DE FOZ DO ARELHO À NAZARÉ

08/08/2019

O último dia em Foz do Arelho nem deveria ser mencionado, por raras exceções. Então só farrei menção a estas.

O dia amanheceu nublado e sem graça, eu ainda com muita ou dor, ou ainda mais dor, a torcicolo estava afetando toda a parte superior direita do corpo. Doia até o couro cabeludo, a gengiva e a garganta. E o ciático do mesmo lado estava muito inflamado.

Por mais que eu tente me animar, com dor, não é fácil. Fiquei assistindo ao Netflix no hostel, o dono apareceu, mas fiquei a maior parte do dia só.

No meio da tarde resolvi sair para almoçar,  e fui para a Padaria Central, que o nome já indica onde fica. Estavam lá muitos moradores, o que estranhei em se tratando de uma quarta-feira. Animados, falantes... Entre as ofertas do dia no cardápio, me animei com uma pasta estufada de ossobuco, ou o inverso.  Ossobuco me faz lembrar minha sogra, que às vezes nos recebia com este delicioso prato, sabendo que nos agradava.

O daqui também estava a maravilhoso, servido numa generosa porção que eles consideram como meia porção. E vou te dizer que comi praticamente tudo, toda a massa, e da carne sobrou um mísero pedaço. E ainda acompanhado de meio litro de sangria. Divinamente acompanhado. Gastei 16,50 euros, mas foi uma refeição que valeu por duas.

Caminhei até onde estava estacionado o carro, umas duas quadras e fui conhecer o Penedo Furado. Pensei tratar-se de uma rocha no mar, mas é a beira da estrada, e fica dentro de um cordão de isolamento por risco de desmoronamento. Alguém já deve ter se machucado por ali... E bem perto estava outra porção da Lagoa de Óbidos.

Fora estas duas menções de passeio, a única e mais importante, que não é relativa ao lugar mas foi de grande valia, pois se manifestou no carinho e preocupação para comigo. Muitos passaram receitinhas e benzimentos para ajudar a sanar a dor. Outros orientaram com alongamentos, e sugeriram descanso. Eu sabia que o motivo estava oculto em minha mente e coração mas não estava conseguindo prescrutá-lo.

Por fim, minha amiga e madrinha Cristina, com sua grande experiência de vida, formação em psicologia, e carinho por mim, conseguiu fazer as perguntas certas na hora certa, e na hora que vou respondendo; "Não é nada", automaticamente cenários se montam em minha cabeça elucidando as preocupações que estavam me paralisando. Feitas as descobertas, consigo lidar com elas, e hoje já estou bem melhor. Agradecida a todos, cada um trouxe algo de grande valia, pois amor e cuidado têm um grande poder curativo.

As meninas espanholas são preciosas. Levantamos no mesmo horário, por volta de 8 horas. Elas irão embora hoje também. Irão para Lisboa. E eu para Nazaré. 

Saio de biquíni e saída de praia, toda esperançosa que o tempo melhore e eu consiga tomar um banho na Praia de San Martinho, no caminho. Mas o máximo que consegui com minha esperança foi achar uma vaga próxima ao Porto e assim conseguir descer e conhecer o lugar. 

Consta que era também uma lagoa, junto com a de Óbidos mas o assoreamento e a ação do homem nos últimos tempos conseguiu fazer o que milhares de anos não conseguiram. É uma grande baía com uma pequena fenda de entrada. um lugar bonito a meio caminho entre Foz do Arelho e Nazaré.

Quando cheguei à Nazaré, por indicação das placas fui direto à Praia do Norte, curiosa para ver as super ondas. Que decepção, não é época. Elas surgem a partir de outubro, até março. Então terei que voltar mais adiante para vê-las. Ainda assim se tem uma visão bem ampla da praia.

Quando estava chegando à Praia do Norte vi várias pessoas tirando fotos de uma floresta de pinheiros, acho. Quando passei de volta, parei e fui ver o que estava chamando a atenção de tanta gente. Cervos, de vários tamanhos, alguns pequenos bambis, outros com grandes galhadas. Que lindos. Bem à vontade. No cercado do Pinhal de Nossa Senhora do Nazaré. 

Agora vou ao hostel. É cedo, mas deixo ali meu carro e vou conhecer a cidade. Fiz o check-in mas não peguei as chaves, só após as 15 horas. Vou ao banheiro e troco de roupa. Não vai dar praia mesmo. 

O hostel é bem pertinho do Largo onde está o Santuário.

Dirijo-me agora ao Santuário Nossa Senhora de Nazaré, não é muito grande, mas suntuoso. Troco uma ideia com meu Deus na capela do Santíssimo. Uma sombra interessante, que não sei se é proposital, no teto da Capela do Santíssimo, me chama a atenção.

Passei também na Capela de Nossa Senhora de Nazaré ou Ermida da Memória.

E vou para o largo, de onde se tem uma maravilhosa vista da Praia de Nazaré, que tem um comportamento completamente diferente da Praia do Norte com relação às ondas. O vento lá em cima é forte, e parece que vem por todos os lados. 

