Chegando a MARSELHA, cercanias da Estação Saint Charles e Ilhas Frioul

22/01/2020

Todo mundo diz e eu confirmo, entre lugares distantes se perde o dia em trânsito, principalmente quando você viaja no sentido oposto ao do Globo Terrestre. Perdi uma hora de fuso. Ainda mais que meu voo era no começo da tarde.

Mas ficou bom assim, levantei 9h20 e me arrumei com calma. Às 11 horas, depois de uma boa conversa com a recepcionista, deixei o hotel.

Eu estava preocupada em arrumar as malas no carro e voltar com as chaves para receber de volta o caução de 10 euros. Mas aí ela me perguntou:

_ " Você está com a chave aí? Ou está no carro?"

_ " Está aqui."

_ " Então podemos fazer o acerto agora."

_ " Você consegue abrir o portão daqui?"

_ " Sim."

_ " Ah! Ótimo. Eu sou brasileira, pior, paulista, ainda desconfiada. Não deixei a chave no carro com receio de que alguém pudesse querer roubar o carro e já teria a chave fácil para abrir o portão."

Aí fui explicar para ela as nossas neuras e precauções.

E ela me disse algo que, sem querer, confirmou uma coisa que tenho dito, a respeito de uma ocorrência no Brasil que está tendo muita repercussão, por causa de algumas declarações talvez mal interpretadas.

_ " Eu não moro bem aqui, moro num local menos turístico e muito mais tranquilo. Também deixo a porta do carro aberta quando vou voltar logo (isso porque mencionei que nas cidades do interior, mesmo de São Paulo, isso ocorre), mas evito sair a noite para ir a praia, por exemplo, por precaução."

Entendi. Mesmo aqui, num lugar tão seguro, as pessoas são precavidas, previnem para evitar consequências indesejadas. É a tal liberdade com responsabilidade.

Mas deixei o convite para ela aparecer no Brasil e fui embora, antes que o cedo ficasse tarde. Tinha que parar para abastecer e queria chegar ao aeroporto às 11h45.

No posto tive que pedir a ajuda do balconista para descobrir como abria a tampa do acesso ao tanque de combustível. E depois coloquei 38 euros de gasolina para completar o tanque. Achei que gastei muito, mas foi pouco mais de meio tanque.

Deixei o carro na concessionária e fui com a Van para o aeroporto. Era outro motorista, mais jovem, e ficamos conversando sobre as dificuldades de idioma, já que eu lhe disse que estaria vindo para Marselha. Ele disse que os franceses e os espanhóis são os mais resistentes em falar outro idioma que não seja o deles. Engraçado. Já percebi que isso se deve mesmo as rixas entre países vizinhos, como acontece no mundo todo. Ou entre estados vizinhos, como no Brasil. Os espanhóis dizem que não falam o português porque são entendidos e entendem o que se fala em português com eles.

E aqui, por enquanto, inglês e francês. Mas me virei.

O Hotel Monte Cristo está bem localizado, a um quilômetro da Estação de trem e ônibus e a 600 metros do Velho Porto. O quarto tem um bom espaço e tem até uma pequena pia, frigobar e micro-ondas, além da garrafa de ferver água. Mas o banheiro é bem como me lembro da França. É um pequeno espaço sem porta. O box tem 1 m2, com cortinas. O que me fez recordar-me o porquê me queimei com a água quente, em 2010, em Paris. O box é tão pequeno que, fatalmente eu encosto na torneira, e ela se mexe alterando a temperatura da água, o que ocorreu hoje de novo. Mas agora já estou mais esperta. E não gritei. Resolvi.

Cheguei ao hotel caminhando, já no escuro. O sol nascerá às 8h05 e se põe às 17h30. Estava só com o café da manhã que eu mesma preparei, no Hotel. E assim que coloquei minhas coisas no quarto andar, com escada em caracol, mas que o proprietário me ajudou a trazer, fui ao Velho Porto procurar onde comer.

Estava passando perto da entrada do metrô quando vi dois rapazes negros conversando e caminhando. Um deles entrou na estação e o outro falou comigo. E continuamos conversando. Eu sei entender qual era o objetivo dele. Achei que ele queria se oferecer como guia turístico. Falei que ia jantar e ele foi me acompanhando. E entrou comigo no restaurante.

Pedi um nhoque com carne. E tomei uma taça de vinho rosé, seco. Ele já havia jantado e só tomou um pouco de água. E se ofereceu para pagar a conta, o que é claro que não aceitei.

Paramos para ver uma banda que se apresentava na rua, depois comprei uma garrafinha de água por 2,40 euros. Já não havia mercados abertos e fui obrigada a pagar o preço de restaurante.

