es-ARCOVERDE(PE), SEGUNDO DIA: PARQUE NACIONAL DO CATIMBAU

10.11.2018

Meu Deus! Agora vou lhes mostrar e contar sobre o lugar que me trouxe até estas paragens! Trata-se do segundo maior parque do Estado de Pernambuco e também o segundo maior sítio arqueológico do Brasil. O Parque Nacional da Serra do Catimbau fica em parte no agreste e parte no sertão nordestino. É uma área de 63 mil hectares de terra, conservando as características de caatinga, e apresentado formações rochosas milenares, com inscrições rupestres que datam de até 6000 anos. A Fauna e a flora também são impressionantes. Um lugar para caminhar, pelas trilhas, acompanhada de um guia, sem pressa, só sentindo a energia do lugar e observando cada detalhe. Dizem que não devemos levar nada do lugar além de fotos e lembranças. Mas não pude. E trouxe comigo, contra a minha vontade, um pouco de terra do local.

Comecei por pegar mais dinheiro no Banco pois sabia que o dia do guia não seria barato. 

A principal cidade para acesso ao Parque é Buíque. Eu queria me hospedar lá, na Pousada Flananda, que localizei através do Booking.com, porém, após a reserva com diária por R$ 50,00, recebi um e-mail da hospedagem dizendo que se enganara e não tirou a oferta do quarto do site. Não tinha mais quarto disponível. No entanto observei que as ofertas continuavam em aberto, só com preço superior.

Ao pegar a lotação em Arcoverde, sentido Buíque, há 25 km de distância e pagando R$ 8,00 por volta das 10h, passamos em frente à Pousada. Achei que fiquei melhor assistida em Arcoverde. Hotel com melhor aparência e cidade com muito melhor infraestrutura. Por só R$ 6,00 a mais por dia. Mais o preço do transporte. Uma diferença total diária de R$ 22,00.

No Terminal de lotações, os antigos carregadores de lata d'água na cabeça, ofertam água por apenas R$ 1,00. É sempre bom levar, a quentura e a secura daqui exigem uma boa hidratação.

Como é costume por aqui, a ponto da lotação é próximo ao dos moto-táxis. Conversei com o Diego, que cobrou-me R$ 25,00 para me levar até o Parque. Perguntei se faria preço melhor para ida e volta. Ele concordou. 

Diego Moto-Táxi (87) 9.9958-5351

Levou-me até a porta do Paraíso Selvagem, disse-me que quem me acompanharia é um índio. Nessa parte do Parque, pelo que soube, foram feitas piscinas naturais para atender o turista, e paga-se R$ 10,00 pelo acesso. Mas o índio não estava. E o Diego voltou comigo até a Vila do Catimbau, direto para a Associação dos guias.

Lá chegando, o responsável pela associação dirigiu-se ao João para definição de preço, após eu dizer o que eu gostaria de fazer. O preço do João é de R$ 150,00. Mas esse é o preço do dia. Se estivesse num grupo de 4 ou 5 pessoas, ia sair um preço até bem acessível. Ele chega a guiar grupos de até 40 pessoas, onde o custo por pessoa cai para algo em torno de R$ 20,00. Mas os grupos aparecem mais aos finais de semana. Eu já imaginava que isso iria acontecer. Mas teria um guia só pra mim. 

Como eu estava a pé (fato que me deixou temerosa de não conseguir guia), ele ainda teria que me levar de moto até a entrada do Parque. Acabou fazendo por R$ 120,00. 

CONDUTOR DE ECOTURISMO DO VALE DO CATIMBAU

João Ferreira da Silva - (87) 9.9994.4495 ou 9.9616.7406

Um sítio na entrada da propriedade cobra R$ 2,00 pela entrada, já incluída no preço. Alguns bodes e cabras (carne muito apreciada na região) pastam ali por perto.


E estou pronta para encarar a subida. Já são quase 11 horas.

No caminho já sou apresentada a um pé pé de Juá, um Juazeiro. E a uma basrriguda, árvore que conserva água dentro de seu tronco.

As parentes do abacaxi, um dos tipos de bromélia:

O líquen na pedra comprova a pureza do ar:

E o Morro do Cachorro se destaca no cenário. Ele estará presente, e sevindo como orientação ao longo de grande parte da caminhada.

Nosso primeiro destino é a formação de Casco de Tartaruga. Depois de uma leve subida ao sol, ter parado para passar protetor, chegamos a essa parte plana do caminho. Entre as pedra vou notando muitas bolinhas marronzinhas, o que comprova que os caprinos passeiam por todo lugar.

O Cânion do Catimbau pode ser apreciado em toda sua exuberância, no horizonte, para todo o lado que olhamos.

A trilha é em parte na areia, em parte na pedra, em parte no plano, em parte no morro, em parte em meio à vegetação da caatinga, em parte no descampado. É diversificada e por isso, exuberante. Água, só a que levamos, um litro cada um. Existem passagens de rios intermitentes, que aparecem nas estações chuvosas. Por enquanto, estão secos.

