CORDÓVA e suas tantas atrações!

24/11/2019

Depois de tanta chuva, o dia amanheceu claro, bonito e até quentinho. O frio me deixa um pouco preguiçosa. Mas me esforcei e sai da cama para tentar recuperar o tempo perdido, já que na tarde de ontem não consegui ver nenhum dos locais programados.

Iniciei com o café da manhã que foi quase um almoço, considerando que fiquei sem jantar ontem. Pedi um suco de laranja, um café com leite XXL, um pão rústico com requeijão tomate e ervas frescas, e finalizei com churros doces, porém pouco doces, infelizmente.

A xícara de café com leite, confesso, me surpreendeu. E eis que, acostumada com o resultado dos pedidos em outros lugares, aqui a quantidade foi grande. Ainda bem que eu estava com fome.

Passei no estacionamento para pegar um agasalho e uma calça que, sem querer foi parar no meio da roupa suja. E voltei ao hotel. Depois de guardadas minhas coisas, pedi ajuda na recepção para que me apontassem os locias que desejo visitar no mapa. Precisava refazer a ordem da visitação, para aproveitar melhor o tempo.

Assim, comecei pela Igreja São Francisco, com vista externa.

Depois fui a Casa de Las Cabezas. Paguei 6 euros e recebi um panfleto para conhecer a lenda que envolve a Casa, onde sete irmãos da família Lara foram decapitados como forma de vingança por ter, um deles, matado um primo de dona Lambra, no casamento desta com o tio Ruy, irmão de dona Sancha, mãe dos 7 rapazes. Suas cabezas foram penduradas na rua, junto à casa.

Trata-se de uma casa morisca, que foi recuperada e faz parte do patrimônio histórico da cidade de Córdova. Jardins e vários andares de pequenos cômodos, incluindo uma masmorra e sótão.

Passei pelo Centro de informações turísticas para ver se havia algum ingresso geral para baratear o preço dos locais que pretendia visitar.

Ali junto estão a Porta do Arco do Triunfo de San Rafael e a Ponte Romana. Também tem um obelisco. Mas pretendia voltar ali mais tarde e tentar ver a Catedral antes de ficar muito cheia de gente, pois, a minha sensação é que depois do almoço o movimento é maior.

Enquanto caminhava para lá apareceu uma mulher com os raminhos que, segundo a tradição, trazem boa ventura. Não sei se estas são as ciganas das quais minha amiga me falou, mas sei que uma delas foi insistente. Eu não consigo passar sem dar atenção. A pessoa me oferece qualquer coisa e, quando não quero eu digo: Não, obrigada. Mas perece que isso é suficiente para elas perceberem que a pessoa não ignora. Ela me disse que era um presente. Eu insisti que não queria. Ela estendeu a mão e falou seu nome: Maria. Eu peguei sua mão e me apresentei também. Ela segurou forte minha mão, prendendo forte com o dedo polegar, olhou nos meus olhos e me disse que não recusasse suas bendições. Eu olhei fundo nos olhos dela de volta: " Aceito suas bendições, mas eu não quero o ramo. Não insista." Eu já dei alguns olhares como este em situações semelhantes ao longo da vida. Sinto todos os músculos da face se retesarem. Percebo a mudança no olhar, no brilho deste. E também sinto o enrijecer das mandíbulas. Ela recuou. Eu não gostaria de enfrentar meu olhar. Não quando estou prevenida e determinada.

Depois deste episódio segui para a Catedral-Mesquita. O nome deixa claro que foi uma Mesquita muçulmana, que foi convertida ao catolicismo através de adaptações. Não tinha comprado ingressos antecipados e peguei fila para compra do tíquete e depois para entrar no templo. Da fila fiquei observando o Pátio de los Naranjos. Aliás, o que não falta nesta cidade são árvores de cítricos. Estão por toda a parte. E nisso, acho que o outono é uma boa e´poca para conhecê-la e ver os pés carregados de frutos quase maduros. Também observei a Torre Campanário e avaliei se queria subir os seus 200 degraus por mais dois euros. Vou passar essa. O joelho está um pouco melhor, e ainda tenho tanta coisa para fazer...