E o Peter, que na verdade chama Dumbia,me acompanhou até a porta do hotel. Ele tem 28 anos, é da Costa do Marfim e está em Marselha há 5 anos. Antes esteve em Paris, mas não gostou. Trocamos fones e o adicionei no Facebook. Ele se despediu com dois beijinhos no rosto, padrão por aqui e foi embora. E depois recebi uma mensagem muito gostosa, onde ele disse que gostou de me conhecer porque sou alegre.

E assim terminou este dia de trânsito.

Depois de uma boa noite de sono, sabendo que o dia estará nublado, tenho dúvidas se compensa ir até as ilhas Frioul.

Mas primeiro vou tomar café da manhã. Parei num local a caminho do Velho Porto pois vi dois homens tomando café numa mesa externa. E com as coisas prontas, é fácil você apontar o que quer comer. Pedi um pão como de cachorro-quente recheado com presunto serrano. Um doce de massa folhada com amêndoas e chá preto.

Depois fui direto para o escritório de turismo, pois vi que era próximo ao local em que vi a banda tocando ontem à noite. Lá havia uma placa na fila, com as nadeiras dos idiomas falados. Achei uma moça que falava espanhol e ela me ajudou muito. Mostrou-me a região do centro velho, os principais pontos turísticos e onde comprar bilhete para o passeio de barco até as ilhas.

A caminho da bilheteria vi um Centro Comercial que agrega a s Galerias Lafayete, que sei serem famosas na França. Mas acho que não são meu gênero de local. De qualquer forma, na quinta e na sexta existe a previsão de chuvas. Então pode ser um bom lugar para passar o tempo.

Cheguei à bilheteria e tomei informação sobre o horário e preço do passeio. Já sabia que não estavam indo ao Castelo D'If por causa do vento. Sairia às 13h45 por 11,40 euros.

Passei por uma pequena igreja junto ao Porto, a Saint Ferreol - Les Augustins.

E meu olho está sempre passeando pelas coisas. Achei sensacional estes carros refletidos no espelho que é uma cobertura, em frente ao porto e ao lado do túnel para a Estação de Metrô Vieux Port.

Então dava tempo de eu passear pela cidade velha, coloquei uns 4 destinos que se aproximavam e comecei a caminhada. Mas comecei a ver uns lugares tão bacanas que me perdi pelas escadinhas, ruelas e becos, cheios de vida e significados. E ia refazendo o traçado até que cheguei ao primeiro destino.

A Catedral de Marselha, na Praça Maior. Um lugar muito bonito. E a igreja também. Grande, bem cuidada. Eu, de olho no órgão, reparei que tinha um pequeno, para uso constante, e lá no alto tinha um normal, e uma parte com os tubos na horizontal, virados para fora.

Também fiquei encantada com o mosaico do piso, lindíssimo!

E havia um canto, não sei se de algum ensaio ou música ambiente, mas tornou a visita mais prazerosa (vejam o vídeo no Facebook = Meyre Lessa).

Quando olhei no relógio, faltavam 15 para uma. E eu não tinha bem certeza do horário do barco, assim que 'coloquei sebo nas canelas' e fui adiante. Passei por uma edificação instigante, que vontade de entrar. 

Mas ainda tenho dois dias. E já que resolvi ir às ilhas, tem que ser hoje que não está chovendo. Está até um bom tempo. Cheguei de volta à bilheteria às 12h58. Comprei o bilhete com uma francesa que morou em Portugal, com um brasileiro, o que me facilitou sobremaneira a comunicação, pois eu queria saber se corria o risco de sentir enjoo no caminho.

_ " Está ventando muito, mas não sei dizer."

Mas como o hotel é tão perto, voltei para tomar o remédio. 4 andares acima e abaixo. E fui pensando em comprar algo para comer, já que queria voltar voltar no barco das 15h50, com travessia de 20 minutos, só ia chegar depois de 16 horas.

Mas vi o prédio da Ópera. E me aproximei para tirar foto.

E na esquina tinha um local para comer, mas quando tentava abrir a porta um moço falou comigo, como me advertindo quanto ao local ou a entrada. Como não entendi ele tentou em inglês, que também não falava bem. E por último perguntou meu idioma.

_ " Portuguese", disse eu.

E ele começou a falar em português.

Quando perguntei de onde ele era...

_ " Sou francês, mas meus pais são de Cabo Verde. Vieram para cá ganhar a vida..."

O Vitor estava acompanhado de um outro moço, bem branco, que aparentemente também falava português. Trocamos telefone e ele disse que queria me ver de novo. Eu sugeri o jantar.

E me fui, sem saber o porquê da advertência, mas acho que tínhamos mesmo é que conversar.

O barco, bem grande, viajou com 10 passageiros e 4 tripulantes. Fomos quase todos na parte de cima.

