Ao norte da ILHA DE LANZAROTE, a cidade de HARÍA – em ILHAS CANÁRIAS (ESPANHA)      .

22/02/2020

É só me distrair um pouco com as redes sociais, ou um bom papo, que perco a noção do tempo. Levantei cedo, 8h10, porque sabia que o ônibus para Haría parte também de hora em hora, ou até menos vezes, e queria pegar o das 10 horas. Perfeito, coisas ajeitadas na noite anterior, seria só descer para tomar café no Hotel mesmo. Eles tem um refeitório e uma cozinha. Eu tinha ameixa, morangos, pão e queijo, comprei dois cafés com leite na máquina, por 50 centavos cada, e... Mandei mensagens de bom dia para todo mundo do What'sApp e ainda fiquei de papo com um hóspede cuja esposa é de São Paulo. Ele é espanhol. E quando olhei no reloógio já eram 9h24. Voltei ao quarto rapidinho, fui ao banjeiro e às 9h34 estava confirmando o local da Estação de ônibus de Arrecife, a 1,2km do Hotel. E o recepcionista me disse que em uns 40 minutos eu estaria lá, andando com calma, carregando a mala.

_ " 40 minutos? Disse eu quase aos gritos, "não é possível, estou acostumada a arrastar milha mala pelas ruas."

Mas sai nervosa e preocupada, não posso perder o ônibus da 10 horas. Às 9h36 comecei meu percurso, e a sacola com água escorrega pra lá e a pochete escorrega pra cá, e o sol bate na vista, e não consigo enxergar o celular para ver o caminho... E parece que tudo está dando errado quando, finalmente, chego ao terminal e olho no celular, 9h50. Viva!!!

Entrei na fila da bilheteria e quando chegou minha vez, a moça só fez apontar para fora e dizer:

_ " É aquele ônibus que acaba de encostar."

_ " E pago diretamente ao motorista?"

_ " Sim", disse-me ela.

E o povo já começava a entrar, eu fui lá, abri o porão de bagagens e coloquei minha mala. Tinha visto um morador fazer isso com o carrinho de bebê no meu primeiro dia aqui. Aliás, um muçulmano. Digo isso pelas vestes de sua esposa, colorida, estampada, como um véu, envolvendo todo seu corpo e escondendo os cabelos. Aqui há muitos muçulmanos.

Fui para o fim da fila e perguntei o preço até Haria.

_ " Haría", corrigiu-me o motorista, "3,15".

Então se confirma o valor que vi na internet, e já estava com as moedas separadas no bolso do moletom.

Sentei-me junto a uma janela e fui observando a vista. E estava certo o Paul quando disse que no norte da ilha há mais vegetação, mas ainda assim são só pequenos arbustos, pior que o nosso cerrado. Nada de árvores, a exceção das palmeiras, plantadas.

E vi as primeiras janelas e portas pintadas de azul. A preferência mesmo recai sobre o verde, vindo depois o marrom, e por últimos o azul. E sabe que fica bonito ver de longe todas estas casinhas brancas.

Fui avistando praias e morros ao longo de todo o caminho. E desci, como muitos, na Plaza de Haría. E minha hospedagem estava só a 500 metros de distância. E lá fui eu arrastando minha mala.

Quando cheguei o proprietário já liberou minha entrada para deixar a bagagem, me deu algumas dicas de passeio, e informou-me onde achar supermercado, restaurante (e me deu uma dica excelente), e como me transportar para os passeios de amanhã. Deixei-o fazendo a arrumação dos quartos, pois os hóspedes anteriores acabavam de deixar o quarto, depois de uma semana aqui. Eram holandeses.

Voltei para a Praça, onde fica a Igreja, que estava fechada. A praça é muito agradável e arborizada. E o restaurante indicado por meu anfitrião é bem em frente à Igreja. Tomei um suco porque ainda era cedo para almoçar e fui a procura da Casa de Cesar Manrique, um dos expoentes espanhóis no campo artístico, filho de Lanzarote, e responsável por obras de importância turística. Um vanguardista que com sua genialidade, ajudou colocar Lanzarote no cenário turístico do mundo.

Mas o proprietário da Casa las Vistas também me falou de um local onde se fazem cestos artesanais... E vi uma estátua dedicada a este artista, e atrás dela um centro de artesanato. E fui conhecer.

Na primeira sala que entrei era uma oficina de artesanato em couro, com muitas bolsas bonitas e coloridas. Já tinha visitado a sua loja na Praça Central. Procuro uma bolsa pequena para carregar o notebook, mas tipo mochila. Tem algumas companhias lowcoast que não permitem mochila do tamanho da minha. Foi só uma passada rápida então.

