es-A CAMINHO DE SÃO MIGUEL DOS MILAGRES (AL)

26.11.2018

Como planejado, antes de iniciar a viagem para São Miguel dos Milagres, fui com meus primos até o Mercado Municipal de Aracaju. É um mercado que gosto muito, pois é bem organizado, limpo, tem áreas definidas para cada tipo de produto, sendo eles de artesanato, flores, alimentos processados, ervas medicinais, frutos do mar, frutas, legumes, verduras, castanhas e outros produtos a granel. Procurava um item do artesanato local, leve e fácil de carregar. Marido e mulher separaram-se para cumprir as obrigações, ela me acompanhando e ele indo cuidar de outros afazeres. Não demorei a encontrar o que precisava e logo retornamos.

Já estava com tudo pronto de modo que, servi-me da deliciosa sobremesa de abacaxi com bolo que minha prima fez, especialmente para minha apreciação, esperamos o Yves tomar seu desjejum, pois ele nos acompanharia até a BR-101, na altura da saída para Itabaiana, onde fiquei para solicitar carona para meu próximo destino. Ali tem uma Marginal e a estrada principal, que logo a frente se encontram. Fiquei primeiro na principal, por volta de 11h15. Um caminhão parou antes de chegar a mim. Achei estranho, seria a primeira vez que isso me acontece. Fui até o motorista, que descera do carro. Mas ele informou-me que o caminhão estava com problemas. Voltei para meu lugar e aguardei mais um pouco, mas com aquele veículo parado ali, logo após o radar, achei difícil alguém parar. Resolvi caminhar até um pouco mais a frente.

Avistei um viaduto, pensei na sombra pois o sol estava forte. Enquanto para lá eu ia, cruzei com um ciclista, que subia no sentido contrário, caminhando ao lado da bicicleta. Nos cumprimentamos, ele me ofereceu água e eu disse que o que queria mesmo era carona, dizendo onde pretendia aguardar. Ele, confirmando as observações que tenho feito, me disse que não seria um local adequado, pois o viaduto fica no final de uma descida, e os carros descem embalados. Falei que ia gozar um pouco da sombra e tentar, se não conseguisse, andaria um pouco mais. Mas, lá chegando, mudei de ideia e segui adiante, indo até a confluência das pistas.

Enquanto caminhava este último trecho, um automóvel ofereceu-me carona, mas ele iria até Laranjeiras, que é a cidade vizinha. Agradeci e recusei.

Eu escolhi um lugar e comecei a sinalizar. Um caminhão parou logo em seguida. Já eram 12h32. O motorista desceu do carro e foi lavar a mão. Eu vim pelo lado externo do veículo pois a parte interna do acostamento estava cheia de mato, dificultando minha passagem, principalmente por causa da mala. Quando o vi, reconheci o motorista do caminhão quebrado, já sabia que ele iria para Recife, então só confirmei se poderia me levar até Maceió.

O Francisco é transportador de GLP, gás liquefeito de petróleo, mas vinha com o container vazio, pois já o cavalo estava apresentando problemas. Logo que entrei na boleia, peguei meu celular para ver o horário, e depois, enquanto já circulávamos, questionei-o por que a placa do caminhão era do Ceará¿ Se ele era cearense¿ Ele confirmou e me disse que eu era esperta, pois pensou que eu tinha passado os dados da placa para meus familiares, dando maior segurança à minha viagem. É realmente o que faço quando tenho qualquer suspeita, mas só aconteceu isso uma vez entre todas as caronas que peguei. Mas não desfiz o equívoco.

Começamos conversar e ele me perguntou se eu não tinha receio, se nunca ninguém tinha avançado, eu fiz que não entendi e ele explicou que, se nenhum caminhoneiro teria sido mais 'entrão'¿ Eu disse-lhe que já acontecera, mas de forma discreta. Ele falou que qualquer pessoa um pouco mais atenta, nas primeiras palavras trocadas comigo, perceberia que eu não sou bobinha, que não iriam arriscar. Achei interessante a observação. Mas ele se engana.

Conversando um pouco mais com ele, devolvi o elogio. Era visível a cognição dele. Disse-lhe que também era muito esperto, ele respondeu dizendo que não era letrado, tinha pouco estudo. Mas é um homem admirável. Ainda jovem nos seus 34 ou 36 anos. Foi bem fácil perceber em todos os assuntos que ele abordou durante as mais de 4 horas de viagem, mesmo falando um pouco errado.

