BEJA - PRIMEIRO FINAL DE SEMANA

09/07/2019

Sábado

Fim de semana serve para passear. Então hoje quero conhecer o ícone das atrações turísticas de Beja, seu cartão postal, o castelo.

Já tenho telefone, depois de ter passado um tempo ontem sem internet, enquanto acontecia a troca de pré para pós, que se deu depois de eu tirar o chip e recolocar, pondo também o da Claro no aparelho, na tentativa de obter internet. Estava com um problemão para resolver e incomunicável. Nessas horas bate o desespero.

Liguei para o Sr. Jorge, mas ele não me atendeu. Liguei então para o Sr.Agostinho. Estou já com uma coleção de telefones de taxistas do lugar. Ele já chegou aqui com o marcador em mais de 4 euros. Explicou que vem na bandeira 5, que é para atender chamado, só depois passa para a bandeira 3, e nisso lá me foram 12 euros. Como o Sr. Jorge consegue fazer por 7, o Sr. Jacinto me trouxe por 10 e voltam sem bandeira nenhuma? O preço da volta, e imagino que o da vinda, está já embutido no preço. Não tem outra opção de transporte. Acho que vou colocar um Van circular por aqui, nos moldes do que vi no Chile.

Fui direto para o Castelo, já que ele me disse que junto a ele existe outra Unidade do Pingo Doce e um terminal de Caixa. Preciso pegar dinheiro, pois não tenho o suficiente nem para voltar. Instalar-me está saindo um pouco caro. Mas até menos do que eu esperava. Junto ao Castelo tem uma pracinha, e nela estava acontecendo uma feira livre. Habitual.

 Saquei meu dinheiro e circulei o Castelo, vendo primeiramente a parte das muralhas e jardim, depois adentrando a ele. No Pátio interno uma construção mais jovem, que abriga um restaurante. Não dei muita atenção a ela até descobrir que fora casa do governador, construída no século XVIII. A fortificação é dos séculos XIII e XIV. Teve reformulações já na época em função das necessidades de proteção frente às novas formas de ataque. Na entrada, umas placas explicam cada item para uma visita autoguiada, sem custo, pois o Castelo não cobra o ingresso. Será porque talvez fique mais cara a manutenção de um funcionário constante do que a receita advinda dos ingressos? Partindo do princípio que Beja não é uma cidade incluída nos roteiros turísticos tradicionais.

Uma pena, porque é uma atração que merece ser zelada.

Vou situá-los quanto à Beja. Uma cidade com mais de 35000 habitantes é uma das maiores em área, em Portugal. Acredita-se que a primeira civilização aqui existente foi de celtas, por volta de 400 a.C. Por volta dos séculos III a.C. ela foi conquistada pelos romanos na segunda Guerra Púnica, e neste tempo foi chamada de Pax-Julia. O nome Beja ou Baja era a forma dos árabes falarem Paca, pois eles dominaram a região entre 714 e 1162.  Cerca de 25% da população tem mais que 64 anos. Está numa grande planície e, no verão a temperatura  tem circulado entre os 13 e os 33 graus. O inverno não costuma ser rigoroso. Mas imagino que a sensação térmica seja um problema, pois, com efeito, venta muito.

Iniciei e terminei minha visita pelo passeio junto à muralha, que dá acesso à todas as torres de proteção, e depois entrei na Torre de Menagem, a principal, que se assemelha à de Belém, mas é a mais alta da Península Ibérica, com 40 metros de altura. Em cada uma das 3 salas intermediárias, subindo até o topo, uma placa explicativa.

Na primeira sala encontrei um grupo de 3 mulheres, de meia idade como eu, se esforçando para subir no patamar onde se encontra uma estátua de grande valor cultural, religiosos e histórico, suspeito. Elas se esforçavam para fazer uma foto diferente, correndo o risco de, fatalmente, derrubar o patrimônio público e demolir milhares de anos da nossa história pelo simples e inconsequente ato de fotografar. Nem parei para fazer fotos neste momento, tamanha a indignação, mas não me senti no direito de reclamar.

