ALCOBAÇA E SUAS SURPRESAS

10/08/2019

Não estava em meus planos ir à Alcobaça. Eu nem sabia que ficava aqui, perto de Nazaré. E muito imaginei que poderia ter algo legal para conhecer por lá. Mas nesta terra cheia de história, difícil é achar um lugar sem nada para fazer.

Alcobaça fica uns 16 km de Nazaré, sentido Espanha. E vi umas fotos do Mosteiro que achei bom conferir. Logo chegando na cidade vi um estacionamento e não ficava longe de meu destino, assim, acostumando com a falta de espaço livre do velho mundo, já garanti meu lugar.

De onde estava eu avistava a torre do Mosteiro. Caminhei por uma larga passagem com um velho e abandonado prédio que, creio, foi uma grande fábrica de cerâmica.

A fachada do Mosteiro de Alcobaça já é impressionante, mas quando adentramos e observamos as naves em estilo gótico, com arcos a perder de vista, é algo majestoso. Repassa a ideia do Deus Todo Poderoso que criou o céu e o mar. Faz a gente se sentir realmente pequeno, mas privilegiado, de ali poder estar e conhecer.

Na porta muita gente arrumadinha, descobri que ia haver uns batizados. Aqui eles acontecem um a um, como os casamentos, e as pessoas vêm arrumadas para o evento importante que é. Um menininho fazia dancinhas, tranquilo, como toda criança, só sendo natural e feliz.

A parte da igreja pode-se visitar tranquilamente, com alguma reserva a e silêncio quando estão acontecendo celebrações.

Nela encontram-se alguns túmulos muito importantes, como o de Dom Pedro I (notem que este foi o primeiro de Portugal, não o nosso que aqui foi o IV) e sua amada, Dona Inês de Castro. A riqueza dos detalhes evidencia a importância do morto. Até hoje isso é feito, com o que não concordo, obviamente. Só tive que escolher 2 caixões até agora, escolhi de forma a caber o corpo e a ficar protegido durante o transporte.

Todo o restante depende da compra de um ingresso que para adultos fica em 6 euros.

Cada sala tem um quadro com o nome da mesma, a planta do prédio, a posição da sala no mesmo e uma breve explicação.

A primeira sala é a dos Reis de Portugal. Até a época em que foi construída, porque são esculturas. A última é da posse do rei Afonso Henrique, coroado pelo Papa Alexandre III e por São Bernardo.

Dali já saímos nas galerias que dão acesso ao jardim interno, com lindas laranjeiras.

A luz reflete na pedra e deixa tudo muito mais impressionante.

Cheguei a uma fonte, e vi um guia explicando que o refeitório sempre estará perto da fonte de água, para que os monges possam se lavar antes das refeições. E ao lado do refeitório, a cozinha, toda azulejada, com uma coifa imensa ao centro, várias pias profundas ao redor e uma piscina de entrada de água de abastecimento.

Depois destas, vem a Sala dos Monges, usadas para reuniões e celebrações.

E subindo, chego ao claustro dos noviços ou do Cardeal. A parte superior não fazia parte da planta original. O claustro não está assim, dividido em celas, sendo utilizado normalmente pelo abade.

Um lindo jardim em mau estado de conservação, diria até com grade grau de abandono, pode-se ver pelas janelas do alto do mosteiro. Acho que aquela é a parte que pertencia à Cerâmica. 

De uma janela fechada por vidro ainda é possível observar batizado acontecendo lá embaixo.

Voltando a parte térrea, chego à Sala do Capítulo, que é onde se tomavam decisões importantes a cerca da Comunidade. Ela está cercada de estátuas (talvez dos abades) e tem na porta uma tampa, como se fosse de um túmulo, datada de 1638. O Capítulo é como uma ata de reunião, segundo minha conclusão. A partir de 1180 determinou-se que os abades fossem sepultados nesta sala.

A área Central do Mosteiro é chamada de Claustro do Dom Dinis ou do Silêncio. Todas as principais dependências construídas ao redor e por ali os monges, enclausurados, circulavam em silêncio.

As dependências do Mosteiro foram abertas à população muito recentemente. Toda esta majestosa estrutura era utilizada somente pelos religiosos. Até a igreja, pera os leigos havia uma outra instalação onde podiam escutar a missa.

No entorno da área onde se encontra o Mosteiro, achamos vários restaurantes, bares e cafeterias. Uma doceria de doces conventuais chamou-me a atenção. Mas, na atual terra da maçã, comi uma torta de maçã com castanhas.

