es-ARCOVERDE (PE), PRIMEIRO DIA: PEDRA FURADA

10.11.2018

Ao sair do Motel, aviso que tomei um suco Skinka, mas que ela devia me fazer cortesia pois o banho estava frio. Ela concordou.

O Pátio onde estavam o caminhões, já se encontra praticamente vazio. Só restou o cheiro de urina, daquele que não quiseram se dirigir aos banheiros durante a noite. E parece que foram muitos.

Dirijo-me à lanchonete e solicito um café no copo americano e um sanduíche de presunto e queijo, que ele aquece na chapa. Peço uma água e um pacotinho de amendoim salgado para a viagem. Pago R$ 12,00 por tudo. Neste momento decido qual será meu próximo destino. Vou antecipar minha ida para Arcoverde. Assim terei mais tempo de aproveitar o Parque Nacional do Catimbau.

Bem em frente, na pista oposta ao posto, tem um ponto de lotação. Enquanto faço a volta para lá chegar, duas adolescentes surgem, para definir melhor o lugar. Explico onde quero ficar, pago os R$ 3,00, ele segue pela pista e me indica o lugar de descer, na marginal à Rodovia. Não satisfeita com a localização, pois sabia que aquela estrada possibilita a ida também para Garanhuns, e que Arcoverde fica em outra direção, tomo informação e confirmo.

_ "Tá vendo aquele viaduto ali? Pois ali é o acesso para Garanhuns."

Decido assim, ficar sob o viaduto, já que o acesso para a outra estrada é antes deste, e também porque estava chuviscando. Mas ele ficava a uns 2 km de onde desci. Primeiro uma descidona, depois uma subidona. Quando lá cheguei encontro um senhor com carrinho de mão carregado de lenha para o fogão. Um matuto, mas experiente, já se despede pois sabe que se ficar comigo, ninguém irá parar.

Comecei minha viagem às 9h42 com a lotação, às 10h15 minha carona chegou. Era um caminhão baú, pequeno, com dois ocupantes. Não costumo pedir carona quando percebo que tem mais que um ocupante, mas nem sempre é possível enxergar de longe. O Edvan e o Valdemir estão indo para cidades bem além de Arcoverde, mas irão parar em Pesqueira para fazer uma entrega. O ajudante, Valdemir, vulgo 'negão' desce do carro e eu sento-me entre eles. Diferente de quando andei com os dois Franciscos, que a bagagem foi na carroceria, aqui o baú é fechado, e levo minha mochila em meu colo, enquanto a bolsa menor vai junto ao para-brisa.

São dois baianos de Feira de Santana, fazem entrega de óleo lubrificante por todo o Nordeste. Mas ficam fora no máximo uma semana. Devem fazer a última entrega na quinta e já retornam para Feira, cortando caminho. Sábado descansam com as famílias, e domingo pela manhã já saem novamente, carregados. O Edvan faz-me sentir muito confortável. Ele tem o sorriso de meus primos. É casado, tem uma filha de quatro anos e é apaixonado pelas duas. Tem 29 anos, todos seus irmãos e pai inclusive, são motoristas de caminhão. Diz que o 'negão' ajudou cria-lo. Moram na mesma roça, pelo que entendi. E a bisavó de Edvan foi a maior parteira na região onde moram, tendo trazido à luz também o Valdemir.

O 'negão' já não teve sorte com mulher, e não quer mais saber de enrosco. Agora é só pra ficar. Se começam a ficar muito no pé dele, some. Tem 53 anos, e completará 54 em 12 de outubro. É do mesmo mês que eu.

Quando paramos em Pesqueira, o ajudante carrega e faz a entrega, o motorista só tira a carga do caminhão. Enquanto desci para esticar as pernas, perguntei ao Edvan onde dormiam e como funcionava a alimentação. Ele disse que o patrão dava o dinheiro para a alimentação do dia, e que eles dormiam na carroceria do caminhão mesmo, sobre a carga. Ele traz um colchão grande para esse fim.

Contam da vida sofrida que tiveram. Na hora da refeição, quando o motorista era menino, tinha, às vezes, que dividir um ovo cozido entre 4 pessoas. Mas a vida agora está melhor. Todos crescidos e casados. Atribui essa mudança às melhorias que ocorreram na região, em função de créditos concedidos para o sertanejo pelos bancos.

Fato é que, passando por tantos lugares, vejo que as pessoas estão, de alguma forma, conseguindo tirar seu sustento do lugar onde nasceram. E não estão mais emigrando, massivamente, para Estados mais industrializados, como São Paulo.

Chegamos à Arcoverde, que de longe, agora na estação chuvosa, com a vegetação exuberante, fica mesmo num arco verde, visto a distância.

 Exatamente meio dia, como previu o experiente motorista. Eles iam aproveitar para almoçar, e eu fui com eles. Os caminhoneiros, quando podem escolher, costumam comer bem e barato. Dito e feito, no Restaurante Trevo o PF sai por R$ 12,00. O Edvan pediu água de torneira mesmo, e foi esse o valor final da refeição. A carne podia ser escolhida entre frango, boi, fígado e porco. Só o frango foi desprezado. Eu comi fígado acebolado. Acompanham arroz, feijão, macarrão e farofa. Comi só metade do que veio.

