17 DIAS NA BAHIA – SALVADOR NOVAMENTE PARA ENCERRAR

31/10/2020

Os 250 km de estrada entre a Praia dos Algodões, em Maraú, e Bom Despacho, uma das saídas do Ferry Boat para Salvador, leva cinco horas para ser realizado. Isso sem paradas. Mas é impossível para mim fazer todo este tempo sem parar para beber água ou ir ao banheiro, e esticar as pernas. Mesmo sendo o carro muito confortável, com câmbio automático, as pernas vão cansando de ficar na mesma posição.

Logo que saímos na parte asfaltada da BR-030 minha mãe viu uma vendinha de bananas, a beira da estrada, e me pediu que, se visse outra, parasse.

Demorei de avistar outra, e ela estava numa das cidadelas do caminho, e do outro lado da estrada. Minha filha a acompanhou por questão de segurança. E logo depois voltas ambas muito contentes, dizendo ter feito a feira. Compraram uma penca de enormes bananas prata por R$ 5,00. E mamão. E doce de cacau. E castanhas de caju. Gastaram pouco, ficaram felizes e fizeram a felicidade da vendedora, que vendia produtos colhidos no quintal, ou preparados pela família.

Nossa próxima parada foi em Valença, numa churrascaria a quilo dentro de um posto de gasolina. Isso foi perto das 13 horas. E ficamos por ali uns 30 minutos. A comida era razoável, menos o churrasco, muito assado, ou melhor dizendo, passado. E com bom preço. E por ser buffet, a comida está pronta e cada um come o que gosta. Minha mãe pegou novamente o vatapá, que ela adora, e comeu á vontade nesta temporada na Bahia. Eu peguei sarapatel, que também adoro mas, por ser feito de miúdos, não é unanimidade nem entre os nordestinos.

A estrada só estava com o asfalto bom no último trecho. A sorte que o tráfego também era pequeno, o que permitia manter uma velocidade constante, em torno dos 80km/hora permitido, sem comprometer a segurança.

Chegamos a Bom Despacho e a fila para o embarque no ferry Boat era pequena. Até poucos dias atrás, o horário estava reduzido bem como o número de travessias, e o agendamento prévio cancelado.

Pegamos o ferry das 17 horas para fazer a travessia da Baía de Todos os Santos em aproximadamente cinquenta minutos. A travessia é muito tranquila, sem ondulações da água que possam causar enjoo. Pelo menos em dias sem ventos e chuvas.

Apesar do controle de usuários não ser efetivo, sei que recomenda-se não permanecer nos veículos por questão de segurança. Em caso de um naufrágio, os salva-vidas encontram-se disponíveis nas áreas destinadas às pessoas. E você pode ficar preso num carro submerso. E subimos, atrás de minha mãe e prima, que foram procurar um local interno perto das vidraças, para ter a vista melhor. E os bancos estavam marcados com 'X' em fitas adesiva vermelha, um sim, um não, para que as pessoas pudessem manter o distanciamento social indicado pelas autoridades sanitárias devido à pandemia. Minha filha sugeriu irmos para o lado de fora, e encontramos dois lugares, distante uma da outra. No entanto, ao meu lado tinha dois mancos demarcados e vazios. Minha mãe veio ver onde estávamos e voltou para dentro quando mostrei que ali ela não poderia sentar-se. Passados alguns minutos, lá vem ela de volta, desta feita com minha prima a tiracolo. Ela sentou-se ao meu lado, no banco impedido. E como não restasse outra opção, minha prima sentou entre ela e um senhor que ali estava antes mesmo de eu me sentar. O homem reclamou:

- Aí não pode sentar minha senhora?

E antes que a confusão aumentasse, afinal eu já a tinha avisado, levantei-me e fui para a amurada, em pé. Olhei para o homem que também se levantou e pedi desculpas. Um pouco depois minha filha também estava ao meu lado. Contou-me que um homem sentou-se ao lado dela e se levantou ao ser advertido por ela. Mas daí veio uma moça e sentou sem nem dar atenção a nada. E ele voltou a sentar-se. Daí minha filha saiu.

Entramos e eu achei um lugar. Ela ficou em pé por um tempo. Eu sugeri:

- Procure lá do outro lado se não tem lugar para sentar.

Ela foi, achou, confirmou com o polegar em riste e sumiu. Eu fiquei dentro da parte fechada, sem ar-condicionado, e observando o comportamento dos demais passageiros. Alguns estavam respeitando todas as recomendações, mas tinham muitos sem máscaras, alguns até vendendo coisas como refrigerantes e salgados. E gente comprando, sem nenhum cuidado na higienização das mãos ou das embalagens.