A segunda sala havia uma artesã da argila, confeccionando uma tigela, também típicas do artesanato local, como pude registrar depois. E com ela conversei um pouco, e já registrei uma peça que me atraiu. E também uma foto da artista trabalhando.

E a terceira sala entrei pedindo permissão, como fiz nas demais, e duas simpáticas senhoras que trançavam uma palha, assentiram. Havia uma mulher mais jovem, limpando as prateleiras, e segundo as outras duas, esta última com deficiência auditiva e consequente deficiência na fala.

_ " Vocês me permitem olhar, e conversar?"

_ " Sim, olhar, conversar e comprar."

_ " Ah. Mas comprar eu não estou comprando nada." E contei da minha limitação de espaço na bagagem e um pouco das andanças pelo mundo.

E papo vai, papo vem, sei que fui me estendendo e fui ficando, com aquelas tão simpáticas senhoras me dando atenção. E comentei que era aniversário da morte de meu esposo, falecido há quatro anos. E contei que considero um privilégio e uma oportunidade tê-lo conhecido e vivido com ele por mais de 20 anos. Mas também sei que a cada um a sua hora, e que não devemos ficar nos lamentando e sim agradecer pela oportunidade e recordar as coisas boas. Sei que a Dona Assuncion e a dona Calixta me disseram que tinham muito que aprender com aquelas palavras. E a dona Assuncion tirou da carteira um 'santinho' com informações sobre a morte de uma mulher, e me mostrou o seu próprio nome na relação dos filhos. Ela perdeu sua mãezinha muito recentemente, e sua emoção foi tão grande que não conseguiu falar-me sobre isso. Teve que mostrar-me. E isso também me emocionou de tal maneira que meus olhos se encheram de lágrimas. Ela desculpando-se porque não queria me causar aquele sentimento. E eu explicando que era por minha empatia. Quem me conhece sabe que sou mesmo uma chorona. E para recuperar o tom e trazer novamente uma sensação reconfortante? Não foi nada fácil.

Mas continuamos nossa conversa. E a moça preparou a mesa para elas tomarem café, e chegou um senhor que se reuniu a elas, e eu pedi se podia tirar uma foto de nós todas. E ele se ofereceu para fazê-lo.

E quando me preparava para ir embora a dona Assuncion me passou o número de seu telefone, e também o da Dona Calixta. E já passei uma mensagem no What'sApp para cada uma, confirmando o número. E todas entenderam que o destino me levou até elas naquele momento, onde eu precisava conversar, e elas ouvirem e me encorajarem. Onde pudemos deixar aflorar nossas emoções. E aprendermos lições umas com as outras. Senti em algumas palavras, de ambas, dona Calixta já viúva, como eu, a culpa. E repassei o que aprendi há bem pouco tempo. Não devemos ser severos em nosso julgamento. Cada uma de nós ofereceu o que sabia e podia no momento em que nos foi requisitado. Nem mais, nem menos. E quando aprendemos, e sabemos mais, oferecemos mais e melhor. Quanto prazer eu tenho nestes encontros pelo mundo. Como sei que nada é ocasional, tudo é proposital. E marcamos de nos encontrar novamente no Brasil, onde serei sua cicerone. Em no máximo três anos tá?

Segui para a Casa de Caesar Manrique, elas me acompanharam até a porta do atelier e me mostraram o melhor caminho a seguir.

A casa é parte de uma Fundação com o nome do artista, morto em 1992 num acidente de trânsito, e como é particular, cobra um valor de 10 euros a entrada. Achei um pouco caro, mas espero que seja por uma boa causa.

A casa revelou um pouco do estilo de arquitetura de moradia de Lanzarote, com uso de muita madeira, tanto na estrutura do telhado, com caibros de troncos de uns 15 cm de diâmetro, como na elaboração dos móveis. Certamente madeira essa toda importada. Mas também se usa muita pedra, material encontrado para todo lado que se olha.

A casa é grande e espaçosa, os banheiros revelaram uma afinidade do artista com a natureza e um pouco de sua vaidade, parte dessa conclusão é minha. A relação com a natureza se dá nos espaços abertos em que estão construídos o banheiro da suíte, com a banheira parecendo uma piscina redonda no exterior, com vista das palmeiras e cactos, rodeado por um muro de pedra basáltica. E no banheiro de hóspedes, também servido de transparências para manter o contato com a natureza sem perder a privacidade. A vaidade eu conclui pela quantidade de espelhos, em todos os banheiros, inclusive no social, compondo quase todo o perímetro dos espaços, com uma largura de 80cm a um metro, que dão uma sensação de ampliação do espaço, que já é grande, mas que possibilita se mirar para todo lado que olhe. Sei lá... O pouco contato que tive com artistas revelam sim, grandes talentos cheios de sensibilidade, mas também grandes egos. Mas não deve ser regra... Ou é?