E o Mediterrâneo me pareceu bem calmo. Aliás, o Vitor me disse que também é bem quente no verão. Ele conheceu o Algarve e achou a água de lá fria. Concordei. E me deu vontade de provar as águas quentes do Mediterrâneo, no verão.

Logo que desci nas Ilhas Frioul, depois de ter passado ao lado do Chateaux D'If, onde foram rodadas cenas do Conde de Monte Cristo, e que, aliás, foi montado um local como sendo a cela dele, que serve de atração turística, vi um mapa das ilhas e decidi ir para a Ilha da esquerda, a Île de Pomègues, pois me pareceu mais natural.

Pensando aqui, numa comparação desmedida, olhar o continente a partir da ilha é admirável. Imagine ver a Terra a partir de um satélite?

Dos 10 passageiros, só quatro, contando comigo, escolhemos esta ilha. A outra, em sua face para o continente, abriga o Porto e muitos restaurantes, todos fechados. E abriga também as residências e até um hospital. Mas são 4 as ilhas do arquipélago. A D'If, Ratonneau, Tiboulen e Pomègues.

As ilhas são branquinhas, com alguns tapetes coloridos em verde ou preto. É pedra calcária. Pareceu-me mármore.

As placas orientavam-nos a seguir o caminho demarcado, caso contrário, responsabilizar-se pelos riscos agregados. E lá fui eu pela estradinha. E fiquei muito surpresa ao ver os 'calanques'.

Uma calanque é um acidente geográfico encontrado no Mar Mediterrâneo, que se apresenta sob a forma de uma angra, enseada ou baía com lados escarpados, composta por estratos de calcário, dolomita ou outros minerais carbonatos. ( fonte Wikipédia)

E dei de cara com aquela água verdinha, de encontro às pedras brancas, e mais além ficando azul profundo, bem 'pro' fundo.

Eu tinha como convicção de que só com o sol as águas ficam coloridas, e eu pensei que ai ver a água cinza com o dia nublado. A natureza sempre me ensinando. E fazendo-me humildemente reconhecer que nada sei.

Um dos passageiros foi andando mais ou menos no mesmo ritmo que eu, até que em uma passagem perguntei de onde ele era. De Paris, ele disse.

Trocamos algumas palavras e eu segui sem nem me despedir.

Depois fui em direção ao Porto e ele também, mas me demorei e ele sumiu.

Quando eu voltava, entrei para uma bifurcação pensando que talvez me levasse até um dos forte, que ficam na parte alta nas extremidades da Ilha.

E vi uma rocha partida, e pensei no moço, que ele não teria vindo para o mesmo lado. Tinha uma trilha para a rocha. Ela é chamativa e, imagino que se não fizessem a trilha, muitos se arriscariam assim mesmo.

E aqui tem quase tantas gaivotas como nas Ilhas Berlengas. E ouço os gritos delas o tempo todo, conversando entre si. Algumas parecem estar protegendo os ninhos.

Logo depois passou um homem por mim, e andava muito rápido. Ou eu que estava muito lenta.

E em seguida encontrei o moço de novo, ao telefone, e depois ele seguiu adiante e acabou me encontrando. E descobrimos que ele fala um pouco de espanhol e entende-o bem. Ele diz que o espanhol é parecido com o francês. Mas se eu acho que o português parece com o espanhol, porque o francês e o português parecem tão diferentes?

Acontece que, dali em diante seguimos até o extremo da ilha juntos. E ambos admirados com as maravilhas que avistávamos. Um local parecia um jardim planejado. Pedras esculpidas, pequenos gramados e flores, água. E tantos outros encantadores...

E fui contando o que tenho feito, ele admirado de eu já ser aposentada. Mas aí perguntei sobre a jornada de trabalho aqui na França. A jornada para trabalhadores braçais, por assim dizer, é de 35 horas semanais. Imaginei quando o Peter, que conheci ontem, me disse que seu horário de trabalho era das 17h às 23 horas.

Eu disse a ele que no Brasil é de 44 horas semanais. Eles aqui precisam trabalhar 42 anos para se aposentar, nós 30 ou 35, por enquanto. São 68640 horas de trabalho com recolhimento de INSS para as mulheres, e 80080 para os homens. Aqui são 76440 horas. Não podem reclamar. Ele disse que nos cargos de maior responsabilidade trabalha de 8 a 10 horas por dia. Eu sei bem o que ele quer dizer, e graças às minhas 10 a 12 horas diárias é que agora estou passeando aqui, pois a empresa que trabalhei teve que pagar minhas horas extras na justiça, para quem se pergunta como é que estou fazendo.

O Fabian, que disse que seu nome tem origem italiana e que era de agricultores de favas, e até quis saber se existe o seu nome no Brasil.

_ " Sim, Fabiano ou Fabiana, o mais comum é na versão feminina.

