CALDAS DA RAINHA e PASSADIÇO DA FOZ DO ARELHO

06/08/2019

Acreditem quando lhes digo: " O dia aqui é longo, mas não de todo 'aproveitável'. Com isso quero dizer, bom para passear, mas aproveito-o todo. É meu tempo. A única coisa que tenho de verdadeiramente minha, o tempo. Então, aqui, não adianta levantar muito cedo porque de dia está sempre nublado e frio. Ótimo para dormir. Até que levantei cedo para o dia de partida. Às 9 horas me coloquei de pé, num instante me arrumei e saí do hostel umas 9h40. 

Foz do Arelho é logo ali. O Google me levou por um pedaço de auto estrada, mas sem pedágio pois foi um trecho muito curto.  Já na vicinal, uma rotatória indicava Caldas da Rainha para a direita e Foz do Arelho para a esquerda. Vim direto para Foz, apesar de saber que o check-in por aqui inicia sempre após as 14 horas, no Sunshine às 15 horas. Mas já que estou de carro mesmo... e não sabia o que fazer neste dia.

Localizei o Hostel, tomei informação de onde tomar café da manhã e fui a Padaria Pastelaria Velha, na rua principal do Centro da cidade. Apesar de Foz do Arelho não ser uma cidade. É uma freguesia de Caldas da Rainha. Acho que como um subdistrito. Monte Januário, onde moro, fica na União das Freguesias pertencente à cidade de Beja.

Comi um pão disforme, eles vendem por unidade mas tem tamanhos, formas e pesos diferentes, com manteiga, aquecido na chapa, e um café com leite. Peguei ainda uma água para viagem e resolvi ir para Caldas da Rainha, pensando: "minha roupa de banho está na mala, necessito um lugar para me trocar... então , se der praia, será amanhã.

Refiz parte do caminho da vinda, depois da rotatória encontrei um posto de combustível para abastecer pois o tanque já estava pela metade. Lá na bomba tinha as instruções para o auto serviço, mas falava em informar o valor que você deseja abastecer. Não sei... Quero completar o tanque. Nem sei quantos litros comporta para fazer um cálculo mental. Dizia também para entrar e informar o número da bomba ao atendente para efetuar o pagamento. Fui lá dentro, esperei na fila e pedi ao atendente se alguém podia me ajudar com meu primeiro abastecimento sozinha. Ele mesmo me acompanhou. Quando lhe disse que queria completar, ele só tirou a mangueira da gasolina 95 octanas e colocou no bocal do tanque. Mostrou que em algumas bombas existe um botão para apertar e não tem que ficar segurando o gatilho. quando enche o tanque, ele destrava automaticamente. Ainda assim, após o destrave, ele tentou por um pouco mais e vazou. Tive que usar minha água potável para lavar depois. Gastei 28,72 euros, algo como 127 reais. O carro teve um rendimento de 17,5 km/litro. Rodei 322 km com meio tanque. A gasolina tem um preço de 6,90 reais o litro, considerando o câmbio de hoje. Fica equivalente o preço se um carro brasileiro fizer 11 km/litro. Então, acho que está proporcional. Na melhor condição, meu carro fará 22 km com um litro, o que equivale a um carro no Brasil fazer 13,80 km/litro. O combustível de melhor preço e performance por aqui é o gasóleo. mas o caro também é mais caro, e tem menos potência. O que deve fazer diferença num carro 1.0. Isso tudo foi para matar a curiosidade de alguns...

Chegando a Caldas da Rainha, me deparo com mais um problema que sem carro não tinha enfrentado: estacionamento. Vejo uma vaga junto a um parque e paro. Mas na vaga ao lado vejo um cadeirinha de roda sob a placa. Me pergunto se serão todas estas 3 vagas??? Olho a placa do lugar onde parei e diz 2 vagas para o Hotel. Hummm. Não gostei disso. Um carrão para sobre as faixas amarelas num espaço vago que não era vaga. Peço esclarecimento ao motorista e ele me explica. Diz que se for para eu ficar pouco tempo, não tem problema, mas caso contrário, corro o risco de ser multada. Obrigada. Vou procurar outra vaga.