Minhas coisas ficaram no caminhão, o motorista foi comprar uns doces e, ao me despedir e agradecer, ganhei uma paçoca e duas balas.

Fui a pé até o Hotel Arcoverde. Foram só 1,7 km. Expliquei sobre minha antecipação, perguntei se era possível fazer o check in antecipado e depois da resposta positiva, se o chuveiro é quente. O Raoni confirmou todos os questionamentos. Instalou-me no quarto 107, no mesmo andar da recepção e do refeitório.

O quarto tem 3 camas, ar-condicionado e chuveiro quente. O Glória!

Só me instalei, e corri ao Banco pegar um pouco de dinheiro, pois sabia que aqui os gastos seriam maiores, com guias principalmente. Na recepção do hotel, vi na parede a sugestão de dois passeios. Um para Venturosa, no Parque da Pedra Furada. E o outro para Buíque, no Parque Nacional da Serra do Catimbau. Ambos na minha programação. Pedi orientação sobre os passeios, e um fornecedor que aguardava o proprietário me falou da lotação, me ensinando onde pegar, junto ao Mercado Municipal. Fui toda feliz, comprei uma água por R$ 1,00 e resolvi bater uma foto do terminal de lotações. Cadê meu celular¿ Revirei tudo. Não é possível, esqueci no quarto. Já estava esperando há uns 20 minutos completar a quantidade mínima de 7 passageiros para a Van sair. Faltavam só dois quando senti a falta do celular. Tinha que voltar buscar, como tirar fotos¿ Me apressei, suei, cansei, mas perdi a Van. A sorte que a outra não demorou a encher e às 15h saímos para Venturosa, cuja distância de 32 km é percorrido em 40 minutos. O ponto final é pertinho do ponto de Moto-táxis. Perguntei o preço até a Pedra Furada e na tabela eles cobram R$ 9,00. Por ser dia de semana, naquele horário, se vou sem combinar nada, não tenho como voltar. Ofereci R$ 30,00 para que o Wando, que era o motorista da vez, me aguardasse por lá. Achei 'o máximo' a roupa deles. O colete tem alças laterais para o passageiro se segurar.

O Parque da Pedra furada te acesso gratuito. Está localizado dentro do Parque Nacionnal da Serra do Catimbau, também. Junto à entrada tem um restaurante e seu proprietário vive ali mesmo com sua família. O Wando ficou por ali e eu fui em direção aos supostos 360 degraus para chegar ao topo. Subi sem contar, pois imaginei que muita gente fez isso para constar esta informação em todas as fontes de pesquisa virtual. Os degraus eram baixos e fáceis de vencer. Tão fáceis que suspeitei não haver toda aquela quantidade.

O lugar é deslumbrante. Tem-se uma vista de praticamente 360 graus de lá de cima, através da fenda. Mas te gente que insiste em deixar marcas de suas patas, achando que um dia serão tratadas como inscrições rupestres. Será?

Em uma hora subi, fotografei e desci. Na parte baixa, antes das escadas, visualizei pequenos roedores além dos lagartos. Eram preás e mocós. Muito ariscos, consegui ainda fotografar uns mocós, porém com zoom, ficaram desfocados. Lembrei-me do Didi Mocó, personagem do Renato Aragão no programa humorístico "Os Trapalhões". Certamente de deve a este pequeno roedor o nome da personagem.

Na moto, pude fotografar durante o percurso, na vinda a Pedra à distância. No retorno o por do sol no horizonte do agreste pernambucano.

Entendi a manobra de Deus: Se venho no primeiro Van, não ia fazer as coisas mais devagar. Fiz no tempo certo, sem correria nem lentidão. Iria perder este magnífico por do sol.

E o melhor de tudo, consegui pegar a última lotação, que saiu atrasada às 17h16. Não é mesmo obra divina¿

De volta à Arcoverde, passei em um dos Supermercados Bonanza que vi na cidade. Bem perto do Terminal. Comprei itens para o jantar e o lanche para o Catimbau, no dia seguinte. Um pão de pizza, em generoso pedaço a minha escolha, um pedaço pequeno de bolo de macaxeira (mais popularmente conhecida em São Paulo como mandioca), um pedaço ainda menor de bolo de milho e 600 ml de iogurte.

Antes de voltar ao quarto do hotel, na recepção, o Raoni me disse que já era possível fazer a cobrança da diária extra. Saiu por R$ 45,00, enquanto que, pelo Hotel Urbano, paguei R$ 68,25. A média ainda ficou por R$ 56,62 com café da manhã em quarto privativo. A cidade de Arcoverde oferece uma excelente infraestrutura. Acho que foi uma boa opção ficar aqui ao invés de Buíque.

O Wi-Fi não está funcionando, de modo que escrevo os textos no Word, e não posso publicar. Estão acumulando posts. Isso não é bom.