Introduziu o assunto 'Lula' e perguntou-me o que eu acho do Bolsonaro. Disse que este último será seu candidato a Presidente da República, pois acredita que o Brasil está precisando de um governo linha dura para melhorar a segurança. Consegue discernir sobre a manipulação das mídias para ressaltar as qualidades ou os defeitos dos candidatos. Acompanha as delações, e tirou suas próprias conclusões sobre a corrupção e toda a roubalheira. Mostrou os trechos da duplicação da BR-101 no trecho próximo à divisa de Sergipe com Alagoas, e sabe como funciona o superfaturamento das obras públicas para desviar ou lavar dinheiro.

Avisou-me que, quando chegássemos próximos ao Posto Fiscal, precisaria esconder-me atrás da cortina, na cama, pois se eles parassem, ele só tinha É P.I. para uma pessoa. E isso gera problemas pois ele não pode transportar passageiros. Perguntei o que seria P.I.¿

_ "Uma roupa de segurança, com botas."

Na hora adequada, fiz o que ele me pediu e coloquei minha cabeça para funcionar.

Depois de alguns instantes, passado o Posto, eu conclui:

_ "o que você disse que não tem é o E.P.I, Equipamento de Proteção Individual, né¿ Nossa maneira de falar, com o Ê em tom fechado, e a sua, É com tom aberto me confundiu."

Mais a frente ele viu um posto rodoviário com dois caminhões parados, entrou num posto de gasolina e colocou a roupa se segurança, que tem aquelas faixas refletivas, nos braços e nas pernas. Colocou por cima da roupa que vestia, mas não colocou as botas. Por causa do calor.

Não sei como nosso assunto caminhou para família, ele disse ter um filho no Ceará, mas não vive mais com a mãe do menino. Está casado com uma moça no Rio Grande do Norte, há 10 anos. Estava viajando já há 32 dias, e fez a conta recentemente, chegando a conclusão que, contando as férias de 30 dias, passa em casa pouco mais de 70 dias por ano. |Já trabalha nesta empresa há 6 anos. Eu achei que sua esposa então, já estivesse acostumada. Ele disse que ultimamente ela andava mais incomodada. Disse não ser inocente, que ficando tanto tempo fora, talvez ela recebesse assistência externa, mas enquanto ele não soubesse de fato, estaria tudo bem.

Mas depois me contou que teve um grande amor, com quem namorou uns dois anos quando tinha aproximadamente 22 anos. Que ela terminou com ele, pois eram ambos muito ciumentos, e brigavam a toa. Que foi embora de sua terra natal para esquecer essa moça, mas que seu pai estava enfermo a pouco tempo e ele teve que retornar, e reencontrou a moça, depois de mais de 10 anos. E estava mexido.

Contei um pouco de minha história passada e recente para ele, dizendo que, você pode ficar bem num relacionamento, viver a vida toda bem. Mas que, em minha opinião, estar com alguém que é ou foi seu verdadeiro amor, trará a sua vida a plenitude. Uma alegria que preenche o seu ser. E que talvez, quando jovens, eles não tivessem a maturidade para estar juntos. Ele me disse que comprou casa e que não teria coragem de desfazer o que estava feito. Senti que seu apego estava nos bens materiais. Disse que não estava aconselhando-o fazer isso ou aquilo, só passando uma sensação com base em minha experiência pessoal. Mas, depois de ouvi-lo falar ao telefone com o gerente de seu trabalho, solicitando carga para Rio Grande do Norte ou Natal a fim de consertar o caminhão, acho que vai acabar criando uma novas família. Só acho.

Ele ia parar em Messias para tomar banho, pois mais adiante, até Recife, não tinha um posto decente que pudesse parar, já que o veículo é controlado. Contou-me que só no ano passado, 11 caminhões da empresa foram roubados, os motoristas amarrados e os pneus e rodas roubados. Pneus e rodas¿ É isso o que eles levam¿

No caminho vimos 5 caminhões tombados. Um deles, como milho, a população estava levando a carga, e nem estava tão próximo assim a alguma cidade.

Em Messias ele me deixou junto ao ponto de lotações, e fiquei aguardando o carro para Flexeiras. Já eram 16h45 e percebi que não conseguiria chegar a São Miguel dos Milagres antes de anoitecer. Um carro pequeno, que faz lotação, queria me levar por R$ 100. Nem pensar. Falei que estava viajando de carona e não ia gastar todo esse dinheiro. Eles acham que os turistas são todos trouxas. Ou desesperados.

A Van do sistema estadual de transporte demorou a passar. Já tinha 8 pessoas no ponto aguardando-a. Chegou faltando 15 minutos para às 18. Enquanto isso eu batia papo no ponto com minhas duas vizinhas de assento, um banco de concreto. Já estavam aflitas com o atraso do transporte, a mais jovem pensando em chamar o marido se passasse das 18h. A mais velha ainda iria pegar outra condução até sua casa, e de Flexeiras, só até às 20h tem carro para onde ela queria.