E ele é designer de joias. Mas está de férias em Marselha, e pensando em mudar-se para o sul da França, mais particularmente para Nice. Ele precisa estar perto dos centros de produção porque, depois de criar a peça, precisa acompanhar a execução do modelo antes que seja colocado na linha de montagem. Muito chique.

Demorei 1h30 para fazer o percurso de ida. Quando vi o que me aguardava, resolvi voltar no barco das 17h15 e ainda achei pouco tempo, pois não pude ver nada da outra ilha. Mas, mesmo conversando, como não paramos para fotos no retorno, fizemos em uma hora.

E eu subi para olhar uma construção que me intrigou quando cheguei, e ele foi adiante.

Depois fui ao banheiro, junto ao Porto. Sentei-me e comi as duas bolachas que tinha carregado comigo.

Pouco depois o encontrei no cais. E ele aproveitou o tempo livre para ver uma pequena parte daquela ilha.

Não viajamos juntos no barco, mas ele me esperou na descida e me acompanhou até ao mercado, esperou-me comprar a água, o suco, o chocolate e o queijo, enquanto olhava as prateleiras. E depois me acompanhou quase até a porta do hotel. Pedi para tirar uma foto com ele. E ele se foi.

No hotel coloquei o celular para carregar e aguardei até às 19 horas para ver se o Vitor ia me mandar mensagem. E sai para jantar.

Entrei num lugar porque gostei dos doces árabes que vi na vitrine. E pedi um couscous marroquino com frango. E aceitei a proposta deles de, por 9,80 acrescentar uma chá de hortelã e uma patesserie. Nem imaginava o que seria a tal patesserie, mas o chá de hortelã viria bem.

Pois logo o Mohamed me trouxe dois pratos, um com o couscous e um pedaço enorme de coxa e sobrecoxa de frango assadas. O outro tinha como que uma espécie de sopa, com legumes, principalmente cenouras cozidas (que não gosto muito, prefiro-as cruas).

E tinha um cliente que conversava com o Mohamed, e já tinha me dado atenção. Era o Yassine. E perguntei a ele se aquela sopa era para colocar sobre o couscous. E como ele assentiu, foi o que fiz. E estava muito bom mesmo. Antes de colocar, provei para ver se não era apimentado o molho. E ainda bem que não era.

E fiquei conversando com o Yassine e o Mohamed, que estavam no balcão, próximos a mesa que eu sentara, e como o Yassine é da Argélia e fala árabe, outro idioma da Argélia, italiano, francês e inglês, não foi difícil para ele entender o meu espanhol.

E conversamos bastante, como vemos as pessoas não por suas origens, porque ele disse que, na França, de uns tempos atrás, quem vinha da América era super bem tratado (com América ele quer dizer E.U.A), mas os demais, como os argelinos, eram menosprezados.

_ " O mundo o trata pelo que você tem e não pelo que você é", disse eu.

Assim que ele falou que admira as pessoas pelo que são. No que eu concordo.

O Fabian comentou comigo, quando constatei que existem muitos africanos na França, que eles estão mais ao sul do país, e que os franceses têm restrições. O que me fez entender também o porquê dos rapazes ( Peter e Vitor) terem se admirado e gostado da minha abertura e conversa. Não deve ser normal serem tratados assim pelos 'brancos' em geral.

Papo vai, papo vem, comentei como era o couscous que eu conheço no Brasil. O Yassine disse-me que o nome certo para o que conheço é Boulgour. E que eles comem o grão do couscous também com coalhada seca, que eles chamam de melk ou algo com o som parecido.

E também descobri que patesserie é justamente aquela gama de doces que me atraiu. Assim, escolhi 3 pequenos e 'cai de boca'.

E enquanto eu comia os rapazes me olharam e o Yassine deu um sinal com a mão que eu entendi como uma pergunta, se eu já havia acabado? Eu confirmei e pedi a conta. Daí que entendi que ele pagara minha conta. E já estava recebendo o troco. Eu ainda insisti para que não mas ele me respondeu:

_ " I like."

E depois me despedi do Mohamed, e o Yassimine foi fumar, do lado de fora e me aconselhou a não seguir até o final daquela rua, que seria meu caminho. Ele disse que o último quarteirão era perigoso. E segui seu conselho.

E aqui, escrevendo o relato de hoje, troquei mensagens com o Peter e com o Vitor.

O Peter vai me acompanhar ao MUCEN amanhã.

E talvez jante com o Vitor, e marcamos de dançar na quinta feira.

Eu praticamente não fiquei sozinha ainda em Marselha. E os rapazes aqui são diferentes. Ou sou eu que estou mais acessível?

Bom, vou dormir porque amanhã tenho compromisso às 10 horas. hahaha