CONCELHO DE PORTEL E SUAS NUANCES

27/08/2019

Quero pedir, em primeiro lugar, desculpas pois, permiti-me trocar o nome do relato de ontem, incluindo as oliveiras como atributo desta terra de Moura.

Hoje, logo após um bom café da manhã, fui conhecer o Museu do Azeite. Já estava aberto e duas simpáticas funcionárias me deixaram à vontade para conhecer o antigo Lagar de Varas, fábrica de extração de azeite do século XIX, que funcionou por 120 anos nesta instalação mudando-se em 1940. A princípio eu entrei e achei um pouco sem graça porque nem fotos eu podia tirar. E tinha vários recipientes de tamanhos e nomes variados onde era armazenado o azeite, potes, cântaros, e uma infinidade de outros. Elas se puseram a disposição para tirar dúvidas se houvessem.

Lá no final, onde estava a prensa, tem uma escadinha que leva a uma sala lateral, onde aparecia a moenda de pedra. E vários cartazes com a explicação de como funcionava a fábrica. Desci e fui ler os que estavam próximos à prensa. E começaram a pipocar dúvidas pois ali estavam escritos nomes desconhecidos, e nas peças não constavam os nomes.

Fui até elas e vieram ambas, pensei que uma estava em treinamento, até estranhei duas pessoas num museu tão pequeno que não cobra pelo ingresso. Perguntei e soube por elas que uma estava há pouco mais de um mês, e a outra reiniciara hoje, mas já trabalhou por mais de um ano no Museu em época anterior, então estava ajudando a ampliar o conhecimento da outra, e o meu. Sorte a nossa. Minha porque tive a oportunidade de aprender e da outra moça porque tinha eu para perguntar. kkkk

Expliquei que me encantam os processos fabris, pois já trabalhei com processos de produção.

_ " De azeite?", ela perguntou.

_" Não, em metalurgia, respondi, mas gosto de saber o máximo que posso em toda fabrica que visito."

Ela explicou que a moagem, lá dentro, era conduzida por dois muares. Isso eu li, e ainda lhes vendavam os olhos, e faziam trabalhar até o esgotamento. Essas coisas não mudam. E Lagar é o nome do lugar que faz o azeite. O dicionário diz que é onde se separa a parte líquida da sólida de frutos, então também serve para as uvas.

Este lagar era de Varas por causa do tipo de prensa, um longo tronco grosso, preso num fuso de um lado (como um parafuso), e numa base fixa do outro. No meio tem um calombo que se encosta nas seiras ou capachos (espécie de sexta feita com fibra mole) cheias de olivas maduras, já moídas no processo anterior. Dois homens giram o fuso para que o calombo do tronco comprima as seiras e o suco sai por um rebaixo no piso, feito um leito de rio, e cai direto numa talha subterrânea (como os tanques de combustível sob os postos de gasolina). Junto com a massa de oliva vai água quente, que era recolhida e armazenada nas chuvas. Quando tudo isso vai para a talha, a água russa, mistura da água injetada com a água do próprio fruto, fica por baixo por ser mais densa.  E o óleo escorre por outro duto para outra talha. Aí sim está o azeite de oliva. Que era retirado exclusivamente pelo mestre do Lagar com concha e colocado nos recipientes de cada produtor.  Estas imagen peguei na internet para melhor ilustrar.

Os produtores deixavam suas olivas em tulhas, depósitos semelhantes aos estábulos, e a produção era feita exclusivamente para cada armazém, sem misturar os frutos de origens diferentes, isso porque o azeite era tão valioso como ouro, naqueles tempos, excelente como moeda de troca. Tanto que ela mostrou que a torneira da pipa, onde se armazenam maiores quantidades de azeite, era chaveada. Só o patriarca da família a possuía. Era uma forma de controle de recursos.

Mas várias prensagens são feitas até que dali não saia mais nenhum óleo, e vai se colocando água quente. Por isso a diferença de qualidade, de acidez e de preço entre o óleo virgem da primeira prensagem e os posteriores. Mas nada se perdia no processo. O bagaço, no final das contas, servia para alimentar porcos ou para alimentar o fogareiro que aquecia a água. E a borra de óleo que vai ficando no fundo da talha no processo de decantação era usada para fazer sabão ou engraxar rodas de carroças.  Desculpe-me se me estendi mas é que fiquei apaixonada. 