Daqui a pouco a senhora falava com uma vizinha dela, que estava com uma filha de aparência bem jovem, baixinha, mas com o corpo de mulher, que depois descobri ter só treze anos. A senhora tentou cantar uma música para explicar algo e disse que era um forró, e as outras não reconheceram com o seu jeito de cantar. Interferi na conversação, com minha voz ainda rouca e cantei:

_ "Hahahahahahaha, mas eu tô rindo a toa, não é que a vida seja assim tão boa, mas o sorriso ajuda a melhorar..."

Ela ficou contente, dizendo:

_ "Ela sabe, ela sabe." E rimos todas.

A condução veio bem cheia. Tive que ir de pé, junto com outras duas moças que riam o tempo todo. Foram 35 km vencidos rapidamente por R$ 6,00. A moça mais jovem, que conversou comigo no ponto, me disse que em nosso destino tinha uma pousada na entrada da cidade. Explicou para a cobradora quando entrou, sem eu nem perceber, e quando questionei, na hora de pagar a passagem, para descer no lugar certo, ela já tinha conhecimento que eu desceria na churrascaria, mas ambas tinham dúvidas se a parte da pousada já estava funcionando.

Ainda bem que estava. A funcionária que me atendeu passou-me o preço de R$ 35,00. Perguntei se eles serviam jantar, pois durante a viagem, só comi o lanchinho de bolachas, uma barrinha de cereal e uma maçã, que minha prima fez questão de me dar. Ainda tinha umas mariolas, que seu esposo me deu, mas que estava guardando para sobremesa. A atendente me falou que o jantar era sopa pelo valor de R$ 12, mas a proprietária falou que faria R$ 10,00 para hóspedes. Aí questionei se o valor da hospedagem incluía o café da manhã, e não, mas R$ 10,00 a mais e chegamos no preço final de R$ 55,00.

Só reclamei quando a empregada me falou que o banho é frio. A proprietária pediu a sua mãe que me conduzisse até seu próprio quarto para tomar meu banho quente, coisa que fiz enquanto preparavam meu quarto.

A pousada é realmente bem nova, ainda estão terminando os quartos. Meu quarto era um cômodo sem janelas, com banheiro e um ventilador barulhento estava ligado. Os quartos estão sendo forrados, mas quando entrei no meu, após o banho, achei-o abafado e questionei a necessidade de cobertura. A mãe da proprietária, uma jovem senhora de 45 anos, falou que os hóspedes estavam reclamando e solicitando. Atribui isso ao medo de insetos que poderiam vir do telhado, ainda novo, mas...

Minha sopa foi servida numa ampla mesa de madeira, numa sala grande, onde também ficam alguns sofás e uma televisão. A dona da pousada tem duas crianças e ficou viúva a pouco mais de um mês. Seu marido, com 47 anos, foi vítima de tumor cerebral. Sua mãe me contou, dizendo ter quatro filhas, a mais velha, com 30 anos, trabalhando ali como pedreira, e depois de 2 casamentos fracassados com homens, resolveu morar com uma mulher. Sua mãe não tem vergonha de dizer isso, porém considera pecado. Eu afirmei que, na minha concepção, pecado, se é que existe, é relacionar-se sexualmente com alguém, sem amor. Tanto faz se o relacionamento é homo ou heterossexual. Na verdade, não acho que pecado exista. Acho que colhemos o que plantamos de acordo com nossa consciência e nível de esclarecimento. Mas essa colocação não seria adequada a sua compreensão, não possibilitando a reflexão. Ela já tm 6 netos, se entendi direito, e acho que 4 estavam ali, brincando.

A sopa estava uma delícia, e foi servida com torradas e uma xícara de café com leite. Após o jantar, sentei-me um pouco no sofá distante da televisão e fui olhar minhas mensagens das redes sociais no celular. Pensei em pegar o notebook para escrever, pois não tinha sinal de Wi-Fi porque o roteador foi deixado na churrascaria, que já estava trancada. Mas senti que o tempo estava esfriando, e logo resolvi voltar para o quarto e escrever lá mesmo, no Word, para depois publicar.

Aí entendi porque os hóspedes reclamam da falta de forro. Na verdade penso que desejam uma laje, não serve só o forro. É uma zoada sem tamanho, as crianças correndo, falando alto, deixando cair as coisas, chorando, reclamando. Eu gosto de crianças, só achei que não combinam com a privacidade que se deseja em uma hospedagem com quartos privativos. Só foi parar o barulho quase 23 horas. Num dado momento, desliguei-me dele, mas foi um alívio para os ouvidos quando o silêncio reinou.