As salas seguintes têm suas peculiaridades nas abóbadas, diferenciadas conforme o formato e tamanho das salas. A escada é em caracol, com 183 degraus. Toda construída em mármore e calcário . No último lance, já não em Caracol, ela se torna particularmente estreita, onde ocupo toda sua largura. Na última sala e no topo temos excelentes vistas de toda a cidade, e dos campos que a rodeiam. Enquanto permaneci no Castelo, em torno de uma hora, vi mais uns 10 visitantes. É pouco para tanta história. Mas, certamente, Castelos é o que não faltam por estas paragens.

Ao voltar à sala inicial, já sozinha, tiro fotos das imagens, e observo a violação mais antiga, em forma de escritos na base da escultura. Não sei o que é pior. Acho que a possibilidade de derrubar e, destruir definitivamente, ainda é pior, apesar de ser só uma possibilidade. A não ser que fossem tantos a escreverem e registrarem seus nomezinhos com datas, a ponto de encobrir as inscrições originais. Mas, as escritas, quem sabe, daqui 1000 anos serão vistas como uma inserção de povos primitivos em uma obra de mais de 3000 anos.

Na saída resolvi fazer um filme da passarela dos muros do Castelo, tão boa a condição do lugar. Confiram no meu Instagram @lessa meyre.

Estava já saindo quando vi as tais placas da entrada (kkk), e que me fizeram retornar para observar o prédio no meio do Pátio Central. Trata-se da residência do Governador, construída no século XVIII mas não de menor importância.

Saí por outro portão direto na Catedral da Sé, onde um casamento terminava de acontecer. Até drone tinha para filmar o casamento. Tive que esforçar-me para não sair nas imagens... E o tempo que tive para fotografar antes do início do próximo foi pequeno. Acho que sta é a primeira igreja que vejo decorada com azulejos portugueses, em branco e azul. Achei lindo. Agora fotografar e fazer uma prece em agradecimento a toda proteção, cuidado e livramentos do caminho.

Da torre do Castelo pude ver que, seguindo em frente, pela mesma rua da Catedral da Sé, sairia em outra igreja. Conversei com duas lindas senhoras que estavam à serviço da Catedral, uma freira e uma voluntária, que me disseram se tratar da Igreja de Santa Maria. Eram alegres e joviais estas senhoras, apesar da idade. A leiga perguntou-me:

_ " Quantos anos acha que eu tenho?"

_ " A julgar pelo brilho em seus olhos eu diria, 18."

Elas sorriram e ela me disse que já vai completar 81 anos. E que a freira já tem 82. A freira de hábito e ela toda arrumadinha, pronta para qualquer festa. Leves, sorridentes, amigáveis. Ela ainda me confidenciou que há 20 anos serve a igreja, e que isto lhe dá novos ânimos, pois faz com muito amor. Eu acredito. Eu sei. Que inspirador!

Escrevendo isso me lembrei de uma amiga que acaba de ver partir sua mãezinha, já idosa. E, como me disse minha amiga, está em Deus. Achei bonita esta colocação. Não está COM Deus. Está EM Deus. E contou-me ainda o quão pura era sua alma, pois mesmo nos delírios da doença, nunca praguejou, blasfemou ou falou um palavrão. Sua mente a levava para o convívio de crianças e festas. Tive oportunidade de conhecer essa simpática senhora, doce, sorridente, leve como estas senhoras que encontrei na Catedral. Peço a Deus o poder do conhecimento, com sabedoria, para que este nunca me tire a doçura em prol da razão. Se é que fui doce algum dia. Kkkkk

Vou caminhando pelas estreitas ruas da cidade, onde passam carros e gente, e nem sempre existem calçadas. As ruas conseguem ser ainda mais estreitas que as de Itu. Mas também, Itu só tem pouco mais que 400 anos. As carroças deviam ser mais largas nesta feita.

Avisto a Torre dos Sinos, diferenciada na cor, do restante do prédio.

Vejo que a Igreja de Santa Maria está fechada, mas não tenho pressa, sei que terei tempo de ver e rever com os amigos e parentes várias destas atrações.

Ao lado tem uma porta e um cartaz que diz, Capela do Rosário. Entro e dou com uma sala. Vou questionar o funcionário que vai logo me dizendo:

_ " É só essa sala mesmo."

