Em direção a COVILHÃ, passando por PIÓDÃO e beirando a o Parque Natural da SERRA DA ESTRELA.

13/03/2020

Hoje quero posicionar-me em relação às medidas de contingência relativas ao Corona vírus, pois percebo preocupação, exasperação e até indignação. Essa viagem foi planejada por mim e por minha amiga Cristina desde o ano passado, por volta de outubro. No final de novembro ela comprou as passagens para vir ao meu encontro e na mesma época nós estabelecemos o roteiro. Eu tinha sugerido a ela que chegasse por um aeroporto e saísse pelo outro, e nossa direção seria traçada a partir do ponto de desembarque. Assim ela comprou a passagem para chegar a Lisboa dia 06 e voltar a partir do Porto em 21 de março. Ela resolveu que não cancelaria a viagem, pois em Portugal ainda não se noticiava nenhum caso do COVID19, o que me deixou muito feliz já que eu ansiava pelo reencontro. Dito isso, nossa viagem transcorre normalmente. Ela trouxe muitas máscaras para evitar problemas caso se manifestasse qualquer doença viral em nós. Trouxe muito álcool gel. Nós temos tomado muito suco de laranja, nos alimentado e hidratado bem, mantido as mãos limpas, lavando conforme instrução, e criamos até um comprimento para quando encontrarmos a amiga Cláudia, em Covilhã, e o guia, Cleyson, que nos conduziu pela Serra da Estrela. Só usamos metrô em Lisboa, no início da viagem, quando nenhuma medida restritiva tinha sido anunciada. Fora isso, estamos viajando de carro próprio e respeitando todas as orientações preventivas recomendadas pelas autoridades competentes. Ainda comprei própolis para aplicar na garganta. Finalmente, somos pessoas otimistas, confiantes.

Ser consciente é fazer escolhas, e assumir responsabilidades. Penso que além do dever salutar com o corpo, tenho um dever com a humanidade. E não me deixar atemorizar é ir contra um fluxo de informações que destroem mais do que a própria doença. Muitos se questionam porque um vírus tem causado tanto estardalhaço na economia, e se de fato essa doença é tão perigosa quanto se anuncia. Os meios de comunicação têm a capacidade de fazer um problema parecer maior ou menor do que realmente é de acordo com a forma de apresentá-lo. E nós somos responsáveis por atear fogo aos gravetos secos espalhados pelo caminho.

Dito isso, hoje cedo, saindo do hotel já com as malas para evitar ter que subir e descer novamente aquelas escadas, a Cristina se apoiando no corrimão e em mim. Eu disse a ela, que a ajudava e depois eu levaria as malas para baixo, quando surgiu uma atendente que nos pareceu a proprietária e perguntou-nos:

_ " Mas por que vocês não utilizam o elevador que está ao fundo?"

A Cristina:

_ " Como? Não está me dizendo que tem elevador neste hotel."

_ " Tem si. No fim do corredor."

E nós duas com aquelas caras de incrédulas.

_ " E por que o moço da recepção não nos avisou. Conversamos tanto... Ele foi tão gentil levando todas nossas malas para cima. Comunicamos sobre o problema de joelho..."

_ " É que o elevador às vezes para, talvez por isso ele não falou nada. Ou talvez ele mesmo tenha medo de ficar preso no elevador."

Fomos embora achando até engraçado, e a mulher achando uma total falta de tato. Mas, fazer o que?

Depois de colocar a bagagem no carro voltamos ao Estrela do Mar, pastelaria. E o proprietário já estava lá, a frente do negócio. Agora o estabelecimento já estava mais cheio. Pedimos nossas tostas, eu tomei um bule de chá de cidreira e um pedaço de bolo.

E lá fomos nós, agora para Serra da Estrela, passando por Piódão e Unhais da Serra até chegar a Covilhã, que era nosso destino.

