es-ARACAJU - A MINHA CAPITAL PREFERIDA

22.11.2018

Hoje participei de um episódio da "Grande Família". Combinei com a Marcia, pelo What'sApp que, a intenção era pegar a balsa para fazer a travessia do Rio São Francisco entre Alagoas e Sergipe às 6 horas da manhã. Assim, mesmo tendo percebido que meus anfitriões dormiram tarde, após realizarem tantas tarefas que antecedem uma viagem, coloquei meu celular para despertar às 5 horas. Assim que me aprontei, desci para a cozinha com minhas coisas e aguardei. Uns 30 ou 40 minutos depois eles desciam a escada e iniciaram a preparação do desjejum, que consistiu em bananas fritas, pão e café.

Assim que percebeu a movimentação na casa, dona Maria, de lá de sua casa já questionou se havíamos perdido a hora, e sua filha explicou que dormira tarde. Desci até lá para pegar o pão, e pouco depois dona Maria chegava na cozinha onde nos encontrávamos, com sua caneca de café na mão, se acomodando no banco, junto a grande mesa de refeições, ao lado de seu genro. Uma animada conversa toma conta do cenário. Pouco depois entra Nicole, que seria conduzida por seus tios até a escola, no caminho para a Balsa. Ela sentou-se ao lado da tia. Mal chegou, seu tio lhe estende uma fatia de banana frita. Ela exibe um radiante e valioso sorriso, que para mim, a convidada do episódio, demonstrou o reconhecimento da afeição e carinho presentes naquele oferecimento. Foi gratificante.

Estavam ali somente quatro dos membros dessa família de 10 pessoas que se revezam nas obrigações da casa, do comércio pertencente a família, alguns com atividades escolares, outros profissionais, mas que acima de tudo, se doam para a família, com disposição e amor. Certo que problemas existem, mas não são o cerne da questão. Cuidarem-se, entre si, é a prioridade.

Antes de despedir-me de Penedo, uma foto com os adultos da família, para mandar para minha prima e para apresentar a vocês esta gente maravilhosa.

Agora nos ajeitamos no carro, que sofreu uma colisão com um boi e, mesmo após os reparos autorizados pela seguradora, ficou com avarias no sistema de fechamento das portas traseiras, que são de correr.

Pegamos a balsa das 7h30, fizemos a travessia com tranquilidade, e fomos ao posto para calibrar os pneus do carro.

O trecho de estrada entre Neopólis e Propriá, para chegar a BR-101, está vem esburacado, mas tem pouco trânsito, o que permitiu-nos andar com certa tranquilidade. Já na BR o movimento é intenso, existem vários trechos prontos de uma segunda pista, mas abandonados sem utilização, pois faltam as pontes de união entre eles.

Pudemos nos conhecer melhor. Conversamos muito, e pude constatar que este casal, ele capixaba, ela baiana, adotaram a cidade de Penedo por questão de missão, destino, energia, ou queira cada um chamar como quiser. Mas todas as portas se abriram quando decidiram para lá transportar sua família. Ouvir sua história é de arrepiar os pelos do braço, tamanha a energia que ela transmite. Contaram-me com verdade e amor sobre a aquisição do terreno para a construção de sua casa, como iniciou o comércio, os empregos. São duas personalidades brilhantes, de alma, corpo, mente e coração, que me deixaram impressionada, pelo esforço e dedicação na construção de seus sonhos.

Contei também sobre minha jornada, não a física, essa pode ser acompanhada pelo blog, mas sobre a missão que tento entender, para cumprir um papel transformador, da minha pessoa e das pessoas com quem tiver a oportunidade de trocar alguma experiência e sintonizarem nas mesmas ondas que eu vibro. Falei das minhas perdas, de alguns dos meus medos, e o Carlei identificou em mim a essência cigana. Talvez ele tenha razão. Por que a necessidade de realizar em trânsito essa jornada¿

A Marcia é uma pessoa muito sensível, de uma entrega tão grande, e um coração tão generoso, que abraça as pessoas que a cercam com o espírito maternal da proteção, sofrendo em cada dificuldade vivida por aqueles que ela aprende a amar.

Chegamos a Universidade, onde soube que ela iria realizar duas provas, de um curso de administração, feito à distância. Como eu não tenho pressa, e dali poderíamos seguir juntos até a casa de minha prima, dando a oportunidade das comadres se reencontrarem, resolvi esperar junto ao Carlei, tomando um café com bolo, eu, e ele dois cafés expressos, no posto vizinho à Universidade. Gastei ali R$ 10,37, e lamentei não poder agradecer mais convenientemente, pela hospedagem e oportunidade de conhecer pessoas tão especiais.

Como eles vendem em seu estabelecimento, artigos religiosos como velas e santos, o Carlei demonstrou profundo conhecimento sobre o Candomblé e a Umbanda. Ele mesmo não frequenta nenhuma religião, mas tem sua religiosidade firmada em torno de vários conceitos que aceita como válidos, com uma tendência espiritualista, e o reconhecimento de várias forças do Universo, a quem dá o nome de deuses. De certa forma, semelhante ao meu conceito Universalista, onde procuro conhecer a cada dia, um pouco mais sobre o que prega cada igreja, formando a minha própria religiosidade.