Acho que ele já enjoou dessa mesma pergunta. E era sim isso o que eu ia perguntar, não por achar pouco, mas porque estava escrito Capela, esperava ao menos um altar. Vou rodando e percebo as cenas da vida de Cristo, assim busco a ordem cronológica, partindo da Anunciação; depois o encontro de Maria e sua prima Isabel, ambas gestantes; o Nascimento do menino Jesus; e depois alguns passos do calvário: Jesus no Horto das Oliveiras; a Flagelação e Coroação de Espinhos, cenas da tortura a caminho da crucificação. Vejo que tem dois pequenos quadros com partes de cenas, e pergunto ao funcionário, que ao perceber meu interesse, muda de postura, explicando-me que havia duas outras cenas, a do Batismo e a da Crucificação. Mas partes dos azulejos se perderam, então eles mantiveram as peças encontradas daquela forma. São trabalhos lindíssimos. De características bem portuguesas ao serem executados na cerâmica branca com motivos em azul, origem do nome azulejo.

Esta Praça possui um círculo no chão e eu me pergunto, será ali o Marco Zero?

Na Igreja da Conceição, logo adiante, também junto a uma Praça, onde vemos a Estátua da Rainha Dona Leonor, tem um Museu, mas são quase 12 horas e já vai fechar para o almoço.  Na esquina em frente está o Teatro Pax Julia.

 E na calçada em frente tem um restaurante de nome Alcoforado. Está vazio, o que normalmente não é um bom indicativo, mas também é muito cedo. Mas tenho que aproveitar o horário de almoço dos pontos de visitação. E, tomei café bem cedo. É bem bonitinho e aconchegante. O garçom me entrega o cardápio, ao meu pedido, antes de sentar-me. Quero olhar as opções. Decido ficar.

_ " O que são gambas?, notem bem que não tem acento. Não é gambás.

_ " Uma espécie de camarão."

Camarão com porco, uma mistura inusitada. Vou pedir este outro, porco alentejano. Pelo menos é bem típico. Vou tomar um vinho também. "Uma vez em Roma, faça como os romanos."

Ditados a parte, é bem comum por aqui, na península Ibérica ao menos, vinho ou água acompanhando as refeições. Ele trás uma porção de pão, um pratinho com manteiga, patês de atum e de sardinha. Diferente. E uma jarrinha de vinho da casa.

Quando chega o prato, vejo que não tem jeito. Misturar frutos do mar com carne deve ser o tradicional por aqui. Vou comer ostras novamente. kkkk. E batatas, meio rústicas. O porco em cubinhos hiper macios. É um prato cheiroso e saboroso. E aos poucos vai chegando mais gente.

O lugar é charmoso e achei mimoso o nome do restaurante bordado em ponto cruz, num quadro.

Peço para embrulhar as sobras, agora tenho para onde levar. E a conta. Descubro que o pão e a manteiga também são cobrados. Sempre o são, eu sei, mas estão sempre embutidos no preço final. Será que é possível dispensar estas entradas então? Preciso descobrir. Satisfeita pego minha marmitinha e vou procurar o que mais fazer, pois ainda são 13 horas, e as atrações só reabrem às 14h30.

Vou andando e vejo uma escultura já conhecida. Então, estou perto do centrinho comercial??? Obaaaa. Sobremesa. Mas antes vejo uma feirinha de itens diversos em outra pracinha, o Jardim do Bacalhau. Mas nada que me interessasse. Porém, junto dela uma loja dessas que têm um pouco de tudo. Acho ali umas blusas confortáveis para o dia a dia, quero substituir aquelas peças velhinhas que a gente costuma ter em casa, mas que são as mais usadas porque vestem como uma luva, e não incomodam em nada. Pois é. Estas eu doei todas. E estou sentindo falta, para ficar em casa. Compro 3, duas camisetas longas que serão perfeitas para o dia a dia. E uma pochete por 4 euros. Genial! Vou aderir a essa moda.

Agora vou rumo as Maltesinhas... Mas... outra loja. Uma mulher mais cheinha carregando calças jeans nos braços. Será que terão calças para o meu tamanho. Descubro que sim. A numeração da mulher era a imediatamente superior à minha e ela comprou 4 calças. Compro duas. Largura e comprimento certinhos. E a 14,90 euros cada uma, o que considero bem barato. Esta loja me conquistou. Mas, por enquanto, atingi minha lista de desejos confeccionada nos Estados Unidos.

