CIDADE DE ELVAS E O CAMINHO

29/06/2020

Eu tinha pensado em passar o sábado em Portel, mas descobri que já conheço o lindo Castelo de lá, olhando o blog para escrever meu livro. Sim, porque existe um livro a caminho. De tanto alguns amigos falarem que eu devia escrever minhas memórias de viagem, eu aproveitei os 75 dias de isolamento social e o coloquei em andamento. Está quase finalizado, e não será uma repetição do blog, garanto. Já estou com quase duzentas páginas escritas. E ele deve ficar com umas 230, incluindo algumas ilustrações e fotos.

E questionei a minha vizinha sobre o que eu poderia fazer, por perto, de interesse. Mas os lugares sugeridos por ela eu já tinha visitado. E fiquei procurando até que encontrei Elvas. Mas não era tão perto assim. Quase duas horas de viagem... Seria melhor passar a noite por lá. E como a Catarina não poderia me acompanhar, já que está finalizando seu curso, e encerrando os trabalhos em grupo para entrega, reservei na sexta feira um quarto para a noite de domingo para segunda no Hostel Luso Espanhola.

E no sábado planejei a viagem, olhando os atrativos da cidade e do caminho.

Como saí de casa já eram 11 horas, decidi ir direto para Elvas, visitar as fortalezas, o aqueduto e depois a cidade amuralhada. Eu já tinha passado bem pertinho, quando visitei o sul da Espanha, em novembro. Entrei por Badajoz, que é sua vizinha a Oeste. Mas fui direto para Évora simplesmente por desconhecer o enorme potencial turístico da cidade.

No caminho, fiquei na torcida para encontrar um campo de girassóis, antes que eles sequem demais e percam a beleza. O sol aqui, no verão, não dá tréguas. E todas as lindas flores que vi na primavera, já secaram. Peguei a IP (Itinerário Principal), que passa aqui ao lado de casa, em direção a Évora, e bem depois de Portel me desviei para acessar a M 534 (Municipal). Quando entrei nesta rodovia e vi que teria que trafegar por 24 km nela, me assustei. O estado de conservação dos cinco primeiros quilômetros é deplorável. E tive que transitar à 40 km por hora ou menos, pois existem, enormes crateras no asfalto. Uma delas atravessa toda a largura da rodovia, e temos que desviar por um acostamento improvisado. Mas logo que terminou esta tortura, atravessei uma pequena ponte e vi a Albufeira da Barragem de Monte Novo, e um gado bovino descansando à sua margem.

Mais uns 4 km e vi um imenso campo de girassóis. As estradas não têm acostamento e fiquei procurando um canto para estacionar. Até que vi a entrada de uma propriedade. E parei só um pouquinho, na esperança de nenhum carro chegar ou sair naquele momento. E bem em frente estava a entrada para o campo de girassóis, de modo que pude me aproximar. Só não consegui fazer uma foto no meio deles porque eu não tenho quem o faça para mim. Mas fiquei tão feliz. Era um sonho. E antes de eu sair, um carro apareceu na estradinha da propriedade, mas não o atrapalhei.

E depois não parei mais até chegar à Fortaleza de Santa Luzia, em Elvas. Ela esta localizada em um dos montes, ao redor da cidade localizada no vale. E de longe ela já chama a atenção.

Deixei o carro sozinho no estacionamento e me dirigi à recepção. Máscara no rosto e álcool em gel fornecido por eles. A atração é gratuita. Mas ele me explicou as opções de percurso. Eu já tinha dado uma volta por fora, observando o enorme fosso seco. E as pontas que faziam me parecer que a fortaleza fosse na forma de estrela. Depois me dirigi para a ponte levadiça. E a partir da recepção, percorri os caminhos indicados por ele. Primeiro a passagem subterrânea que levava até a cidade murada, depois o exterior, por dentro das muralhas. E atravessei outra pontinha para acessar a casa do Governador, ao centro. E fiz um vídeo de oito minutos falando do lugar (Facebook Meyre Lessa, e modo público).

Visitei ainda o Museu, na parte térrea, bem gostoso porque estava com o ar condicionado ligado. E o que mais gostei, além do ar, foram as armas de combate homem a homem usadas nos tempos medievais. Eu estou assistindo a série Outlander na Netflix, e ali encontrei as armas que aqueles guerreiros usavam. E podem não serem tão eficazes quanto um tiro de revólver, mas fazem um estrago danado.

Passei pelo Aqueduto quando me dirigia para a Forte de Nossa Senhora da Graça. Esse num local ainda mais alto. E muito maior. Dali também avistei a cidade, que usando o mesmo padrão de construção das fortalezas, com muralhas abaluartadas, têm os muros largos, com inclinação, e pontas como uma estrela. Este tipo de construção representava um avanço na segurança, visto que os formatos anteriores já não suportavam as novas tecnologias de artilharia.