Meus dados móveis não estão funcionando, e usei o Wi-Fi da doceria para tentar achar o Castelo. Mas me perdi na direção. Um rapaz que lá estava, tomando café com a proprietária, acabou me ajudando quando me viu perdida na rua. Indicou-me a direção.

Era lá no alto. E no caminho observei que eles colocam uns pratos nas paredes. Tinham pratos em vários locais, e os dizeres normalmente são dedicatórias. Achei muito interessante.

Passei também pelo Rio Baça, que, pelo menos atualmente, não passa de um córrego. Ao contrário do rio Alcoa, com um bom volume de água.

A subida não é muito longa, nem muito íngreme, mas cansa.

As ruínas do Castelo talvez não sejam devidamente divulgadas. Elas representam um excelente Miradouro da cidade e do Mosteiro.

Não me arrisquei muito por estar sozinha. Tenho muito receio de cair, me ralar, torcer um pé, nesta situação, e ficar por ali esperando alguém aparecer para me ajudar. O espaço é grande. Deve ter sido um bonito Castelo.

Quando estou descendo de volta, seguindo as placas que indicam o Mosteiro, vejo uma ruazinha ladrilhada, que até parece brilhar, e ali tem alguns restaurantes. Mas como tinha comido o bolo antes de subir, ainda não estou com fome, mas passam de 13h e os restaurantes costumam fechar às 15h.

Optei por uma lanchonete e um cachorro-quente. O sanduíche, de um modo geral, bem sem graça. Só o pão que admito, os portugueses são mesmo bons padeiros. Não passam nenhum molho, vem uma salsicha cortada em pedaços com batata palha, e dois saches com ketchup. E ainda esguichei metade de um deles na minha blusa.

Está ocorrendo um casamento agora no Mosteiro. Imagino o que seja para uma noiva casar num lugar tão lindo. Mas o nervoso de caminhar todo aquele enorme corredor, com turistas rondando o tempo todo...Sei lá. Um carro antigo a espera no pé da escadaria. Os convidados agitam maços de fitas feitos especialmente para estas ocasiões. E batem palmas. E ovacionam.

Agora vou retornar ao carro pois, meu próximo destino está longe.

Passo por um prédio abandonado e vejo a ação da natureza. Me faz lembrar de uma série, acho que era algo como "O Mundo sem o Homem" ou algo assim.

Passo por uma ponte sobre o Rio Alcoa e vejo que ao longo daquele trecho tem uma passarela ao lado com uma exposição de cerâmica. E já que estou aqui...

E ali também vejo algumas macieiras, com os frutos vermelhinhos. E antes que me esqueça, a época das castanhas portuguesas é novembro, viu mãe? Adoramos as danadinhas.

O rio também rendeu bonitas fotos.

Agora vou em busca do Museu do Vinho. Estava no meu roteiro, preparado ontem as pressas e eu não sabia o que esperar.

Pois foi mais uma grata surpresa. Cheguei e fiquei no carro me refrescando um pouquinho e carregando o celular. A guia veio até mim e perguntou se eu iria participar do passeio, pois ele ocorre de hora em hora, e já eram quase 14h, e eles já iam iniciar. Fui até o escritório e adquiri o ingresso de 4 euros, e soube que no final ainda teria degustação. O que?

Eu não vou conseguir lembrar principalmente os nomes dados por aqui, mas este Museu passou por 3 fases históricas. Foi uma quinta e seu proprietário, vanguardista e com formação em engenharia, construiu uma enorme fábrica de vinhos, com conceitos de higiene inovadores para a época. Passamos por uma sala onde os tonéis são construídos pelos toneleiros, e tem uma aparência diferente, possuindo um afunilamento na parte superior, e abrindo-se novamente. Estávamos em 4 pessoas além da guia. A família com dois adultos e o Gonçalo de 10 anos. Mas muito observador e perspicaz, o que evidencia a educação recebida, formal e informal.

Aprendi que este afunilamento servia para evitar que o vinho derramasse em seu processo de fermentação, perdendo precioso líquido. Se fossem retos, uma área maior teria que ser deixada sem líquido para evitar o transbordamento.

Depois entramos num corredor com diversas garrafas que faziam parte da coleção do Senhor Paixão Marques, responsável pela terceira fase da propriedade, que após muitos anos como iniciativa privada, nas mão de seu fundador, José Eduardo Raposo Magalhães, passou para a Junta Nacional em sua segunda fase, dada a importância que o vinho tinha para a economia do país, e finalmente, em sua terceira fase, virou museu e acolhe artefatos de vinícolas de todo o país.