Dou uma grande volta e chego ao Mercado de Frutas, meu primeiro destino, já que se desfaz às 13 horas. Outra vaga ali fácil. Estaciono e vou ler a placa. Permitido para carga e descarga. Pergunto a uma comerciante que confirma a informação. Vou até um saque eletrônico, aproveitando que parei mesmo, e seguindo as orientações dela, procuro um bolsão de estacionamento gratuito. Acho que entrei pela contramão, ainda não sei o que quer dizer aquela placa vermelha com um sinal de menos em branco, no meio. Mas parei junto a umas estruturas bonitas, todas recobertas de ladrilhos em mosaico. Volto para a feira, que é na verdade o que é o Mercado de Frutas. Ele é armado e desarmado diariamente, mas com comerciantes diferentes em cada dia. Tem muitas barracas vendendo castanhas, azeitonas, frutas secas. E um outro tanto de flores, frutas e verduras frescas. Vou comprar umas frutas para reduzir a quantidade de doces diários. Passei junto a uma barraca e senti um delicioso aroma de pêssego. Mas haviam 3 espécies diferentes. Pergunto à feirante qual seria. Ela me aponta um deles. 

_ " Posso cheirar?', ela assente.

Realmente era o indicado por ela. 

_ " Quanto custa?"

_ " 1,30."

Escolho um, e ela leva a balança. Eu pensei que era o preço da unidade. Ficou so 30 centavos. Quando eu ia saindo, vi umas diminutas maçãs.  Voltei e escolhi 4. Ela pesou e deu 7 centavos.

_ " Tá saindo bem barata esta cesta", disse ela, e rimos.

Rodei mais um pouco e voltei às frutas secas e castanhas. Achei uma uvas passas das grandes, que gosto mais, são mais suculentas. E figos secos e um mix com banana seca e outras castanhas. São coisas boas para comer à noite, assistindo TV ou usando o computador. Gastei mais 3,50. Maravilha!

Levo de volta ao carro e vou explorar as esculturas e o parque que existe por detrás. Descobri ser a Mata Dona Leonor. É mesmo um espaço bem amplo, com muitas árvores e alguns bancos para piquenique, quase nenhum movimento. Assim posso me soltar, ficar mais à vontade. em meio a tantas árvores tentei encontrar um Tarzan, mas nem a Chita eu avistei.

Junto ao parque de estacionamento tem um mural do Projeto Arte Pública no Verão 2019. E em Caldas da Rainha, todas as mulheres são Rainhas.

Alguém aí recorda os números romanos? Quero ver... Está fácil hein!

Mas quero conhecer também o Parque Dom Carlos I. Mas estou sem sinal de internet. Assim, vou pelo método tradicional. Perguntando. Uma senhora me informa que é na rua paralela à esquerda do Mercado de Frutas. São três pequenas travessas, todas levam ao mesmo destino e já sei que é o parque ao lado de minha primeira tentativa de estacionamento. Escolhi a segunda e já vi, no caminho, um lugar que serve refeições rápidas. Uma boa alternativa para o almoço, mais tarde.

Assim como a senhora me explicou, esta segunda entrada me conduz a um acesso ao Parque que tem uma área coberta com venda e exposição de artesanatos. Bonito e interessante.  O Parque é bem grande e digno de uma grande cidade. Famosa por suas águas sulfurosas e curativas e sua arte em cerâmica.

Na porção mais esquerda do Parque encontra-se uma antiga e deslumbrante estrutura que foi o Hospital de Águas Termais. A estrutura está abandonada, mas parece que em vias de passar por uma restauração. Data de final do século XV. 

Estou começando a entender melhor a divisão política daqui. Um município é constituído por um cidade e suas freguesias. Assim, a cidade de Caldas da Rainha tem pouco mais que 30 mil habitantes, mas o município, que tem doze freguesias, possui quase 52 mil habitantes. E este município faz parte do distrito de Leiria, um dos 18 Distritos Administrativos de Portugal, que seriam como nossos Estados, pois possuem inclusive governadores. Eles também têm as sub-regiões, que penso estar mais ligada à localização geográfica e características climáticas e ambientais, como é o caso do Algarve e Alentejo, alto e baixo.