Daqui a pouco começa uma gritaria. Dois homens e uma mulher. Era uma encenação. Um teatro. Incomodou-me. Pelo descumprimento das regras, pela falta total de controle dos responsáveis, aliás, pela falta de responsáveis, e talvez porque eu já estivesse incomodada, cansada com o tempo de viagem e tensão da estrada, e irritada com a incoerência de quem tem conhecimento para fazer a diferença, mas decide fazer diferente.

Decidi sair pois percebi que a embarcação já se aproximava de São Joaquim, em Salvador. Fui para o lado em que estava minha filha e ela desceu comigo em direção ao carro. Lá embaixo algumas pessoas estavam dentro dos veículos. E até um cavalo era transportado com seus olhos tampados. Pouco tempo depois minha mãe e prima desceram e nós todas entramos no carro porque o Ferry já encostara no cais. E todas as pessoas se preparavam para sair, tanto pedestres como carros. Maiores de 65 anos não pagam pela travessia. O motorista só paga pelo carro de acordo com o porte do veículo, e os passageiros de até 65 anos pagam o mesmo preço dos pedestres.

Resolvi que não iria comentar o ocorrido e passar o pano do quase esquecimento na lousa da vida, só para não entrar em conflito desnecessário. Se sempre fui daquelas que paga para não entrar numa briga, estou ficando cada vez mais calada. Ou tentando. E o clima ficou bem ameno. Conversei com minha filha antes, para ela também não falar nada.

Já era noite quando descemos com o carro em São Joaquim. E fomos direto para o Hotel, desta vez para o Mercure Boulevard. Avisei o filho de minha prima que ela ia dormir mais uma noite conosco, mesmo sendo aniversário do neto dela. Eles moram em Itapuã, do outro lado da cidade, e já estávamos todas muito cansadas para fazer mais essa excursão.

Nem tomamos banho para ir ao Shopping Salvador e jantar. Lógico que sem minha mãe que, a medida do possível preferia ficar no quarto, comendo frutas e descansar. Achamos um Restaurante Árabe, Faid, se não engano. Minha prima não conhecia. Pedimos um trio de pastas: homus, babaganuche e coalhada seca com pão; esfihas fechadas de carne, quibes fritos. E minha filha pediu um kebab. Tudo muito delicioso. É lógico que a fome é um excelente tempero.

E depois só eu quis comer um pedaço de bolo de chocolate com cerejas. Meu olho já tinha crescido quando entramos na Praça de Alimentação, passando por duas confeitarias.

No dia seguinte fizemos uma programação bem suave, primeiramente levando minha prima até sua casa, junto com uma mochila de roupa suja, minha, que ela se prontificou a lavar. Fiquei muito agradecida, já que nessa pegada de não ter casa, ainda, estou agradecendo as colaborações. Aproveitamos para repassar algumas informações da viagem para meu primo, filho dela, o Alexandre, que presta serviços de concierge na Bahia, principalmente em Salvador, e tem uma página no Instagram denominada @nativos.tourr. Ele conhece tudo em Salvador, e basta você mencionar um desejo para ser atendido, das maneiras mais inusitadas possíveis.

Meu outro primo nos convidou para almoçar com eles em Lauro de Freitas. Minha prima se dizia tão cansada que sentenciou:

- Vou passar dois dias sem sair de casa.

Eu confirmei com os primos e lá fomos nós para onde? Restaurante Picuí. Quem me segue sabe que esta rede de restaurantes me cativa. A melhor comida que já comi na vida foi nus restaurante do Picuí, em Caruaru. Nem sei se ainda existe. Isso foi em 2012. Eles servem carne de sol preparadas divinamente. E lá chegamos encontrando meu primo com a esposa, já numa mesa redonda de seis lugares. Eles respeitam os protocolos com rigor, afinal, moram com minha tia, de 93 anos, que já não sai de casa desde março.

Minha mãe pediu um prato individual de filé mignon (carne de sol também), e o nosso era com contrafilé. E junto veio um tal de pirão de leite, que também foi minha primeira vez, feito com leite, sal, farinha e queijo coalho. Hummm!

Depois desta comilança, nos despedimos, combinando novo encontro dia 27, ter-feira, no almoço, para as comemorações de meu aniversário. E voltamos para o hotel. O tempo não estava lá esta maravilha e nós ainda carregávamos um pouco do cansaço de toda a viagem. E o quarto era ótimo. Esgte Mercure é residencial também, então o quarto é conjugado com uma sala, um espaço que é escritório, mas pode ser transformado em cozinha, e até uma lavanderia. E eu fiquei só, de modo que consegui aproveitar s comodidades para escrever meu blog, já que o Wifi também estava ótimo.