Foi o primeiro lugar que produziu vinho que já visitei, e posso dizer que já visitei muitos, no Brasil e fora dele, em que o vinho era armazenado em salas. Cada uma destas salas, que hoje abrigam os artefatos, tem a marcação da quantidade de litros que podiam armazenar. E algumas ainda tem o sarro nas paredes, que será mais escuro quanto mais escuro o vinho armazenado. O sarro e uma mistura de bicarbonato e cálcio que surgiam do contato do vinho com as paredes. De quando em quando, as salas eram totalmente esvaziadas para que este material fosse raspado das paredes, e vendido. Serviam até para alimentar animais de criação.

A visita que seria de uma hora acabou sendo de 2 horas dada a boa interação do grupo e curiosidade. Pudemos relacionar culturas.

E a guia foi procurando tornar agradável o discurso para entretar também o jovem Gonçalo que, em alguns momentos era convidado a realizar ações nos maquinários antes da explicação, como no caso da bomba para esvaziar o tanque após a moagem da uva, transferindo-o para as salas que já mencionei.

As uvas eram transportadas até umas portas duplas, dali entravam num carinho que separava o caroço, e depois iam para as prensas. O pai do Gonçalo explicou que o material que ficava prensado embaixo era cortado com machado e novamente prensado. Quando já estava duro e difícil de obter mais algum suco, juntavam água, e ao produto desta prensagem chamavam aguapé. É um produto para consumo rápido e de sabor suave.

Por causa desta explicação fiquei sabendo também da tradição chamada de dia dos bolinhos, dia primeiro de novembro, dia de Todos os Santos, onde as crianças passam nas casas pedindo bolinhos, e depois se juntavam nas vinícolas locais e comiam com aguapé. E ainda lembraram que o dia da prova do vinho era o dia de São Martinho, que é uma rima bem simpática e acontece no dia 11 de novembro.

Veja como as culturas se entrelaçam de formas nem sempre tão evidentes. A tradição americana do halloween, no dia 31 de outubro, o dia dos mortos e das caveiras, entre os de cultura espanhola. Certamente todas vindo de tempos ainda mais remotos... Tempo de celebrar as boas colheitas e de agradecer com dádivas.

O Museu tem ainda umas talhas, a mais antiga de 1650. Disseram que no Alentejo, atualmente uma das regiões com a maior produção do país, chamam a este Vinho de Talha. Ou pote, para nós. E também parecem câmaras mortuárias de povos ainda mais antigos. E também servem para armazenar outros tipos de líquidos, como o azeite.

Falando em azeite a guia nos disse que nas tabernas as talhas de vinho eram tampadas com uma camada de azeite, o que deu origem a uma expressão da época que era:

" Vamos soprar o azeite?"

Tem salas com miniaturas de vários tipos de carros de boi, de acordo com o local do país, diferenciados. Fiquei sabendo que eles chamam de carroças os que são puxados por muares.

Uma das salas ainda transpira vinho no calor, tantos anos fazendo o armazenamento entre suas paredes...

E junto a umas antigas talhas, um quadro representa o Deus Baco ou Dionísio, o Deus do vinho.

Ainda vimos algumas amostras da cerâmica daquele tempo. Parece que hoje ela está inserida em Caldas da Rainha.

E os destiladores de aguardente, que aqui são feitos com o que sobra do processo de fabricação do vinho. Citei a nossa água ardente, que chamamos de pinga, e vendemos barato, ou de cachaça, e agregamos valor, vendendo caro. A água que pingava do teto dos moinhos de cana-de-açúcar, quando este fermentava e evaporava. E ardia na pele machucada dos escravos que moviam os moinhos...

Uma prensa com o pé e o machado para cortar...Um purificador alemão... e os barris de carvalho, mãos modernos, apesar de muitas vinícolas hoje em dia utilizarem aço inox.

O mais interessante foi saber que todos estes espaços são utilizados para diversos tipos de eventos, desde festas casamentos e batizados, à colóquios, saraus, noites de fado, apresentação de danças, teatro...

As salas subterrâneas de armazenamento, hoje interligadas por portas.

Depois entramos numa área cheia de quadros gráficos que ela comparou com tabelas em Excell, Word  e Power Point da época, já com grafismos e propriedades de marketing. 