É assombroso como eu sempre me sinto surpreendida com as maravilhas que tenho encontrado. Quando entrei e vi aquele espaço imenso, cheio de arcos e colunas bicolores...

Fui andando e não parava de olhar para o teto, e as colunas... Acreditam que a maior parte dos acabamentos das colunas são diferentes? E cada pintura do teto é diferente do espaço seguinte, tanto nas formas como nas cores? E ainda observei a entrada de luz solar por duas janelas vitrais, colorindo a parede oposta. Que lindo! E pouco depois ela se apagou.

Algumas capelas no entorno... Mas realmente é a beleza da edificação e seus adornos que prendeu-me a atenção.

O local do Coro com os dois órgãos, que agora já estou acostumada, mas ainda cheio de entalhes em madeira, tanto nos bancos do coro como na escultura central.

A delicadeza das pinturas de motivação católica nas cúpulas da nave principal, do altar. Li que a Mesquita tem uma estrutura toda horizontal, sendo sua única verticalização a parte do altar Cristão, que foi introduzido posteriormente.

A Capela de San Clemente estava cercada por cordões de separação, cuidados por seguranças, e só alguns poucos convidados do casamento que ia se realizar podiam ultrapassar o cordão.

Minha visita foi errática porque aqui, o áudio-guia é obtido à parte, e o valor do ingresso já é de 10 euros sem ele. Então eu fui de um lado para outro, cruzando em diagonal, voltando, olhando por outro ângulo, bem à vontade. Se de um lado eu perco em informação histórica, por outro eu ganho em contemplação.

Num determinado trecho, o teto é coberto com madeira. Eu imagino que, durante alguns séculos, todo ele o foi, para esconder a fé professada anteriormente. Mas este lugar, e tantos outros aqui, no sul na Península Ibérica, representa a possibilidade da convivência harmoniosa entre ideologias diferentes. Se é possível numa construção, como não o seria em seres? Nem vou falar em alma, porque, de certa forma, acredito que este lugar também é dotado de alma, da energia que foi colocada nele ao longo de toda sua história, desde a concepção. Abaixo duas fotos com madeira e com pintura para servir de base para comparação.

Quando eu estava saindo, adivinha quem estava chegando? A noiva. Guapísima!!! 

Meu próximo destino foi o não menos surpreendente Alcázar. E seus jardins. Uma edificação com suas Torres de Homenáge, a dos Leones, algumas salas com mosaicos que não estão em seu local original. E um grande e maravilhoso jardim, com espelhos de água, lagos com carpas pretas, flores e arbustos milimetricamente recortados para manter o formato desejado. (vídeo no Facebook=Meyre Lessa).

O jardim maior tem umas árvores que parecem gengibres gigantes, só que não como raízes. Alguns arbustos, devidamente podados, lembram os cromeleques. Perceba como fiquei encantada com este jardim.

E de lá de cima consigo observar os... jardins. :)

E depois fui comprar o ingresso para a Rota dos Pátios Cordobeses. Mas a bilheteria só fica aberta o mesmo horário de visitação dos Pátios. Reabriria às 17 horas, com visitas até às 19 horas.

Verifiquei meu celular e só tinha carga de 17%. E a fome começou a se manifestar. 14h30. Ali na Rua Basilio tinha um local bem badalado. Cheguei a entrar, mas percebi que tinha fila e as garçonetes nem tiveram tempo de me atender. Desisti rápido. Passei por outro com muito barulho, mas a situação era semelhante.

Voltei para a região da Mesquita e segui a rua que beira o Rio Guadalquivir. Ali tem vários restaurantes e parei no La Romana, que também estava bem movimentado, mas havia mesa vazia para mim, e do lado de dentro, como prefiro, evitando possíveis fumantes e o frio, apesar de estar calor. Uns 12 graus. Tive que arrancar todos os agasalhos. Era o que mais me incomodava.

Pedi de novo o Salmorejo como entrada, e um guisado ibérico, com batatas. Pão e cerveja. E água. Tudo muito bom.

Dali segui para o hotel, para recarregar o celular e dar um tempo até o horário para ver os Pátios.

Aqui em Córdova existe um campeonato anual de Pátios. Eles têm que atender uns pré-requisitos para poderem participar, mantendo as estruturas antigas, inclusive quanto aos vasos, os tipos de planta, o dono tem que morar na casa, enfim...