No dia seguinte eu perguntei, logo cedo, no grupo de Vaigem que formei no Waht'sApp, se o pessoal topava ir ver o Projeto Tamar, na Praia do Forte. Logo em seguida, minha prima que ia ficar dois dias de molho em casa se manifestou:

- Eu quero. Passe aqui em casa que é caminho.

E depois do café da manhã, que pode ser servido no quarto ou no refeitório, mas que já vem num tipo de bandejão com tampa, com dois itens de frutas, três pães, um bolo, uma fatia de queijo e uma de presunto, açúcar, adoçante, manteiga, sal, geleia, mel ou requeijão. Acompanhado de ovos mexidos, que sempre dispensamos, e tapioca a escolher o recheio, se quiser. Tapioca eu sempre queria, salgada ou doce.

Na hora de minha filha colocar a Avenida Dorival Caymmi, o aplicativo nos indicou Águas Claras, e como tinha uma lagoa perto, achamos que estava correto. Mas logo percebi que não estava bom aquele caminho, quando uma placa para o aeroporto foi desprezada pelo aplicativo, e tivemos que seguir em frente. Passamos uma mensagem para minha prima que nos forneceu o endereço correto. E tivemos que dar uma volta enorme, atrasando um pouco a viagem, quem está de féria pode parecer que não tem hora, mas queríamos almoçar num restaurante em Salvador, na volta, que, de domingo, fecha às 17 horas.

Mas tudo correu bem e percorremos os 50km que faltavam até a Praia do Forte com tranquilidade, apesar do trânsito intenso dos soteropolitanos que deixavam sua cidade de praias impedidas para aproveitar o final de semana na vizinhança.

Fiquei impressionada com o crescimento do local. Já estivera ali, com minha filha e meu falecido marido há mais de 10 anos. E foi difícil achar o Projeto Tamar no meio do nada. Hoje ele está inserido num dos 'points' da cidade. E o agito era grande. Deixamos o carro num estacionamento que cobra R$ 30,00 sem limite de horário. Mas como eu tinha limite, ele deixou por R$ 20,00, mesmo me dizendo:

- Ninguém vem para Praia do Forte para ficar só duas horas.

Desde a sede do Projeto Tamar, cujos ingressos são pela metade do valor para idosos, estudantes e membros das Forças Armadas e, só eu paguei inteira, é possível avistar o mar, já que ele se encontra na beiradinha da praia. E lá dentro têm vários tanques, com as principais atrações, algumas tartarugas marinhas gigantes, de quatro espécies diferentes que habitam nossas praias.

Mas tem também tubarão lixa, arraia e tartaruga albina.

E tartaruguinhas recém-nascidas num núcleo representativo do processo de eclosão dos ovos até a chegada ao mar. Elas tinham somente 15 dias. E são tão pequeninas para enfrentar o hostil meio marinho. Poucas são as que atingem a idade adulta.

Passamos pela lojinha do Projeto que eu sempre gosto de colaborar.

E já fomos para a rua. Minha prima, que tomou café da manhã bem mais cedo, já estava com fome, e foi comer um acarajé. E nós fomos na dela, mas comprando uma porção no prato, com bolinhos pequenos, e mais uma vez minha mãe comeu vatapá.

E parece um longo percurso para fazer uma visita tão curta, mas é melhor que ficar parado no hotel fazendo nada. E este tempo de viagem é como passear em São Paulo com trânsito intenso por menos de 20 km. E só de ver a praia, as pessoas se divertindo, as barraquinhas vendendo badulaques. E tinha uma loja com umas manequins baianas que me apaixonei.

E logo retornamos, deixado minha prima em casa e seguindo, com pressa, para o Restaurante Barbacoa, de Salvador. Era um dos itens da lista de desejos de minha filha ao programarmos a viagem de férias. Chegamos lá às 16h15. E na porta constava que o horário de domingo era 16h30, mas a porta estava trancada. E uma névoa de decepção cruzou o olhar dela. Mas ainda esperançoso. E valeu a pena. Logo surgia um hostess, abriu a porta e nos conduziu a uma mesa para elegermos nossos pratos. Os pratos que escolhemos foram individuais. Minha mãe tem dificuldade para comer carnes fibrosas ou duras. Então decidimos por duas carnes, e três buffets, sendo que eles cobram um acréscimo no buffet de 25% para a terceira pessoa.