Ela ainda me contou que, no Jardim das Oliveiras, logo a frente, tem uma oliveira albina. Suas azeitonas maduras são brancas e parecem flocos de neve na árvore. As olivas em novembro, e podem ficar verde escuro, preta, varia conforme a espécie. Agora não vejo a hora de chegar novembro só para ver as azeitonas maduras. 

Contou também que o óleo dessa oliveira albina era apreciado pelos monges e sacerdotes na época em que se usava azeite para iluminação nos candeeiros pois fazia menos fumaça e iluminava melhor. Aqui, que o azeite era farto. No Brasil usavam querosene. Até hoje azeite é caro. 

Já são mais de 11 horas e devo seguir pois hoje vou conhecer a cidade de Portel e outras duas freguesias do Concelho, Alqueva e Amieira.

Primeira parada, barragem de Alqueva. Uma grande obra que mudou para sempre a vida da população deste local, e positivamente pelo que me parece. Além de possuírem um bonito que atrai visitantes de outras regiões de Portugal e de outros países, possuem abundância de um elemento vital , a água, necessária para o desenvolvimento principalmente por tratar-se de uma região predominantemente agrícola. 

Depois fui conhecer a Vila Ribeirinha de Alqueva, freguesia do Concelho de Portel com pouco mais de 300 habitantes e aquele jeito tranquilo de viver. O lugar é tão pequenino que dois bancos e duas árvores já são chamados de Praça. Uma calma, uma paz... Ali pude observar a extensão e a importância das oliveiras na vida das pessoas. Vi também umas parreiras, com uvas quase no ponto de colheita, que acontece agora em setembro. E os vinhos alentejanos são famosos no mundo todo e nessa região começa a rota do vinho.

Na parte baixa tem uma igrejinha, nada a estranhar, e lá no alto uma Ermida de Santo Antonio, de onde se tem uma visão geral do lugar. Perto da igrejinha um caramanchão onde se reúnem os senhores da cidade para atualizar as conversas diárias.

Ali ouvi o sino anunciar às doze horas. E o sino badala e depois toca uma música de sinos. Muito bonito.

Agora me dirijo para outra freguesia, para conhecer a Marina de Amieira, na esperança de fazer um passeio de barco pelo lago. O lugar tem uma estrutura muito bonita, com uma edificação com lanchonete, escritórios, banheiros, bem moderna. Alguns barcos na marina, alguns carros no estacionamento, Umas motos bacanas perto da marina e um barco que acabou de sair para fazer o passeio, o próximo só às 17 horas. Então não era para ser. este é o horário durante a semana. No final de semana eles têm outros horários porque o movimento é muito maior.

Quando dali sai estava sem sinal de internet e não sabia o caminho para Portel. Fui até a última rotatória que usei e parei para tentar de novo os dados. Quando vejo uma escultura de um touro e um monte de homens agarrando-o a minha esquerda. Olho para a direita e vejo a Praça de Touros de Amieira. Não que eu aprecie e queira assistir a um evento, mas por aqui, além das touradas também tem as corridas de touro. Desci e consegui ver como é a arena, vazia. Essa é bem pequena, mas deve agradar a população local.

 A internet voltou a funcionar e peguei a primeira saída da 'rotunda'.  Último destino: Portel, a sede do Concelho.

Mas o Google me mandou virar a esquerda onde nem tinha estrada. Estava próximo e me guiei pelo sistema antigo. Placas. kkkk

De repente tive uma visão do Castelo. E meu último trauma com ruelas e ladeiras me fez parar o carro ali mesmo, em frente a uma bonita praça.

 Mas o sol de quase uma hora é desanimador. Uma porta aberta e barulho de gente me fez pedir licença para tomar uma informação. A mulher me disse que era possível seguir de carro até o Paço do Conselho. Ali tem um estacionamento e estava bem próximo ao Castelo. Coloquei no Google para garantir e lá fui eu, até porque o Paço do Concelho estava entre os lugares a visitar.

E que lugar fofo. Branco com detalhes em azul. Uma estátua de um cavaleiro. Umas árvores. Uma nova vista do Castelo. E uma sombra para o carro. 

A senhora me explicou até que eu tinha que passar por um arco para pegar o caminho do Castelo, mas lá em cima tinha uma plaquinha para ajudar.

Fiquei pensando por que as muralhas dos castelos costumam estar íntegras enquanto em seu interior só restam ruínas. E quando a gente pensa costuma obter respostas, ou perguntando ou raciocinando. E intuí que é porque as paredes das muralhas são muito mais grossas e resistentes, como as paredes externas de nossas casas.