E finalmente a taberna com quadros de Touradas de Santarém, por que eram do gosto do JEM, e de festas tradionais regionais, o que deixou, segundo a guia, o local mais castiço. Perguntados, disseram-me que mais característico, típico e tradicional.

De lá segui para o Parque dos Monges, estava apertada para ir ao banheiro. Cheguei já eram quase 17 horas, o dia voou e eu aproveitei ao máximo. Até abusei. O celular estava com 14 por cento de bateria. Fui até a recepção e perguntei até que horas estavam abertos.

_ " Até às 19 horas', e como perguntei também o preço, e onde era o banheiro, ela já emendou, " o ingresso é no valor de 10 euros , e tem um banheiro ali fora, à direita."

Paguei, ganhei uma pulseirinha no braço que me permitia entrar e sair quando eu quisesse. Adivinha se eu não virei para a esquerda, andei, andei e não achei nada. Retornei, passei diante da recepção novamente e, lá estava o banheiro masculino, com o feminino mais atrás.

Fui para o carro para carregar o celular, mas impaciente, não tinha o que fazer enquanto ele carregava. Decidi ir para dentro e comer algo enquanto deixava carregando na recepção, como ela ofereceu.

Mas por fim, quando comuniquei minhas inteções, ela sugeriu deixar carregando no café. Assim fui até a taberna da Vila Medieval e pedi um leite Ucal.

_ " O que é um leite Ucal?"

_ " É esse aqui, com chocolate."

Vem numa garrafinha de vidro, e Ucal é o fabricante.

_ " Quero uma e um lanche de fiambre e queijo. E tmbém gostaria de deixar meu celular carregando, se for possível. A moça da recepção que sugeriu."

_ " O celular posso deixar cerregando aqui no computador, não vou precisar do plug, o Ucal posso servir, mas o lanche vou ficar devendo. Tem que esperar minha amiga..."

Fiquei só com o Ucal. Mas logo em seguida chegou uma moça e ele veio conversar comigo, que estava sentada no fundo da carroça de lanches, se eu ainda queria.

_ " Quero sim. E mais um Ucal, só que desta vez precisa sacudir a garrafa para misturar o chocolate."

_ " Ah. É mesmo, me desculpe."

_ " Não tem problema."

E logo ele me traz um lanche com um pão delicioso.

O celular carregou até 20 por cento, já vou conseguir tirar umas fotos do Parque. Já pude ver que é um lugar para adolescentes ou famílias. Eles oferecem alojamentos, até barracas de camping na beira do lago. E tem várias modalidades de atividades para distração das pessoas. Paint-boll, pista de kart, canoagem, arborismo, entre outros.

No mapa constava a existência de alguns animaizinhos. Circundei todo o lago para vê-los. Primeiro os roedores...

As alpacas... (ou serão lhamas?)

O macaquinho, coitadinho, sozinho vum viveiro tão pequeno.

O canguru me pareceu muito jovem, e na mesma condição. Fiquei com pena dos bichinhos. Eles tem um espaço grande. São 8 hectares. Podiam fazer algo melhor para os bichinhos.

E tem os guaxinins...

E os frangos de inverno, que já vem com polainas...

Cabras e bodes, pônei, gansos, patos...

Quando perguntada, ao sair, se gostei:

_ " Sim, apesar de entender ser um espaço mais voltado para o convívio de famílias com filhos jovens. E fiquei com dó dos animaizinhos, com tão pouco espaço."

Foi quando a moça me informou que eles acolheram os animais selvagens em condições inadequadas, por não terem onde deixar depois que foram recolhidos ou salvos, mas que a ideia é manter só os animais de Quinta, ou seja, de fazenda como as aves, os caprinos e os equinos. Os demias serão realocados.

Se não falo nada, ia ficar com má impressão do Parque, quando na verdade eles fizeram o papel social.

Depois disso fui para Nazaré, cansada e satisfeita. Chegei antes de escurecer, ainda bem. Já não tenho companhia no quarto, então, esta noite, será como se estivesse num hotel.

Assisti um filme legal outro dia, chamado Thi Mai, sobre a adoção de uma vietnamita, um filme espanhol. E hoje vi um sobre o dia das mães, onde três amigas que moram na mesma cidade, e criaram seus filhos, que também são amigos e vivem em Nova York, uma comédia gostosa. A internet está ruim para carregar as fotos e eu com uma preguiça danada de escrever.

Amanhã, Peniche.