Pedimos um T-Bone bovino, e uma costela, acompanhadas de farofa especial e cebola assada. E o buffet é bem completo e rico. Assim como o preço final. Mas já esperávamos ambos: qualidade e valor. Digo que não é caro o que satisfaz e cabe no bolso. E tomamos vinho, um Malbec Argentino: La Linda. Saímos felizes e isso é o que importa.

Naquele momento pensei até que não ia ter janta. Ledo engano. Pizza delivery direto no hotel. E todas comemos.

Na segunda-feira, dia 26, já estávamos combinadas para sair com a minha prima. Ela pegou carona com o neto mais velho e trouxe minha mochila de roupas limpas. Muito agradecida! E foi muito pontual: 10 horas.

Nosso primeiro destino foi o Dique do Tororó. Um local que passei muitas vezes de carro, mas que não me recordava de ter parado para fotografar. Pensando bem, agora, me vem a lembrança de já ter feito isso. Mas não há problema. O gosto foi de novidade. E gostei de ver os Orixás na água (divindades da religião iorubá representados pela natureza). E no entorno tem umas árvores frondosas, com alguns troncos enormes e decorados, uma mais bonita que a outra. Escolhi a mais exótica como a que mais me agradou, para fazer fotos minhas e do lugar.

E seguimos para o Mercado Modelo, lugar sempre visitado por nós e que insistimos em revisitar. É uma delícia achar artesanato local e roupas características. É o local das lembrancinhas, e de completar as malas de viagem. Mas nos admiramos como está organizado e limpo. Inclusive externamente. E estava tão vazio como nunca vi. E foi bem fácil achar as coisas que nos interessaram, com muitos simpáticos vendedores, característica do baiano exacerbada pela necessidade do momento.

Quando saímos dali a chuva começou, fraca. Eu e minha filha fomos deixar as coisas no carro e as demais ficaram à porta do Elevador Lacerda. Também estava tranquilo demais. Na primeira descida do elevador nós já entramos, depois de pagar R$ 0,15 cada, menos as idosas. Rs

Gente, quem acha que já é possível viajar, observando as regras de higiene e segurança, como nós fizemos, aproveite. O turismo do Brasil agradece e está nos recebendo de braços abertos, e toques de cotovelo, já que abraçar não pode. Uma tranquilidade nunca vista por mim, em inúmeras vezes que já fui à Bahia, em diferentes épocas do ano.

Fomos passando pelos prédios já conhecidos, registrando em fotos e fatos nossa passagem. Rumo ao Restaurante do SENAC, outro velho conhecido que, no passado, achava caro. Mas agora está R$ 39,00 por pessoa, com buffet livre, com uma infinidade de comidas típicas. Sobremesas e bebidas a parte. E fica ao lado da linda Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, na qual acontece uma missa com elementos afro, que já tive a oportunidade de assistir parcialmente uma vez. E é linda. Mas acontece duas vezes por semana somente, eu acho que no domingo e na terça.

Eu comi xinxim de galinha, efó (que é feito com espinafre), moqueca de arraia, todos estes ainda não conhecidos, e vatapá e caruru que já comi.

Chovia quando saímos. E a volta é pela ladeira do Pelourinho, subindo.

E o povo se manifestou contrário. Descemos um pouco mais até um local em que era possível o trânsito de veículos. E tivemos que solicitar dois carros. E antes de pedir, divaguei. E disse:

- Podemos colocar uma parada em Itapuã e depois o destino final no hotel.

- E o seu carro? - perguntou minha prima.

E todas ficaram olhando para minha cara com aquela expressão de: "você tá louca?"

E percebi meu engano e sorri. Todas nós tivemos a oportunidade de gafes, umas mais que as outras. Esta não foi a única minha.

E logo que peguei o carro, fomos para Itapuã deixar minha prima e já retornamos ao hotel. Era hora de ajeitar a bagagem e fazer caber nas mesmas malas que vieram. Antes de eu fazer o check-in para saber se teria que despachar mais alguma mala no porão. E conseguimos. As malas de mão estavam um pouco mais pesadas do que o permitido, ao menos uma delas. Minha mochila que foi só com o computador e uma toalha de praia voltou lotada, e a mala despachada que veio com pouco mais de 15 kg, retornou com 21,6 kg.

E nesta última noite pedimos lanche no restaurante do hotel, dentro do serviço de quarto.

No dia seguinte saímos logo às 10 horas com tudo pronto. Fiz o check-out e fomos para A Casa do Rio Vermelho. A casa de Jorge Amado e Zélia Gattai no Rio Vermelho. Ingresso de R$ 20,00 inteiro e meia para estudantes e idosos. Usamos o elevador, minha mãe e eu. E o segurança de nome Jorge foi chamado para liberar o elevador. Quando falamos com ele:

- Você é o Jorge?