A distância até Piódão não era grande, o dia estava lindo, e as estradas começaram a mudar de característica. Escolhemos fazer um caminho sem portagens (pedágios), pois o tempo e a distância eram quase idênticos. As estradas, num caminho que margeia o Parque Natural da Serra da Estrela, são de serra, com altos e baixos, e muitas curvas. E foram ficando mais acanhadas à medida que avançamos. A estimativa era chegar a Piódão na hora do almoço. No último trecho a estrada realmente era de largura um pouco maior que de um carro e sem sinalização aérea e nem terrestre. Mas as paisagens eram de fazer cair o queixo, as montanhas estavam em verde e roxo, de uma floração de inverno. Mas como não tinha onde parar para tirar fotos, a maior parte destes registros ficou só em nossas retinas.

Certos trechos eram tão ameaçadores, com precipícios gigantescos de um dos lados da estrada, que a Cristina, quando eram do lado dela, fechava o vidro do carro de medo. Kkkkkk

E eu queria tirar os olhos da estrada para apreciar, mas não dava. Só tinha vislumbres. Mas já eram suficientes para provocar encantamento. Em meio as montanhas apareciam pequenas vilas, com poucas casinhas. E a todo o momento pensávamos que já podia ser Piódão.

Eu não tinha procurado fotos na internet, como, aliás, nunca procuro. Prefiro o deslumbramento da surpresa. E que surpresa!

Uma vila cinza em meio a vegetação, as casas construídas com pedra lascada. A Vila de Xisto. O que eu sabia é que não há ruas transitáveis por automóveis. E já tratei de colocar o carro na descida antes do Posto de Informações Turísticas. A Cris foi descendo enquanto eu fechava o carro e achou uma vaga ainda mais próxima.

_ " Guarda o lugar aí, disse eu, que vou buscar o carro," pois seria melhor para ela na volta, evitando a subida.

No posto obtivemos informações de o que ver sem ter que subir o morro. E outras como a da população local, em torno de 70 pessoas. O censo de 2016 diz 178. Então alguns já se foram...

Decidimos ir em direção ao Restaurante O Fontinha, recomendado pelos blogueiros que li antes de montar o roteiro, depois que a Cristina indicou esta cidade como de interesse. E indo para lá já tivemos ideia das casas, da gente, até porque vios uma grande movimentação de umas 6 pessoas extremamente preocupadas com um enxame de abelhas na chaminé de uma das casas. Cada um dando um palpite, o moço do restaurante vindo engrossar o coro de vozes com umas cartas que o carteiro deixou no estabelecimento dele por não querer passar pelo enxame... E aquele passou a ser o assunto do dia. Naquela cidade que a Cris mencionou ser possível viver 200 anos, e eu digo: " ou pelo menos ter a sensação de...", com o ritmo lento e tranquilo como tudo acontece.

Quando entramos no restaurante só uma mesa estava ocupada por dois portugueses que me pareceram locais.

Escolhemos os nossos pratos e bebidas, o garçom passou alguma orientação sobre o menu e se foi. Eu pedi o cardápio do dia que incluía pão, água, o prato principal e sobremesa. A Cristina escolheu um da Carta, e não pediu bebida. A minha escolha de carne recaiu sobre a Truta já que estamos em terras frias e montanhosas. Foi servida com batatas e salada de folhas e tomates. A Cris pediu costeletas, que foram servidas com arroz batatas fritas e salada. Mas ela cometeu o mesmo erro que eu, em algumas ocasiões anteriores. Ela achou que ia receber costelas e recebeu bistecas. As costelas daqui eles chamam de entrecosto. E não gostou muito do sabor da comida, exceção feita à batata frita.

Eu já gostei muito da truta. E da batatas.

Enquanto comíamos chegou uma família de portugueses, um casal e uma filha de menos de 10 anos. E ntamos uma atenção diferenciada por parte do garçom, oferecendo Wi-Fi, explicando pratos e caminhos, e todo atenciosos, além da conta e muito além do que foi conosco. Eu comentei com a Cris que achava que o motivo era o fato de estarmos só em mulheres.