A muralha deste Castelo está quase toda íntegra, faltando um pequeno pedaço para dar a volta completa. Nas ruínas algumas colunas do que foi uma das igrejas. Consta que eram 3, não sei se todas na área interna.

Tenho feito videos destas caminhadas e postado no Facebook pensando nas pessoas com mobilidade reduzida, que até podem ter conhecido o lugar, ou virão a conhecer, mas não podem ter esta experiência de subir degraus e andar por calçadas de pedras mal ajambradas.

O vento lá em cima estava gostoso, mas ainda assim, no sol, o calor é intenso. O entorno é bem arborizado e florido.

Ao lado do arco tem um bonito portão de ferro com os dizeres: "Paço do Conselho" no alto. E uma alameda de pedestres sobe em curva. Portão aberto até cachorro entra. Assim, lá fui eu. Estava no jardim , já lá em cima quando passou uma mulher e perguntei se o espaço era público. Ela assentiu. Fiquei ainda um pouco do lado de fora fazendo outras fotos do jardim. E entrei. 

Um corredor com azulejos ricamente decorados e portas. Entrei na primeira que vi aberta, que dava para um saguão e as janelas de um balcão. Me vi sobre a praça do cavaleiro, e dali então tinha um ângulo diferenciado do local, que já achara bonito.

Quando voltei ao corredor encontrei outra mulher que abordou-me. Falei que tinha achado muito bonito o prédio e ela me pediu que a acompanhasse.

Fui conduzida ao fundo onde tem um pequeno serviço de café e ali estavam várias pessoas, acho que a maioria funcionários do local, pois várias portas demonstravam pertencer aos escritórios. Ela me mostrou uma porta de vidro que dava acesso a uma escada para o teto do edifício. Mas antes insistiu que eu tomasse um café.

Um senhor atrás do balcão preparou e serviu-nos café. Sentamo-nos a uma das mesinhas do local e logo uma outra mulher sentou-se conosco, pedindo licença. Eu retruquei pois afinal quem devia pedir licença era eu, a invasora.

Mas foi assim que conheci a Fátima e a Adelaide. 

Comentei do blog e anotei o endereço, explicando que o nome é em função da minha idade, quase 56. Ao que uma delas comentou:

_ " Somos todas da mesma idade então, ela 57 e eu 58."

Falei da viuvez, dos problemas de saúde e da necessidade de desfrutar depois de passar por tudo isso, lógico que resumidamente.

Elas entenderam pois também estão ou já viveram situações semelhantes nas próprias famílias. E quem nunca???

Tirei uma foto com a Fátima, que foi com quem mais conversei. A Adelaide disse ser avessa à fotos.  Pessoas assim valorizam o lugar. Atraem gente e recursos para a localidade com tanta simpatia.

A Fátima ainda me disse que o Brasil também tem uma cidade com nome de Portel. E descobri que é no Pará. O Presidente da Câmara de Vereadores ou o Prefeito da cidade já lá esteve numa visita extra-oficial.

Subi e vi um sino que de baixo não avistara. E no seu requadro podia enquadrar também o sino da igreja, ao lado do arco de entrada para o Castelo. Encantador.

A pizzaria é próxima a Igreja Matriz de Portel, que estava, evidentemente, fechada. 

As meninas me deram dica para almoçar no 15é, gostei do nome, achei criativo. É uma lanchonete e pizzaria. Pedi uma pizza pequena de frango com natas e ananás. A base era de massa com molho, queijo e orégano. Ela fez na hora e ficou bem gostosa. Tomei 2 campal de pera. Só 200 ml cada. E bebi um montão de água do litro e meio que comprei no hotel antes de sair.

E tinha que voltar e passar no posto de informação turística que só abriria às 15 horas, pois quando falei que relato sensações no blog, elas lembraram do espaço A Bolota, dizendo que eu precisava conhecer. Este não estava no meu roteiro e em nenhuma pesquisa que fiz.

Mas o Centro de Informações ao visitante fica dentro de um espaço de exposições. 

Meu queixo quase caiu quando entrei. Lindíssimo!

E estava ocorrendo a exposição Muito Barulho por Nada, com pinturas de uma artista de Beja, das personagens Shakesperianas. 