E fui ao posto de turismo. A atendente, muito simpática, me indicou atrações, caminhos e me deu explicações sobre as tradições locais, como o peixe salgado, para conservação nos idos tempos sem geladeira. Comentei com ela sobre o processo de fabricação do charque, carne de sol, carne de lua, carne seca. Ela disse imaginar que era uma forma de preparo de um prato, e sempre teve curiosidade pois, quando mais jovem, assistia muitas novelas brasileiras que traziam este tipo de informação. Trocamos boas figurinhas, ela muito atenciosa. Sugeriu que eu descesse até a praia pelos degraus, e usasse o funicular para subir, processo mais cansativo. Comentou ainda que um dia, tinha um casamento na praia, e morando aqui em cima, no Sítio, pegou sua filha e desceu de carro. Levou uma hora para conseguir vaga para estacionar o carro, motivo pelo qual não recomenda este transporte.

Aceitei a sugestão e lá fui eu, devagar e sempre pela escadaria. Um menino, contando os degraus, quando chegou lá embaixo, contados uns 170 degraus, revelou, em espanhol, para seu pai:

_ " Yo nunca havia bajado una escalera tan grand."

Acredito. Nem eu, creio.

Já são mais de 14 horas e começo a ficar com fome. Observar a muralha de pedra, de baixo para cima, também é fenomenal. E eu estava lá em cima não faz tanto tempo assim.

Estou com vontade de camarões, mas os restaurantes no calçadão em que me encontro estão muito cheios. Não quero ficar aqui. Continuo a procurar, até que uma senhora me oferecendo quartos para dormir me indica um bom restaurante.

Está cheio e tenho que esperar na porta. E já fazer o pedido pois a cozinha encerra a recepção de pedidos às 15 horas. Uns 10 minutos e já estou acomodada. Solicito Camarão à Casa e meia garrafa de vinho branco. O garçom, brasileiro, não soube me dizer como é o preparo do camarão. Descobrimos juntos, na entrega do pedido, que era frito, com salada de alface e cenoura, azeitonas  e batas fritas com casca. Coisa de povo que já passou por guerras e sabe o que é passar fome, evitando o desperdício. Tudo delicioso. Agora já tomei vinho tinto, verde, branco, e sangria. Falta o do Porto. Mas só lá.

Saio com os olhos brilhando, sei disso, sinto isso. Carinha ébria. kkkkkkk

Quero ainda uma sobremesa e uma bolota de Berlin. Tinha uma padaria bem junto ao restaurante, mas como perguntei ao garçom o caminho para a estação do funicular, acabei esquecendo meu desejo, relembrado quando avistei a fila.

Andei de novo até o calçadão dos restaurantes e comi um pastel de nata com a massa quentinha e crocante. Poderia dizer que quase o melhor, se não tivesse sentido o gosto de ovo no creme. 

Da fila para o funicular podíamos apreciar um artista brasileiro tocando e cantando músicas populares. Dancei um pouco, aplaudi, agradeci. Ele também, ficou feliz por ver sua música tocando alguém, mais do que os lhe deram alguns trocados.

As estações do funicular têm alguns painéis muito bonitos e interessantes. O bondinho carrega 40 pessoas por vez, nem todas sentadas, faz o trajeto em menos de um minuto e custa 1,50 euros a viagem, ou 2,90 ida e volta. Tem preços especiais para idosos e crianças e para residentes. O filme do translado está no Instagram (@ lessa meyre).

Agora volto ao hostel para acomodar minhas coisas no quarto. O quarto é para 4 meninas, mas só estamos eu e uma canadense, que estava estudando em Barcelona, mas agora faz uma viagem de férias retornando para casa. Nos comunicamos misturando inglês, francês e espanhol. Mas está dando certo. Ela até me perguntou se ronco. Parece que tem o sono leve. Então vai dormir com protetor auricular.

Todos os quartos têm seu próprio banheiro, o que é bastante agradável, dividir só com, no máximo, 4 pessoas. Minha companheira tomou banho primeiro e enquanto eu tomava o meu, saiu para jantar.

Eu, quando terminei, me vesti e fui atrás da bola de Berlin, que nada mais é do o nosso sonho de padaria, com um creme mais colorido pela presença de mais gema de ovos do que usamos por aí. Algumas padaria nem usam gemas.

Sai com uma garoa forte, e não achava onde comer. Como supus, às 20 horas os estabelecimentos aqui em cima devem fechar, que é quando para o funicular, 20h30. Vi duas pastelarias e café. Escolhi uma. Quando estava me aproximando, um senhor numa mesa de 3 homens me indicou com a mão que estavam fechando. Pergunto-me:

_ " Vous êtes française?"

_ " No. Je suis brasiliénne."

E ele começou a falar de mim para seus amigos, que cor bonita que ela tem.

_ " Eu posso falar porque sou velho e você não vai pensar que estou com outra intenção."

Um dos outros ainda disse:

_ " Não é só a cor, ela é muito bonita também."

Acho que nem vou mais querer as bolotas de Berlin. Vou sentar-me aqui e deixar que inflem meu ego. kkkk

Mas eles me dizem que acharei as bolotas no café ao lado. Vou logo, antes que fechem também.

E este será meu jantar. Um café com leite, grande e uma bolota. Gostosa.

Volto com garoa e vento forte. Chego úmida. Minha colega de quarto chega logo em seguida, após ter comido uma pasta, também molhada. 

Agora vamos relaxar e deixar a hora passar, até quando o sono chegar. Tenho a impressão que a cama também tem um colchão melhor, que vai me acomodar bem.

Hoje falei com a Débora ao telefone. Um pouco das minhas agonias se dissiparam. É só drama de minha cabeça. E assim, estou melhor. E amanhã estarei sã. Boa noite.