Dentro do Parque tem um Museu, e quando o vi lembrei-me porque queria ir até lá na terça, e não na segunda, quando os museus em geral estão fechados. Mas não tem problema, vou desfrutar do parque, suas estátuas, seu lago, seus pássaros, suas flores... Lá dentro também tem lanchonete, e o movimento é bem maior do que de outros parques que já visitei por aqui. O banheiro estava inutilizável.

Já passam de 14 horas, e penso em ir comer e voltar para Foz do Arelho.

Na Cafeteria Gato Preto encontro o prato rápido do dia. Tirinhas de frango com cogumelos, arroz e batatas fritas, acompanha uma salada de alface, tomate e cenoura. O frango está tenro, a batata frita muito gostosa, o sinal de Wi-Fi excelente, tenho um cantinho parecendo uma redoma de vidro, bem junto à calçada. Quase dá vontade de permanecer ali por toda a tarde. Pedi ainda um pedaço de molotov, que nada mais é do que pudim de claras. Mas magnífico. Até que enfim achei as claras de tanta gema que usam.

Historicamente, Portugal foi o maior produtor de ovos da Europa nos séculos XVIII e XIX. As claras eram exportadas e utilizadas como purificador na produção de vinho branco e também para engomar as vestimentas dos nobres e ricos de toda a Europa Ocidental. As gemas eram usadas nos conventos por muitas das freiras que, principalmente, se encontravam ali por imposição social e não por vocação, e com o surgimento do açúcar, foram criando doces maravilhosos que, por isso, são chamados conventuais. Mas agora não engomam mais as roupas, assim que me perguntava, onde foram parar as claras?

Ajusto meu Google Maps para o retorno enquanto ainda tenho Wi-Fi. E um pouco depois das 15 horas, já estou no Hostel. Me ajeito em meu espaço, só estamos em duas hóspedes por enquanto. Faço um reconhecimento da casa, que é bem praiana, com uma cozinha americana ampla, e uma sacada com vista para a Foz, e muita vegetação no entorno. Da janela do quarto avisto a Lagoa. Estou com uma das camas de baixo do beliche. O banheiro feminino tem uma ducha, com um bom tamanho de box, e dois sanitários, amplos, comparado aos cubículos do hostel anterior, que foi o único ponto que deixou a desejar.

Faço um pouco de hora e vou tomar um banho, pois quero ver o por do sol no Passadiço da Foz do Arelho. Mas o céu está tão nublado, será que vai ser possível ver o sol. Nem sei, mas quero estar preparada. A recepcionista sai às 18 horas. Mas cada hóspede tem uma chave do quarto e da porta de entrada. Coloco minha única blusa de manga média e decido levar a única outra de manga comprida, já que irei de carro, e se não precisar dela, tenho aonde deixar. Antes de sair, resolvo comer metade do pêssego, bem grande. Mas quando começo a comê-lo, é como se estivesse comendo um pêssego em calda sem a calda. Impressionante o sabor. Me arrependi de ter comprado só um. Não resisto e como a outra metade também. Que delícia!

O passadiço é lá no alto do morro. E é realmente muito bonito. As encostas altas junto ao mar sempre formam paisagens estonteantes, mesmo não sendo adequadas aos banhos pois costumam ser cheias de acidentes geográficos. 

Chego cedo para o por do sol, o que me dá tempo de sobra para caminhar tranquilamente por todas as passarelas. Ela tem diversas saídas para a estrada, um caminho mais longo que filmei grande parte e coloquei no Instagram (@lessa meyre), vários pontos com assentos para a apreciação do sol poente. Ou simplesmente para descansar e curtir a brisa.

Vi um lagartinho, um esquilo atravessando o asfalto, vários pássaros e... um coelho silvestre, ligeirinho, cinzento de pompom (rabinho) branco. Além das magníficas paisagens. E a vontade de voar com a brisa. Impaciente que sou, faço tudo isso e antes das 20 horas já estou de volta ao ponto de partida. E o sol só vai se esconder daqui quase uma hora. Sento e aguardo. Pessoas vão e vêm, impacientes, não ficam para arriscar o majestoso mergulho do astro rei no mar. Muitas nuvens estão a circundar...