Ele conseguiu desfazer um mito que carregava comigo, por pura ignorância. Recentemente, tive, em aulas da Faculdade, e também através de literatura sobre a história do Brasil, o conhecimento da verdadeira identidade dos negros que serviram de escravos no Brasil. Fazendo menção a esta realidade, pois algumas tribos africanas, dominando outras, vendiam os negros retidos, que eram trazidos à América para trabalhar nas fazendas e desbravar os territórios. Os índios que aqui estavam, dóceis como os negros, não ofereciam resistência aos invasores da terra. Pense que eram pessoas simples, mas que traziam consigo uma cultura de sociedade, com respeito à natureza e aos integrantes da comunidade. A não resistência era definida por almas não violentas, que não enxergavam a maldade que se aproximava e não viam a violência como possibilidade de preservação. Imaginarmos que, a insurgência entre os escravos poderia, com facilidade, derrotar a minoria dos senhores brancos presentes nas propriedades e compreender porque não o fizeram, pelo menos não na maioria dos casos, nunca foi questão abordada nas escolas.

Depois de situar-me com base nos meus próprios conhecimentos, foi fácil entender a explicação dele que esclarece que entidades da Umbanda e Candomblé, como Preto Velho e Caboclo, não são, como eu pensava, menos evoluídos que qualquer doutor na escala da espiritualidade. São entidades que trazem consigo a simplicidade da sabedoria adquirida de forma empírica, e não conhecimento técnico e formal. Que trazem a bondade de quem luta com pensamento, não com armas e rebeldia. De espíritos que sabiam conviver em seu habitat sem desprezar o outro, respeitando o direito que cada ser tem de estar aqui na sua jornada evolutiva. O fato de se expressar mal, com simplicidade, não tira de ninguém a grandeza de seu coração. O Carlei jogou luz nas trevas de meu pensamento, e me faz rever conceitos, da vida e da morte.

Foram muitas as conversas, acho que ele teria se dado muito bem com meu falecido marido, apesar de um ser agnóstico e o outro com uma religiosidade latente, mas ambos tem o coração puro e uma inteligência que chega a borbulhar, o Roberto com serenidade, o Carlei com impetuosidade. Aprendi muitas coisas, mas esta foi, sem nenhuma dúvida, a mais importante nessa conversa,

E ele ainda me ofereceu uma palavra romena para saudar quem me segue, me encontra, me acompanha: OPTCHA!

A Marcia chegou logo depois, e seguimos para casa de nossa amiga, onde encontramos a família reunida e almoçamos todos juntos, antes que eles retornassem a Penedo, para suas atividades diárias.

Só tenho a agradecer-lhes, pela acolhida, pelo privilegio, pela energia, e quero desejar-lhes sucesso, saúde, amor e fé. Os deuses do Universo conspirem a seu favor.

Minha prima, que almoçou conosco, retornou às atividades de pesquisa no laboratório da Universidade, na área de biologia. E eu fui tirar uma soneca de um pouco mais de uma hora, após um banho, para compensar as poucas horas de sono.

A noite fomos a Orla de Atalaia, onde o Governo do Estado montou um 'arraiá' de São João, com várias barracas, atrações musicais e apresentação de quadrilhas estilizadas. Na entrada, numa espécie de coreto, um trio de forró animava os visitantes.

Na sequência, passamos pelo Batalhão de Bacamarteiros de Carmópolis, cidade do interior de Sergipe que conserva a tradição folclórica que surgiu por volta de 1780, nos engenhos de açúcar, onde os negros atiravam com os bacamartes produzidos por eles mesmos. A tradição é passada de pai para filho, e entre os cerca de 80 componentes, dançam idosos, jovens e crianças. 

Assistimos um conjunto de forró e por uns minutos, e chegamos a tempo para ver a apresentação da quadrilha União de Asa Branca se apresentando. Como nos outros lugares em que passei, o espaço não comporta toda a assistência, porém aqui, dois telões transmitiam a apresentação, de forma muito mais organizada.

Estávamos ali, felizes e contentes, minha prima e seu esposo, dois de seus três filhos, a mais nova estuda em São Paulo e só deve chegar nas férias de julho, e eu, assistindo pelo telão e dançando ao som do bom forró, quando sentimos duas ou três pequenas gotas no corpo.

 Não tivemos tempo nem de olhar para cima e um toró desceu sobre todo aquele povaréu. Corremos para um lado, mas as barracas dos bares e restaurantes não tinham beiral, as portas eram pequenas e quando a multidão se espalhou buscando abrigo, os funcionários dos estabelecimentos foram orientados a impedir a entrada popular. Não consigo entender essa falte de humanidade e de visão. Que lógica comercial é essa que deixa um cliente potencial, havendo espaço e possibilidade de abrigo, a cerrar suas portas? Não eram marginais invadindo para saquear. Eram famílias que estavam apreciando as apresentações juninas. Alguns, acolhidos, poderiam sentir-se agradecidos e esperar o término da chuva tomando uma bebida ou consumindo um petisco...

Eu fiquei semi abrigada sob um plástico, protetor de chuva da barraca restaurante, que só foi desamarrada por um garçom para atender a nossa precisão, depois que já nos encontrávamos encharcados. Ou eu, pelo menos.

A chuva não demorou a terminar, encontrei minha família que se abrigou do lado oposto, e tivemos que ir embora, para evitar uma gripe em função das roupas molhadas. Eu torci um pouco meu vestido, e para entrar no carro, ergui-o, para molhar o banco o menos possível.

Já em casa, troquei-me e fui com minha prima até a casa de sua irmã, que combinou encontrar-nos na festa, mas recomendamos que não fosse, após esse infortúnio.

Conversamos um pouco, pois ela e seu marido vão para o interior, na casa de amigos, passar o fim de semana, e já combinamos nos encontrarmos no almoço de domingo. 'Futucamos' uns amendoins e umas castanhas, segundo sua filha. Eu sempre usei o 'beliscamos', mas acho que beliscar deve estar proibido no ECA, Estatuto da Criança e do Adolescente. Então vamos futucar, que isso pode.

Encerro saudando-os: OPTCHA!

E boa noite.