Passado um pouco entrou outra turma de brasileiros, três mulheres adultas e um homem. E sentaram-se na mesa bem ao lado da nossa. E a Cristina, notando o sotaque, já começou a conversar.

E o garçom, de novo, todo solícito. Aí mostrei.

_ " Viu, o grupo tem um homem?"

_  " É mesmo Meyre."

E comentou com a carioca que estava ao meu lado, ao que lea respondeu:

_ " Sim, nós também percebemos isso. Estávamos só as três até uns dias atrás. E quando ele se juntou a nós, os tratamentos mudaram completamente, melhoraram sensivelmente."

E outro grupo de brasileiros chegou e confirmou a nossa teoria.

Fizemos outro caminho para sair de lá até o carro. E para nós foi o suficiente. Dizem alguns que passar a noite na cidade é interessante, pois ela fica muito bonita iluminada. Mas não cabia na nossa programação e acho que seria o caso de chegar até lá no final da tarde e sair pela manhã (fotos by Cristina).

O grupo que sentou ao nosso lado vinha de Mantegas, o sentido que íamos. Disseram que a estrada para aquele lado era ainda pior, e já eram 15 horas. Fiquei com receio de passar em Unhais da Serra, que demandava um desvio e chegar tarde e escuto a Covilhã. Assim, decidimos por ir direto. O GPS perdeu o sinal e desligou o caminho. E fui me guiando pelas placas durante um pedaço.

Passamos por Foz d' Égua, bem pertinho de Piódão.

Vi uma nascente e tinha como parar. Era junto a uma vila. E deste lado da montanha as flores não eram mais roxas e sim amarelas.

Também muito bonito. Um pouco depois passamos por uma mulher, caminhando na estrada, no meio do nada, e falando ao telefone. Parei na estrada mesmo, já que ali não passava quase ninguém e ativei os dados móveis para reativar o Google Maps. E falei para a Cris:

_ " Pode procurar o anjo que já deve ter sumido."

Pensa, uma mulher aparecer com o celular no meio do nada só para eu perceber que ali já tinha dados móveis...

Seguimos nosso caminho por aquele lindo caminho e nos surpreendemos quando avistamos Covilhã, cheia de prédios. Uma grande cidade. Fomos direto para o hotel, fazendo o check in por volta de 16h30. Do quarto já mandei mensagem para a Claudia, uma amiga que conheci em São Paulo, quando tentava abrir a conta no banco português por exigência do Consulado. Ela está morando em Covilhã pois sua filha veio fazer universidade aqui. E avisei que já tínhamos chegado para nos encontrarmos.

Só foi o tempo de lavar usar o banheiro, deixar as malas espalhadas pelo quarto e sair, pois além de encontra-la, queríamos passar no supermercado para comprar água e comes para o dia seguinte.

Ela me passou o endereço e fomos ao seu encontro, me avisou que acabara de se recuperar de um resfriado. Depois que ela entrou no carro seguimos para ver alguns pontos de interesse que eu já havia comentado com ela, bem perto de onde ela mora.

Ali é o centro antigo da cidade, de ruas estreitas e ladeiras. De ruas de paralelepípedos e pedestres na rua, por que não tem calçadas. E logo depois de uma rua estreita e subida, a Claudia me falou para seguir em frente, na mesma rua, mas para mim pareceu uma bifurcação, e fiquei em dúvida, parando o carro. Aí ela me mostrou que devia manter à esquerda. Só que pra siar com meu carrinho 1000, com três grandes adultas nauqela ladeira em curva e com aquele piso... Não foi. Tinha perdido o embalo. Deixei o carro voltar um pouco de ré, porque já vinha um outro carro lá atrás, mas não foi o suficiente, e novamente engasguei. Uma pedestre que estava na rua deu palpite, dizendo que eu podia eguir em frente. "Ok," pensei, " eu sei, mas não estou conseguindo."

Nisso o carro que vinha lá de trás chegou perto, e não dava mais para eu dar ré de novo. Um moço que tinha acabado de estacionar me disse:

_ " Puxe o freio de mão, acelera e vai soltando."