A atendente me disse que aquele espaço foi uma Capela de Santo Antonio, mas como faltava padres para os ofícios, um dia a Prefeitura adquiriu o local. Ali já tinha sido Registro Civil, e a própria garota que me falava tinha sido registrada ali. Mas de um tempo para cá resolveram fazer melhor uso e virou um espaço para exposições temporárias, cada 2 meses elas se renovam. 

Mostrou-me sobre a porta um azulejo representando o milagre de Santo Antonio e perguntou-me seu eu o conhecia.

_ " Não."

_ " Contam que Santo Antonio de Pádua para provar a um herege sua fala sobre a eucaristia foi desafiado. Uma mula seria submetida a um regime de 3 dias e no final do período seria trazida ao Santo para que ele apresentasse ao animal a Eucaristia enquanto seu dono lhe ofereceria aveia, seu alimento preferido. Pois o animal atendeu o chamado do então Frei Antonio e causou o impacto necessário no povo, fazendo também se converter o herege."

Muitas coisas aprendo. E muitas coisas respeito. Assim tenho que ser...

Aproveitando do grande conhecimento dela, perguntei sobre os cravos vermelhos que vi na Freguesia de Amieira e que um senhor de lá me disse tratar-se de uma homenagem em alusão ao 25 de abril, dizendo que todas as freguesias de Portel tem os cravos vermelhos. Ela explicou-me que a Revolução de 25 de abril que derrubou o governo do ditador Salazar que já estava no poder desde 1933 aconteceu sem muito conflito, e teve forte atuação das forças armadas. Uma comerciante de Lisboa começou a distribuir cravos vermelhos aos soldados que os colocavam nos canos de seus fuzis, e assim esta revolução é também conhecida com Revolução dos Cravos. 

_ " Arrepiei."

E assim vou conhecendo melhor a história deste país que me está acolhendo.

Recebi alguns folders das atrações locais de sua colega do posto de informações que me passou as instruções para chegar nA Bolota.

A Bolota é um espaço dedicado aos produtos e riquezas da terra. A primeira parte que pode ser fotografada mostra várias utilizações da cortiça, em artesanato, construção civil, decoração, vestuário... O objetivo é ter o melhor aproveitamento das sobras de cortiça após a fabricação das rolhas, que podem ser estampadas num corte direto ou de material prensado.

O grande tubo com rolhas fez-me pensar no falecido tio Neno que tinha uma enorme coleção de rolhas. 

as aplicações em decoração me fizeram lembrar de meu criativo primo Fabio e como ele de repente pode criar usando estas ideias e outros materiais.

A parte seguinte me fez entender o porquê delas terem pensado neste local para eu conhecer. É um espaço interativo de experimentação dos sentidos da audição, visão, paladar e tato, em todos os casos promovendo o conhecimento dos recursos agrícolas e pecuários da região. 

A serra que cerca Portel tem um ecossistema produzido pelo homem e por isso chamado Montado, de florestas sobretudo de azinheiras e sobreiros. O sobreiro é responsável pela produção da cortiça. Fiquei sabendo que demora 25 anos para poder iniciar o descascamento. E depois só pode ser feito de 9 em 9 anos. Mas a árvore tem vida de 150 a 200 anos. E produz umas bolotas que são usadas para alimentação da criação.

A azinheira tem umas bolotas que são consumidas pelo homem, como as castanhas e alimentam o porco preto do alentejo. 

A região ainda tem oliveiras, parreiras, produz mel, lã de ovelha e queijos. E muita riqueza natural, incluindo agora o Grande lago de Alqueva.

Na frente do prédio vi uns sobreiros jovens. Logo que são descascados ficam com a casca vermelha por baixo.

Na estrada para a Praia Fluvial de Amieira vi um descascado, mas que já formava uma nova casca. Parei para minha foto mais próxima.

A Praia fluvial daqui me agradou mais do que a das Minas de São Domingos.  o por do sol aqui deve ser mágico. Passam de 17 horas e o sol está prateando as águas.

Tem bastante gente aproveitando o calor, vários motorhomes estacionados na parte alta. Mas eu estou só de passagem mesmo. Meu dia já foi bem extenuante. E maravilhoso.

Não vejo a hora de um banho e sossego, parcial porque escrever requer um bom tempo, já que exagero nos detalhes.

Encerrei o dia comendo o último terço da pizza e um monte de frutas do bosque.

Amanhã sigo adiante. Beijos. Até mais.