Sem mais interrupções, vamos à sobremesa.

Hoje era um homem no atendimento. Peço um chá gelado de maçã, um pedaço de bolo e um doce redondinho. Ambos com ovos. Lógico. O bolo tem uns pontos rosados, que não identifico, acho que são cerejas. Mas parece um bombocado com recheio de... fios de ovos. Se você não gosta ou não pode com ovos, nem entre numa tradicional doceria portuguesa. Foi o meu preferido. Até agora! Kkkkk

Tem um casal idoso, também fregueses, conversando com ele e interrompo para pedir orientação de onde encontro um mercado aberto. Eles me dizem que estão fechados. Não creio. Num sábado à tarde. Pergunto onde posso comprar creme de leite, e eles me indicam o Pingo Doce, Supermercado. O que será um mercado então? É que não achei o Pingo Doce tão super assim. É relativamente pequeno para chamar de Super. Kkk

Conto que já provei 6 dos doces dos que ali estão, na vitrine, contando os dois de hoje, e a senhora começa a indicar-me doces para as próximas pedidas, já que contei que vou morar por aqui algum tempo.

Ela me diz para ir visitar as praias do Alentejo. São Lindas. Mas lindas que as de Algarve. Sinto aí uma certa rivalidade. Mas não tem problema, Vou conferir para ver se ele tem razão. Despeço-me e vou para o Pingo Doce.

Essa unidade do Supermercado fica próxima à Praça da Igreja Nossa Senhora do Carmo.

Fui tratada com diferenciação. Quando estive, na mesma Unidade, com a dona Rosalita, passamos com as sacolas para dentro e depois saímos sem nenhuma vistoria. Hoje, não permitiram a entrada. Tive que deixa-las sobre um murinho junto à janela. Já havia mais algumas poucas por lá. Notei um senhor retirando uma. Entrelacei suas alças e ali deixei. Penso que confiança é uma estrada de mão dupla. Ele não confiou em mim, mas eu tive que confiar nele, deixando ali meus pertences sem um armário com chave adequado à sua proteção. Qualquer um podia levar minhas sacolas ou subtrair um item... Mas não vou criar confusão. Melhor não.

Comprei mais água, e o tal do creme de nata. Que é como chamam aqui o creme de leite.

Agora sim, consegui contato com Sr.Jorge. Conto-lhe o episódio e ele me diz que pode ser atitude da pessoa que estava em serviço naquele momento. Ou seja, ele me disse o que eu diria para amenizar o conflito. Mas ele pode ter razão. Não foi uma questão de trato diferenciado. Talvez, como o mesmo segurança no outro dia, tivesse que deixar as sacolas do mesmo jeito, independente de estar acompanhada da Dona Rosalita.

Hoje não vou poder fechar a janela do quarto para dormir. Uma vaca se alojou pra comer a grama que deste lado da cerca está verdinha, bem em frente à minha janela, e se mexo nas folhas da janela, ela se assusta, já tentei.

E o sorriso da lua apareceu antes mesmo de escurecer. 

Deu por hoje.

Domingo

Programei uma caminhada para logo cedo, antes do sol esquentar. Só que fiquei enrolando, com preguiça, cancelei o despertador do celular durante a madrugada pensando: "amanhã é domingo, você não tem nenhuma obrigação, pare com isso."

Quando vi, já estava vestida e pronta mas, eram 11h30. Que preguiça. " Vai. Você vai ficar fazendo o que aqui em casa sozinha?" pensei.

E fui. Saindo do Monte Januário já tive uma grata surpresa. Um casal de pelicanos em seu ninho, bem pertinho de minha casa. Até eu pegar o celular em minha nova pochete, eles voaram. Snif. Vou levar o celular na mão.

