, sendo que uma delas visitava a tia (a quarta), que reside em Campina Grande. Elas também estiveram no Momento Junino, e como eu, se frustraram pelo adiamento da festa. Foram dançar forró, no sábado, na Vila do Forró e no Restaurante Bobódromo. Passaram-me umas dicas. 

Chegou um gatinho e fui tirar foto dele, enquanto elas se iam, após pegar o endereço de meu blog. Elas também estão numa aventura, desde Fortaleza de carro alugado. Colquei o gato junto aos irmãos e fui procurar o Banco do Brasil.

A agência do Açude Velho tem sua Sala de Auto Atendimento fechada ao finais de semana, e dias de semana só abre das 9h às 18h. Isso não é um bom indicador de segurança. Descobri depois que os postos fecham pelo mesmo motivo.

Entrei no Parque da Criança, onde os locais se reúnem para piquenique e lazer da família. É simples, porém aconchegante.

 E resolvi almoçar no Bobódromo, e comer mais uma comida típica. Fica numas das ruas que chegam ao Açude. Era meio dia e o Brasil fazia um jogo amistoso. Olhei o cardápio e vi que tinham pratos típicos executivos, individuais por R$21,90. O suco custaria em torno de R$ 10,00, procurei uma mesa de dois lugares, não há. Os garçons se trajam como o sertanejo nordestino. Já acolheu meu pedido, o número 608 do cardápio, servindo-me uma jarra de suco de cajá logo em seguida. Pedi permissão para uma foto e ele atendeu sorridente. Perguntei o que era um 'rubacão', pois o pedi sem saber o que é.

Rubacão é uma especialidade da cozinha nordestina, prato bem parecido com o baião de dois. É geralmente servido como prato único, a maneira de fazer varia de acordo com a cidade ou tradição local. É em geral um mix de feijão verde ou de corda, arroz da terra, carne de charque ou carne sol, nata fresca, creme de leite, temperos variados, leite, queijo de coalho queijo de manteiga, manteiga de garrafa...

No prato: Rubacão, mandioca branca cozida, purê de batatas, vinagrete, salada de maionese, farofa. A parte: Carne de sol de bode na nata.

Voltei à residência, onde a família receberia amigos para um churrasco. Me preparei para a 'Namoradrilha', conduzida por Bell Marques. É um trio elétrico que toca Axé e Forró, misturando carnaval e quadrilha, no mês dos namorados. A Eliseth foi comigo. O horário marcado para início era 14h. Saímos quando ouvimos o barulho da música, já quase 15h. Mas o Trio Elétrico só saiu mesmo depois da 16h. Eu achei que não ia ter muita gente, pelo movimento inicial. Ledo engano. A festa 'bomba'.

O 'anjo Rafael' nos abordou, todo caracterizado e preparado para a paquera, me deus uns beijinhos no rosto, algumas florezinhas artificiais, e queria que eu passasse a mão em seu pinto, que caiu algumas vezes durante nossa conversa. Deu-me uma medalha de honra ao mérito com o título de: "A mais linda do lugar". No entanto, quando saiu, deixou cair outra igual a minha. Este é cantador profissional.

Esperamos o trio passar para ir atrás. Uma das pistas da avenida fica cercada por cordas seguras por pessoal contratado para proteção dos foliões com abadá, que pagaram R$ 400,00 por esse privilégio. Na pista paralela fica o pessoal da 'pipoca', que curte a festa quase igual, com um pouco mais de aperto, como pude notar depois. Eu fiquei entre estes. A Eliseth seguiu o trio até a rua de sua casa, levou minha bolsa a meu pedido, e eu continuei atrás da bagunça.Encontrei e cumprimentei o moço do ônibus.

Os policiais são poucos para o tanto de gente, andam em fila indiana, com a mão direita protegendo a arma. Bebida tem demais, e baseados, em muitas bocas. 

Depois de caminhar, pois é tanta gente que mal consegui sacudir, por mais umas quadras até chegar no açude, e sentir tanto contato humano que meu nível do 'abraçometro' se normalizou, fui ficando para trás já querendo abandonar aquele espaço. Senti-me velha, rara sensação. Acho mesmo que estou 'demodê'. Mas notei uma coisa surpreendente, e considero um ponto positivo para a organização do evento: Atrás de que vem atrás do Trio Elétrico, já vinham os garis, recolhendo o lixo que sobrou, pois as latinhas de cerveja já tinham sido recolhidas por 'catadores'. E nem parecia que acabara de passar por ali uma multidão afoita, jogando garrafas e latas, sabugos, papeis e tudo o que era demais nas mãos.

Tomei meu último banho gelado por aqui, tive a oportunidade de conviver com uma família local, observar seus costumes, invadir um pouco de sua privacidade, e perceber o quanto elas se esforçaram para manter a minha. Agradeço a acolhida. Foi uma experiência diferente e muito rica.

Jantei o restante da carne de bode com farofa que trouxe do restaurante, um pedaço que ainda tinha de queijo e o restante do abacaxi. O café da manhã será no caminho.

Tchau Campina, deixou vontade. Quem sabe da próxima vez...