Ao me aproximar das árvores para avistar a cidade, o canto estridente das cigarras me fez entender que não era bem vinda. E não permaneci por muito tempo, já que uma árdua subida ao sol de 35° me aguardava.

Um guarda na porta, mascarado como eu, me perguntou de que cidade eu vinha e já apontou um medidor de temperatura para minha cabeça. A entrada desta fortificação também é gratuita. E nela encontrei outros poucos visitantes.

Ela está bem restaurada, é muito maior que a primeira. E em seus cantos estrelas existem aparentes moradias. Entrei pela ponte levadiça e dei de cara com a porta da Capela, depois de passar pelo largo túnel que é o portão principal. Mas não entrei pela capela, segui por fora e fui alçando o topo pelas escadas e rampas externas. Uma vez lá em cima, cheguei à casa do Governador, e por dentro dela subi uma escada com degraus de madeira e corrimão dos dois lados. Ainda bem porque os degraus deviam ter mais de trinta centímetros de altura. Em termos de comparação, um degrau confortável tem, em média, 17 centímetros. E a vista é semelhante ao que já tinha visto, porém sem nada como obstáculo. E a sensação de chegar ao topo é sempre de satisfação. A casa do governador aqui também é circular, e as portas e janelas são a abobadadas. Mas em volta do miolo surgem corredores em forma de anel, e escadas que partem destes e dão acesso às partes mais baixas, até que, finalmente, cheguei à capela, e de volta ao exterior, me sentindo como num labirinto. A Princesa sequestrada, tentando escapar. Kkkk

Perto do Aqueduto parecia haver um estacionamento. Eu via um carro estacionado lá adiante. Mas como entro nele? Assim, não entrei. Peguei uma rua logo após passar sob os arcos e virar a direita, e de novo a direita, vindo do Forte da Graça, e vi uma construção semelhante a uma igreja. E ali sim havia um estacionamento com vagas bem demarcadas. E dali podia ver uma boa extensão do aqueduto. Uma obra magnífica. Eu ainda não entendi porque eles eram feitos assim, elevados sobre arcos.

E o prédio que parecia uma igreja deve ter também essa finalidade já que ali atrás eu vi um cemitério. Era o Arquivo Municipal e constatei depois ser também o Convento de São Francisco.

E já era hora de conhecer o centro da cidade e pensar em almoçar. Tentei chegar de carro até à Praça da República. Ali tem um estacionamento pago. Mas vi muitas vagas na rua, já que a cidade não está cheia. E só passei por dentro do estacionamento, descendo a rua São Francisco e dando de cara com a cara da fonte. E um muro alto fazia uma boa sombra. Mas uma faixa amarela junto à guia indicava que o estacionamento não é permitido. Mas já haviam outros carros estacionados. Tirei foto da fonte e da Porta Falsa da Muralha. Do Chafariz na Praça. Da porta de aço trabalhada, encimada por uma espécie de anjo. 

E vi um senhor na praça, fumando. Resolvi perguntar:

- Onde tem faixa amarela não é permitido estacionar?

- Onde está seu carro?

- É aquele primeiro ali.

- Normalmente não é permitido, mas como a cidade está tranquila, a polícia não tem multado.

- É que já dei algumas voltas, e essa sombra, neste calor, me atraiu.

- Pode ficar sossegada.

Voltei até o carro para pegar a máscara e minha pochete e saí tentando achar a mesmíssima Praça da República. Mas tem momentos que eu e o Google Maps não nos entendemos, e assim, passei pelas portas verdadeiras para fora da muralha, mas foi interessante observar outras de suas quinas.

E voltei passando pela outra face da Praça 25 de Abril, onde está o chafariz. Vi a Igreja Nossa Senhora das Dores no largo do mesmo nome e este foi meu referencial para o retorno.

Caminhando, passei por mais uma porta em arco, e cheguei até meu destino com muita sede e fome. Encontrei logo de cara a Taberna Portal do Tempo e perguntei ao garçom se ainda servia almoço. Já passave de 15 horas. E como ele confirmou, perguntei sobre o bacalhau dourado, que já lera que é um dos pratos locais.

- É feito com ovos e batata palha.

- Mas então é como o bacalhau à Brás?

- Semelhante.

- Seco ou úmido?

- Mais ou menos.

- Então eu quero um bacalhau dourado e uma água fresca.

Enquanto esperava a comida, bebi metade da água e vi minhas mensagens no celular.