- Sim, mas o querido, não o Amado.

Divertido. Adoro este humor sagaz.

E lá em cima a Joice nos esperava e nos conduziu pela casa, apresentando-nos a sala, o quarto de visitas, cuja colcha estilo patchwork me encantou. A cozinha da casa antiga e da casa agregada com a compra do terreno vizinho. Toda aquela decoração tão característica. Alguns vídeos com a declamação de algumas obras. A descoberta de que o sapo era o bicho querido do Jorge Amado, e ele tinha muitos adornos deste bicho por toda a casa e pelo jardim. E suas cinzas, da esposa e dele, estão enterradas no jardim sob dois destes espécimes. E ele dizia que, se fosse um bicho, seria um sapo. Tem sentido. E ao ver as corujas, pensei: " E a Zélia seria esta ave, creio."

Ao escrever vou tendo uns 'insights', com a sensação de 'dejà vu'. Creio que apaguei algumas memórias, num instinto de proteção. E, se agora retornam significa que já estou pronta para abrir a Caixa de Pandora, com os males que me atemorizam.

Aproveitamos para comprar livros, do Jorge para minha filha, que nunca o leu, apesar de ser uma grande leitora. E um da Zélia, para mim, que não a li, ainda.

E já fomos para o Restaurante da Dona Mariquita, passando antes na doceria ao lado para pegar o bolo encomendado por minha filha. Mas que ficou de ser entregue no restaurante já que chegamos um pouco antes do horário marcado.

Pedimos uma mesa para dez pessoas e onze estiveram presentes, sendo que uma virtualmente, direto da Alemanha. A filha de minha prima, que reside naquele país, e é uma das pessoas queridas que me acompanham nas aventuras, através de meus relatos do blog. Sabendo da reunião, ligou para me parabenizar. E estavam ali sua mãe, irmão e sobrinho. Seu pai e madrasta. Meu outro primo e esposa. E as três viajantes paulistas. Senti a falta de meu tio, mas ele estava trabalhando e não pode comparecer. E a tia não foi pela idade e por ser do grupo de risco. Mas ela mandou presentinho. E recebi dos demais também, mas sem necessidade. A presença de todos foi o meu maior presente.

O Restaurante Dona Mariquita, na Rua do Meio, próximo a Praça Dona Mariquita, tem o título de Patrimônio Gastronômico da Bahia. E vieram para mesa Bobó de camarão, moquecas de peixe e camarão, feijoada de andu, poqueca de camarão, e para o pequeno, que completou 6 anos dia 23, um prato kids, com frango cortadinho, arroz, feijão e farofa.

A Poqueca é algo bem diferenciado, é servida em uma folha, talvez de bananeira, feita de camarão fresco e defumado, um pouco apimentada para meu gosto, mas estranhei só a princípio, depois me habituei. E junto, para contrabalancear, tinha um acaçá de leite, que também vez embrulhado na folha, é cozido como a pamonha, mas é com farinha de milho branco. E tem sabor neutro.

Se a comida era nota 10, o serviço foi carinhoso, e a companhia nota 1000. É muito bom poder reunir a família para comemorar o aniversário depois de ter passado 15 meses no exterior, sozinha. E ter passado o último aniversário também sozinha. Mesmo que na Islândia, com direito a aurora boreal. E o valor só aumenta quando sabemos que nesta época de pandemia está tão difícil reunir as pessoas queridas. Mas eu estou completando mais um ano de vida. E neste momento, alguns dias e horas a mais, e não sei quando serão os derradeiros. E, considerando minha história de vida, tenho pra mim que o mais importante neste mundo são as pessoas que conhecemos, os sentimentos que demonstramos, os lugares e coisas que conhecemos e como estes nos inspiram, pessoas, lugares e coisas. E nos transformam. E minha vida bem como o ano de 2020 terá sido realmente desperdiçado se eu não puder fazer esta troca virtuosa, nem que seja virtual.

E com isso terminam nossos 17 dias na Bahia, ainda com direito a um falso UBER no aeroporto de Guarulhos, que se apresenta como prestador de um novo serviço onde a chamada é iniciada pelo aplicativo do motorista. Trouxe-nos direitinho, mas é picareta. Está se passando por alguém que não é. Abaixo as fotos do cidadão e do carro. E ele sabe da dificuldade de denunciá-lo para a UBER, por isso mesmo se aproveita.