Era o que estava fazendo, mas o carro não ia. E aí forcei. E ele foi. Mas queimou lona de freio e a embreagem, fazendo fumaça e soltando um cheiro tóxico. Mas fui.

E lá em cima arrumei uma vaga, e lá fui eu subir de ré agora. Uma subidinha, mas já tinha estressado, apavorei. E o medo não é um bom aliado nestas horas. Mas enfiei o carro lá deixando o carro descansar no meio do cheiro ruim.

Seguimos a pé por uma descida estreita, a Cristina pela trilha de pedras lisas no centro. E fomos ver a Coruja, confeccionada com pneus de trator e lixos urbanos pelo artista Bordalo II.

Depois fomos olhar várias pichações pelas paredes e portas da cidade, com motivos de bom gosto, incluindo a ovelha, símbolo da cidade dada a atividade industrial, motivo de crescimento econômico da mesma no passado, lanifício.

Avistamos também a Igreja Santa Maria Maior, com sua fachada de azulejos, combinando com tudo que há no entorno.

Algumas caminhadas eu fiz sozinha, enquanto a Claudia e a Cris ficavam conversando, sentadas em algum canto.

Fui ver onde é a Câmara Municipal e o fundo da Prefeitura. E depois voltei para encontra-las e procuramos um bar para lanchar.

Entramos numa pastelaria, todas contentes, e de um lado havia mesas com fumantes, e o outro só mesas reservadas. A Cris perguntou se havia local para não fumantes. Ao que o dono respondeu:

_ " Sim, este," apontando para o lado com reservas. E ela:

_ " E estão todas reservadas, então não há lugar para nós aqui," e saímos deixando-o com uma cara de surpresa.

E nos dirigimos para outro bar de esquina onde o dono foi muito simpático. Serviu-nos as bebidas e pediu-nos para esperar uns cinco minutos que a equipe da cozinha já estava chegando. Eu o achei parecido com alguém do meu conhecimento, e depois lembrei-me. Ele parece com um querido amigo de Itu, Sr. José Eduardo. Talvez sendo u pouco mais novo e mais alto.

Pedi uma tábua de queijos, já que os queijos da Serra da Estrela são conhecidos internacionalmente. A Cris pediu Alheira, pois ficou com vontade depois que comi em Tomar. E a Claudia só quis suco de laranja. Vinho foi a melhor pedida para acompanhar o queijo e os pães, e ele também trouxe azeite para a mesa, depois que pedi. E o vinho foi o Beyra, por sugestão dele, aveludado na boca. Delicioso.

O preço, além do atendimento, das companhias, e mesmo do local, foi excelente. 

A Claudia ainda queria me mostrar a Porta do Sol e o Miradouro, e como tinha que andar um pouco ainda por aquelas ruas tortuosas, a Cristina aguardou no bar enquanto fizemos este pequeno passeio, já noturno.

E ra hora de pegar o carro. Deixei a Cris ali, depois de se despedir da Claudia e eu filmar o nosso cumprimento em época de vírus (veja no Instagram e no Facebook), e segui com a Claudia até o carro, onde nos despedimos do mesmo jeito, lamentando por ela não poder ir conosco, preocupada em não nos transmitir o resfriado que a afetou, já que estamos em viagem e passando por zonas que seriam as mais afetadas em Portugal. Fiquei chateada e ao mesmo tempo agradecida. Achei muito prudente. Obrigada Claudia, por sua consideração e companhia.

Desci, peguei a Cristina e fomos direto para o LiDL, comprar água, batatas fritas e barrinhas de amêndoas, parecendo pé de moleque, para o tour guiado pela Serra, amanhã, com o Cleyson, guia brasileiro indicado pela Claudia.

E voltamos para o hotel descansar para o dia seguinte. A internet não estava tão boa e com a Cris eu sempre tenho muito assunto que conversar. São tantos anos de amizade e tanta intimidade que não falta assunto.

E mais um dia maravilhoso se foi.