Nosso próximo destino foi uma formação chamada de Casa de Farinha, pois há um forno desativado sob a rocha escavada, construído há uns 70 anos, e que demonstra bem a ignorância do povo com relação ao patrimônio histórico e ecológico, pois além das formações milenares, existem inscrições rupestres datadas de 2 a 4800 anos. A rocha apresenta as diversas camadas coloridas, de sedimentos de mar e rio. O teto está escurecido pela fumaça, do tempo dos forno ativo.

Atualmente, o espaço é cercado, para evitar que os caprinos ali se abriguem e defequem.

Na trilha, em meio a vegetação, ouço um barulho e vejo uma movimentação. Parecem borboletas, mas não estão voando. Correm. Ou melhor, saltam. Pergunto ao João e ele diz que são soldadinhos, grilos coloridos. Encantadores! Observe-os entre os galhos.

Logo a seguir se apresenta um paredão. O João brinca que vamos escalar. Um cipó está pendurado, bem fino. É nele que devo me agarrar. Até metade do percurso ele garante, a outra metade é de volta para baixo. Tô fora.

O paredão apresenta uma ruptura que forma um mezanino, de fora a fora. Sua porosidade e características lembram as formações de arrecifes. Certamente, mais uma prova que tratava-se de uma região marítima. É um monumento esculpido pelos ventos e águas, um depositário do tempo. As inscrições aparecem também aí. Toda forma de cobertura servia, de certo, para os povos primitivos se abrigarem da intempéries.

Alguns frutos que encontramos pelo caminho são comestíveis. As maçãs do mato são azedinhas, muito gostosas. Mas não parecem nadinha com as frutas que lhes concedeu o nome. 

O Baco é parente da jaca, é minúsculo, tem um cheiro doce, e se consumido em quantidade, deixa a pessoas embriagada.

O cacto facheiro é bonito, é uma das várias espécies que aparecem por aqui, e caracterizam a paisagem semi-árida.

Os bodes pelo caminho, justificam a presença de seus excrementos. E também a popularidade de sua carne por aqui, afinal, estes ruminantes têm as características necessárias para enfrentar as agruras do local. Aguentam o calor, têm a capacidade de escalar, se alimentam de tudo que veem pela frente.

Seguimos para a Serra das Torres, um dos destinos por mim planejados, mas eu não imaginava que ia poder contemplar tantas maravilhas. O Parque é tido como uma das 7 maravilhas do Estado de Pernambuco.

É impressionante a diversidade de formações. Imagine que, no meio de tudo isso, aparecem diversas pequenas montanhas de pedra, aglomeradas, como se fossem torres de vigília.

E a vista? Sempre impressionante.

O último destino antes do retorno foi os Lapiás, é uma formação típica de relevos cársticos, produzida pela dissolução superficial de rochas calcárias ou dolomíticas. 

Já são quase 15h e meus joelhos e calcanhares não me deixam esquecer todo o percurso e esforço da trilha. São mais de 4 horas caminhando, tendo parado para um rápido lanche um pouco após o meio dia. Minha fisionomia transparece o cansaço e a alegria, notadas por meu acompanhante de jornada. Mas o ultimo cenário não deixaria nada a desejar aos demais, e justificaria todos o esforço empreendido. Aqui, que não é cercado, os bodes aproveitam bem o banheiro a céu aberto.

Me sinto diante de um doce gigante, cheio de camadas de chocolate ao leite, mascarpone, marshmallow, flocos, castanhas e etc.

Durante todo esse caminho, o João demostrou profundo conhecimento dos termos técnicos e dos nomes dos lugares. Ele foi um dos pioneiros na formação para guia e de guias. Iniciou seu trabalho antes mesmo da área ser reconhecida como parque Nacional em 2002. Admite que não tem instrução, mas isso não o impediu de levar a sério os estudos para a formação necessária, inclusive enfrentando a distância e as dificuldades de transporte para isso. Entre seus 16 irmãos, conseguiu se destacar pelo conhecimento adquirido. Já não é mais associado aos guias. Tem trabalho independente, e, já conhecido, é procurado constantemente por pesquisadores e turistas curiosos, como eu. É muito respeitoso e sabe se posicionar como profissional.

Tem 48 anos e teve 10 filhos com duas mulheres, 8 estão vivos. Porém hoje vive só, e enfrenta as dores de um acidente recente, mas que não o impedem de continuar trabalhando.

Assim como muitos daqui, troca o 'r' de lugar em algumas palavras como 'amalero', mas isso só confirma um traço regional.

Ele é GENTE QUE FAZ!

Estou encantada de conhecer este novo Nordeste, que se descobre e desenvolve seu povo, suas raízes, sua cultura. Algo de muito bom aconteceu por aqui nos últimos anos. Espero que ninguém possa destruir.