Segui no sentido oposto ao da primeira caminhada, rumo ao asfalto. Pensava em seguir rumo à Évora, achando que tinha uma pista interna onde pudesse caminhar com segurança. Quando cheguei e vi que não tinha, mudei de lado. Fui por uma estrada de terra até a porteira de um monte, onde ela, a estrada, findava. Mas tinha uma amarração no arame farpado, uma placa da estrada com a base de concreto e o 'guard rail'. Espero não me enganchar no arame farpado. Dobras as costas e as pernas, levanta do outro lado, vai pisando na sapata da placa, pula o 'guard rail', pronto. Estou no acostamento, sentido contrário aos carros, onde é mais seguro, pois assim vejo a movimentação dos veículos (perdi minha única irmã vítima de atropelamento, então, sou um pouco ressabiada). Logo que inicio a caminhada tiro uma foto da cidade ao longe, e penso: "não é tão longe assim". Vejo um grande prédio branco e a torre do Castelo. Parecem estar logo ali. A um tirinho de espingarda.

Vejo outros ninhos de cegonhas pelo caminho, algumas plantações, cachorros, flores, pássaros, muitos carros passando. Na primeira rotatória, inicia uma pista interna para ciclistas, e ali fico mais segura. Tem até umas árvores ladeando o calçamento. Começo a encontrar ciclistas, mas noto que eles preferem usar a Rodovia, mesmo tendo uma pista para eles e aumentando o risco de acidentes. Lembra o que já comentei sobre cultural? Falta aqui um pouco da educação necessária. Mas eles estão bem menos distantes do ideal que nós.

Quando chego ao imenso prédio branco, acho que a maior edificação das redondezas, e olho a cidade... Eles não são próximos um do outro como parecia. A Torre do Castelo ainda está tão longe, depois de mais de 3,5 km caminhados.... Mas agora, ir para frente ou voltar é a mesma distância então...

Vão aparecendo mais casas, mais pessoas, alguns cavalos, muitos ninhos de cegonha, e começo a sentir sede. Tenho mais pressa do que quando comecei. O sol está mais quente. Começo a suar. Segunda rotatória. Agora estou bem perto. Por que será que o Google informa que o caminho a pé é quase dois quilômetros mais curto do que o de carro se a rota é a mesma? Ah! Já sei. Eu não tenho que fazer as rotatórias. Ou rotundas, como são chamadas por aqui.

Na última rotatória, uma homenagem da força aérea.

Na entrada da cidade uma placa de boas vindas e um lindo canteiro central florido.

Logo a seguir, o cemitério.

E um posto de gasolina com uma loja de conveniência. Um chá de pêssego e já posso continuar, carregando minha garrafinha.

Chego à Ermida de Santo André, que parece um castelinho, mas que não abre aos domingos e segundas. Em frente a ela está o Carmelo do Sagrado Coração de Jesus, onde residem irmãs Carmelitas e não é aberto à visitação. Ambos rendem boas fotos.

Vou apreciando as casas azulejadas, com eira, beira e tribeira. Gente de posses. E o estilo de vida, com roupa secando à janela...

Quero chegar a outra igreja que vi no Google Trip e seu interior me encantou, coisa nada difícil de acontecer, já que sou uma deslumbrada.

Lembrei-me agora que, me disse minha amiga Viviana, que a pessoa mais ilustre nascida nesta terra foi Raposo Tavares. Não vi ainda nenhuma alusão a ele. Preciso pesquisar.

Vou seguindo e encontro uma lanchonete, em hora oportuna. Considerando que levei quase duas horas para fazer os 7 quilômetros percorridos, já é hora de almoço e já gastei muita energia. Comprei logo dois salgados. Uma torta de não sei o que e uma empada de frango.

Minha vista já não está valendo nada sem os óculos. A torta era de amendoim, com uma massa podre. Doce. Então comi primeiro a empada. Tomando meu chá. Sentei-me do lado de fora porque dentro estava sendo servido um almoço e estava bem cheio. Mas a vista estava muito boa e a tarde deliciosa.

Eu sempre levo os utensílios usados por mim para o balcão. Já tinha pagado os 3,40 euros. A igreja estava bem próxima, e fechada.

Junto a ela um Museu, fechado para o almoço, e em frente, a Praça da República. 