Ando muito questionadora não? Voltei ao tempo de maturidade do Pinóquio. Mas os pequenos o fazem por desconhecimento e falta de maturidade, e eu também por desconhecimento, e uma crescente maturidade que já me faz não ter mais certeza de nada.

A parte interior da casa não pode ser fotografada, e do lado exterior só restam amplos jardins e as vistas da redondeza. A casa já está localizada acima das demais, indo em direção ao morro.

E descendo pude ver novamente aquelas canaletas secas que pensei serem de rios intermitentes, quando as vi junto ao Shopping, na praia do Papagaio. E que agora sei que são captadores de água da chuva.

E há passavam de 14 horas. E fui direto para o Restaurante La Tegala. Pedi uma sopa de mariscos e croquetes de salmão.

Recebi o pão mais parecido com o 'pão francês' de São Paulo, que leva tantos outros nomes nos vários estados do Brasil. E dois molhos. Um me pareceu aquele feito de pimentão e pimenta, sardella, que não gosto. E o outro um molho de ervas, que vai salsa, cominho, alhos, sal e azeite. Estava sensacional. Comi todinho, no pão ou temperando a saladinha que acompanhou os croquetes.

E a sopa era de mariscos mesmo, com ostras, polvo e camarão. E estavam nadando no caldo, coisa que não gosto, mas o caldo estava tão bem temperado e com uma cor de molho, e não de água do cozimento, que tomei a maior parte. É lógico que, com toda essa fartura e delícia, tomei um vinho branco seco, que é o típico de lanzarote, e não pude comer sobremesa. Como disse o garçom quando lhe expliquei:

_ " Entendo, não há mais sítio."

Gostei de tudo, do local, do atendimento, da comida. Paguei 19,60 com impostos. E ali mesmo um dos garçons me falou onde eu obtinha o número para chamar um táxi e ir visitar o Mirador del Rio, projeto de Cesar Manrique, mais ao Norte da Ilha, e que eu não pretendia visitar por achar que não teria tempo e forma de locomoção.

O táxi é para 8 pessoas, e eu vou pagar sozinha os 25 euros de ida e volta. Ele não cobra a espera. O local é um mirante, então as pessoas não gastam muito mais que 15 minutos para apreciar.

Mas é imperdível. Primeiro a estrutura do restaurante, com vidraças panorâmicas e grandes esculturas de ferro estilo contemporâneo.

E duas terraças panorâmicas possibilitam ao visitante observar lá do alto da montanha rochosa, a Ilha Graciosa, cujo nome foi atribuído certinho, que tem sua própria cratera vulcânica e 500 habitantes. E outras ilhotas mais atrás. E aquele mar que parece um rio passando calmo entre dois pedaços de terra. E sua colorida cor.

E ai você olha o próprio miradouro, encravado na pedra, toda amorfa, e cheia de líquen, parecendo mofo. É tudo tão diferente e bonito. E percebe-se o entendimento do artista, que saia que as pessoas procuram o diferente, o desconhecido, pois, como já dissemos antes, o conhecido e comum, não damos valor. E Lanzarote tem uma paisagem diferenciada em local com clima privilegiado, onde é outono, ou primavera, o ano todo. AS temperaturas máximas no verão não chegam aos 27 graus, e no inverno ficam em torno de 22. Quando o sol se põe as temperaturas ficam em torno dos 19 graus no verão e 15 no inverno, pelo menos nas áreas mais próximas ao mar. O áudio guia do Timanfaya dizia que lá as variações de temperatura são mais extremadas. Já que a própria terra ferve. E se não fosse este visionário, o turismo não teria o investimento que teve e a sobrevivência da população aqui estaria comprometida.

Gastei 25 euros com o táxi, mas saiu mais em conta do que alugar um carro, já que viajo sozinha. Mas recomendo muito o aluguel de carro para grupos, dada a pequena extensão da ilha e da excelente pavimentação das estradas, bem como o pouco movimento que, segundo eles, em matéria de trânsito, não se altera muito na alta temporada.

Ele me deixou no mesmo local em que me pegou, e aproveitei para passar no mercado e comprar o café de amanhã.

E de volta à Casa, ainda falei com a dona Assuncion no 'zap'. E não fiz muito mais porque o Wi-Fi no quarto é ruim. Nem consegui publicar o relato de ontem. Fazer o que?

E já que não tinha WiFi, observei as montanhas da janela do quarto e dormi cedo