Mas o que são os pátios e o que faz deles uma atração turística. São locais privados onde as famílias desfrutam de intimidade, sossego, privacidade, em meio ao frescor proporcionado pelas plantas. Os espaços são pequenos. Na região faz muito calor e o clima é muito seco, apesar do rio. As plantas nas paredes propiciam frescor às mesmas, suavizando o calor nos cômodos internos.

A rota custa 5 euros e são 5 os pátios abertos para visitação. Um grupo de 36 pessoas acabara de iniciar pelo pátio 1, assim, comecei pelo 5, que é o mais distante.

O 4 e o cinco são dos mesmos proprietários. Aliás, o dono nos disse, porque tinham outros visitantes ao mesmo tempo em que eu visitava, que o 5 era um curral antigamente. Local onde criavam animais domésticos de pequeno porte, como galinhas, cabras... O local estava abandonado e ele e os familiares resolveram convertê-lo em mais um pátio para a propriedade. Uma cobertura conserva parte dos utensílios utilizados na função anterior.

No pátio 4 foi sua esposa que deu alguma explicação. Neste tinha uma linda gata de 3 cores. A mulher talvez não se sinta tão à vontade com esta invasão de seu espaço.

Estamos no final do outono e os vasos continuam floridos porque até o mês passado estava um calor intenso, e as plantas obedecem esta lógica. ?Segundo o proprietário do Pátio 3, passaram direto do verão para o inverno. Este é muito falante e fala muito rápido, de modo que não consigo acompanhar muito bem. Encontrei outro grupo de pessoas e este proprietário mostra umas fotos de como ficam seus vasos durante a primavera e verão. Disse que tem tanta gente visitando os pátios nesta ocasião que ele tem que contratar alguém para controlar a quantidade de pessoas que entram, já que os espaços são pequenos. Mostrou-nos como faz a rega e que os vasos são enfileirados de forma que a rega do mais alto já molha os abaixo. O cachorro dele ficou prestando a atenção na explicação. Quando eu saia de lá o grupo grande chegou.

O segundo pátio foi o que mais gostei, não só pelo aspecto, mas pelo proprietário. Um senhor mais comedido, mas amante das plantas e de seu espaço. Agora está conduzindo uma primavera para formação de um caramanchão. Explicou que para obter o melhor resultado ele observa as plantas e suas reações. Comentei com ele que minha mãe e minha filha mais velha tem o que chamo de 'dedo verde', pois tudo em que tocam, brota.

O pátio 1 tem ligação com o proprietário do 4 e 5 também, pois ele comentou sobre uns tanques de lavar roupa e umas bacias de latão onde sua mãe lhe dava banho quando era bebê. Disse que, seguro a bacia tinha pelo menos 58 anos, sua idade. Pensando bem...

Quando terminei, fui em direção à Ponte Romana. Será que ainda dá tempo de ver o por do sol? Mas ele se pôs exatamente no horário que eu saia do último pátio, às 18h03.

E vi as portas de Sevilha, e as Portas de Elvira, e passei pelo outro lado do Alcázar dos Reis Cristianos e vi que ali tem um bonito Museu dos Reis Cristãos. E já estava escurecendo.

E a Ponte Romana estava bonita, iluminada, apesar de estar tomada de separadores por causa de uma meia maratona que acontecerá amanhã. E de lá ainda pude ver o reflexo do sol no céu.

E do outro lado da ponte a Torre de la Calahorra. Muito bonita. Parecendo um Castelo. Descendo a escada ao seu lado cheguei ao nível do rio, e dali a visão da ponte é ainda mais bonita.

E ao vê-la, no retorno, com a Catedral-Mesquita também iluminada, lá do outro lado, ao fundo, fiquei feliz que já se fizera noite. Não costumo sair a noite, mas as cidades ficam bonitas assim.

Comprei lá do outro lado dois doces de massa folhada, como maçã e com laranja, um Nestea e voltei para a Pension de los Arcos.

Banho, comer, escrever, e dormir que amanhã tem Medina. E já recebi um e-mail para me antecipar e evitar a interrupção do tráfego por causa da corrida.