Quando estou passando ouço um povo conversando e cantando, não identifico o sotaque português, retorno e puxo conversa. É uma família de mineiros. Mudaram-se ontem pra Beja. Estavam morando em Viseu, já há 3 anos. A Patricia pegou meu número e já me ligou no zap. Desejamo-nos sorte. Devemos nos encontrar futuramente. Ela está com marido e uma casal de filhos. Os acompanhava um casal português. Ela disse que já passou situações muito engraçadas e alguns apuros com a língua. Falamos a mesma língua portuguesa, mas nem tudo quer dizer a mesma coisa. Já notei.

Além de minha admiração pelas casas, achei muito criativa esta jardineira feita com calças jeans.

Agora já quero achar o ponto de táxi e voltar, mas saio de novo em frente à Igreja de Nossa Senhora da Conceição e hoje, um dos anexos está aberto. Essa igreja foi transformada em Museu e conserva nela alguns dos itens mais importantes dos achados históricos de Beja, como é o caso do busto de Cesar, agora reconhecido como tal. Essa peça coloca Beja na civilização romana, e a leva para mais de 2000 anos de história.

Tem também a própria igreja com suas peças banhadas em ouro, típico dos tempos do barroco e rococó.

E umas pinturas que li nos quadros explicativos, e perguntando ao funcionário, me disse estarem em outro anexo, que só estará aberto a partir de terça feira. Ele foi outro que se mostrou mais atencioso após demonstrar meu legítimo interesse. Sou curiosa, gosto de aprender, e assimilo boa parte do que aprendo com gosto. Quando alguém está explicando algo a um público, é comum o olhar se fixar em mim, porque percebem que estou prestando a atenção. Isso é estimulante! Para quem fala e para mim, que estou ouvindo.

Vou até a esquina, olho pra esquerda para atravessar, e lá estão os táxis. Sr. Jorge está limpando o dele. Está com trajes de domingo, uma camisa xadrez, mas ainda com gravata. Observei que, em geral, ele usa as camisas brancas, não dispensando as gravatas. E trabalha de domingo a domingo. Ele não está no táxi da vez, de modo que caminho mais dois quarteirões até o posto policial e logo em seguida ele vem me apanhar.

O retorno foi bem mais rápido do que a ida, ele observa. Sim, digo eu, sem dúvidas.

Já é fim de tarde, tenho poucos Gigas disponíveis de Internet. Tomo meu banho. Faço meu tagliarini com a receita ensinada pela Anna Chiara, também minha amiga, ao saber que tenho limão siciliano à minha disposição no quintal. Janto massa com o restante do porco alentejano e agrião.

Um tempo depois noto uns passarinhos na janela e um tom roseado no campo, mas não é do por do sol, pois este é o lado leste. Fotografo e vou para o lado Oeste. A casa é construída neste sentido, igual a casa da Brenda, minha filha. Vejo as nuvens avermelhadas, mas o sol se põe atrás das casas principais, da dona Rosalita e seus filhos. Tenho que me deslocar para fazer umas fotos. Mas já não vejo mais o sol, só seu rastro. Ele se pôs às 21 horas.

Apago tudo e vou para o quarto, ao fundo, ainda com a janela aberta. Quero ver até quando a claridade se mantém. E começo a cantar. Músicas da minha adolescência, que aprendi quando fazia aula de violão, onde eu cantava e minha falecida irmã Eliane, tocava. Nunca cantei bem. Mas estou inspirada e não tenho audiência. Não me lembro de ter feito algo assim na minha vida. Sempre estive rodeada de gente ou de sons. Nunca tive muito tempo ou disposição para a contemplação. Sei que permaneci por mais de hora olhando o céu, ainda escurecendo, olhando o campo, apreciando a criação. E só cantando. E cantando só.

Escureceu já era quase 22 horas. Faltavam menos que 5 minutos.

E peguei para ler um livro virtual que desde maio não lia, gentilmente encaminhado por e-mail por minha amiga e terapeuta Priscila. Ele estava me chamando porque, ainda nesta semana, usei o termo hermeticamente, e lembrei-me de conhecer a origem do termo, mas, depois de tantas viagens e ocorrências, já não sabia de onde. É um livro reflexivo. Tinha parado na página 11 e fui até a 49, para só depois engatar no sono, cheia de análises da vida e do eu.