Logo surge um menino, sua mãe e avô, este último apoiado em um par de muletas, sentando-se ao meu lado. Ouço-os falando em jantar peixe e pergunto se conhecem algum bom restaurante que esteja aberto hoje à noite. Solidariamente, apesar de não conhecerem, buscam informações na internet e ligam para um conhecido da cidade para confirmar se o Cais do Porto é recomendável. Assim que me o indicam. E ligam para fazer uma reserva para os três. Já impacientes e ainda faltando mais de meia hora para o por do sol, resolvem descer e apreciar do restaurante mesmo. 

Eu aguardo, pacienciosa, e sou brindada com um espetáculo. Alguém já acostumado com o o local diz:

- " Parece que hoje será possível ver o sol se por sem nuvens que atrapalhem a visão."

E as nuvens que haviam, só ajudaram a espalhar a cor. Num dado momento, o sol por trás das nuvens totalmente encoberto, só fazia refletir seu disco redondo na água. Não sei se a câmera conseguiu capturar esse instante ou se espalhou sua luz por toda a água. Comecei a movimentar-me para observar de vários ângulos, mesmo porque a assistência era pequena para tão magnífico espetáculo. E a gente reclama quando não é aplaudido por nossos bem feitos. Quão inocentes ou egocêntricos somos...

A esta altura do campeonato, minha blusa extra já virou manta para cobrir as pernas e  depois foi devidamente vestida, já que as pernas suportam melhor a friagem. Ainda mais que estou de chinelo, dando uma folga para os pés. 

Então, chega de passear. Vou procurar o restaurante, agora usando a intuição e a sorte, pois minha internet não funciona. Mas a família me disse que fica na Avenida Beira mar, então sigo a placa que indica: praias. E é o primeiro restaurante que aparece, do lado oposto de onde estou. Sigo até o final, onde tem um rotatória. Paro para fotografar as aves em voos razantes pelas águas da Foz.

Apesar de chamar-se Foz do Arelho, não existe um Rio Arelho, existe sim a Lagoa de Óbidos, constituída de água doce de vários rios, sendo os principais os rios Borraça, da Cal, Arnóia e Real, e água salgada que penetra do mar, e que está sofrendo as ações do tempo e do homem como o aumento da salinidade e a consequente extinção de algumas espécies. A foz da lagoa possui um imenso banco de areia que dá uma característica ímpar ao local, proporcionando banhos de mar ou do lado da lagoa.

O restaurante é bem bonito, fico em uma mesa para duas pessoas, na área externa,a meu pedido, mais próxima ao mar. Pedi um prato de Bacalhau à Cais do Porto. E uma limonada. Apesar da atenção dos garçons, do cuidado com o meio ambiente demonstrado no canudo de massa comestível, o prato escolhido, com um bom sabor, deixou a desejar. O ambiente é de meia luz, a apresentação do bacalhau é num quadrado coberto com um tempero crocante. Até aí tudo bem senão fosse pelos espinhos que encontrei no bacalhau. Com o escuro, só podia senti-los na boca, mas confundindo-os com o tempero crocante. Nessas horas, ser filha de baiano e ter facilidade de tirar espinhos da boca, me favoreceu, e muito.

Pior foi quando já saí dali estufada, sentindo vontade de arrotar. E eu nem sei fazer isso. Precisava de um sal de frutas, mas não o tinha. Tive que lidar com o incomodo até a hora de dormir.

Quando cheguei de volta ao hostel, após às 22 horas, minha companheira de quarto ainda não estava. Quando chegou, ficou assistindo TV até bem tarde, enquanto eu no quarto, salvava minhas fotos no Google Photos e lia minhas mensagens. Logo depois que ela entrou eu já apaguei a luz. Mas não muito tempo depois vi que se levantou, pegou algo e saiu do quarto. De madrugada constatei que não dormiu em sua cama, preferiu o sofá. Não sei dizer se o que a desagradou foi minha companhia, a cama ou o calor do quarto. Era a primeira noite dela, pretendia ficar dois dias, mas foi embora hoje cedo. Eu sei que que ronquei antes de dormir, mas depois dormi e já não sei de mais nada. Por isso, algumas pessoas mais incomodadas, quando se hospedam em hostel, levam tapa olhos e tampão de ouvido. Eu só não durmo quando não tenho sono.