O prato era muito bonito, e vem bem amarelinho. Daí o nome dourado. E pareceu-me que vão mais ovos e menos batatas do que na outra versão. E no entorno, fatias de melão deram o toque fresco que eu estava necessitando. As mesas eram do lado externo e antes de eu acabar, uma mulher na mesa em frente começou a fumar. Nem pude reclamar, aqui é permitido. Este é um dos pontos em que estão atrasados com relação a nós.

Quando já estava comendo é que fui me lembrar de perguntar se eles aceitavam cartão.

- Não, mas qualquer coisa tem um ATM bem ali, em frente.

A música estava boa. Outra raridade em Portugal. Música ambiente espanhola, bem animada. Certo porque, sendo uma cidade fronteiriça, tem muita influência daquele país.

E a conta ficou por uma bagatela de 9,70 euros. Com o euro na cotação de 6,20 reais, que vi hoje, no turismo, fica um pouco caro. Mas considerando os preços de refeições prontas por aqui, é um excelente preço.

Não precisei ir até o ATM para pagar esta conta, mas fui lá assim mesmo para pegar um pouco de dinheiro. E aproveitei para tirar foto da Igreja de Nossa Senhora de Assunção com o nome de Elvas na frente.

Fui subindo pela rua ao lado da Igreja, e sua porta lateral estava aberta, mas não entrei. Segui até o topo da rua e cheguei ao Pelourinho. Do lado direito avistei o Arco de Santa Clara. E bem em frente a ele está a belíssima Capela dos Aflitos. Um senhor que ali estava me deu orientações, dizendo que ali não se celebram nem missas solenes. E foi ele que me disse o nome do local, todo azulejado até a abóbada.

Eu via a placa indicando o Castelo mas já não queria mais subir. No entanto eu vi uma luminária, de longe, que parecia um crucifixo, e uma linda vista e resolvi me aproximar. Já era uma calçada plana e, no fim dela a surpresa: o Castelo de Elvas. Nada parecido com as majestosas fortalezas, mas causa boa impressão ao ser visto de longe. E por dentro é bem simples, e ainda guarda algumas instalações aproveitadas para fins que eu desconheço, pois já estava fatigada para ficar investigando.

Na descida de volta ao carro, passei pelo Mercado Municipal das Barcas, local que não inclui em meu roteiro pois o sabia fechado no domingo e segunda feira. E logo abaixo dele uma Universidade, em um belo prédio.

E fui observando a necessidade das pessoas se rodearem de verde, já que fomos tirados da natureza e inseridos em cidades de pedra ao longo dos séculos. E nas pequenas casas antigas, sem quintal, seus habitantes encontram um meio de extravasar essa necessidade em vasos colocados nos parapeitos, nas ruas junto à porta de entrada, desde que seja só para pedestres ou não atrapalhem o trânsito.

E quando cheguei ao carro, só havia o meu por ali. E era hora de achar meu hostel. O Luso Espanhola Hostel Elvas, que fica no caminho para o Forte da Graça. Estacionei em frente e entrei para sair só no dia seguinte. O proprietário me vendeu uma garrafa grande de água gelada, me entregou um kit contendo uma máscara, duas luvas e dois sachês de álcool em gel (deve ser exigência para este tipo de hospedagem, para funcionar nesta época pós pandemia). Eu aluguei um quarto individual com banheiro, mas existem quartos coletivos. No entanto, me pareceu bem vazio.

Eu estava com um pouco de dor de cabeça por causa do calor e do sol. Também tinha sono. Tomei uma bela ducha numa banheira quadradinha, de um tipo que ainda não tinha visto, pois ela agrega local para sentar e também faz às vezes de bidê. E desta forma, eu mal tinha espaço para meus pés dentro dela, evitando as enormes torneira de água quente e fria que são um padrão por aqui. Coloquei a ducha no seu apoio na parede e me duchei. Quando abri a cortina, o banheiro estava alagado. O ideal é deixar a cortina dentro da banheira para tomar banho de ducha. Mas por causa dos assentos, não era possível.

Por sorte o tempo daqui é seco e eu liguei o ar-condicionado por causa do calor, e isso fez o chão secar rapidamente.

Assisti um pouco a TV onde ouvi no noticiário uma reportagem sobre um movimento denominado STOP BOLSONARO, que ocorreu em Lisboa, Porto e Coimbra. E vi uma espécie de novela chamada Aruanas, se não me engano, já que o canal passa as novelas da rede Globo. E foi bom ouvir um pouco de português brasileiro. Depois dormi um sono atormentado pelo cansaço. E tive sonhos estranhos. Amanhã é dia de volta, e de muitos outros Castelos pelo caminho.