17 DIAS NA BAHIA – Primeiro FINAL DE SEMANA e FERIADO SANTO

14/10/2020

Minha filha saiu de férias e resolvemos fazer uma viagem pela Bahia, rever a família e conhecer alguns novos lugares desta terra de meus antepassados. Num primeiro momento pensamos em visitar a Chapada Diamantina, passando por Salvador, onde tenho tia e primos, Jacobina, terra onde moravam meus avós paternos e ainda vive o irmão mais novo de meu pai, por Termas do Jorro para conhecer a minha prima mais velha, a única da família que não conheço, e revisitar meus primos na cidade de Wagner, às portas da Chapada Diamantina, e aproveitando para conhecer muitos dos recantos em torno de Lençóis e Mucugê. Mas o destino não quis que fosse assim. Ao nos informarmos sobre a situação da pandemia do Covid-19 por aquelas paragens, soubemos que o isolamento social foi instituído mais tarde, quando os primeiros casos surgiram. E que a previsão era de que o Parque Nacional da Chapada Diamantina ainda estivesse fechado para visitação no mês de outubro.

Cancelo reservas de hospedagem, e reinicio a programação de viagem que tinha feito ainda em Portugal. Chegando ao Brasil no final de agosto, aproveitei os dias de quarentena para decidir fazer a viagem para o litoral sul da Bahia, chegando até Ilhéus, passando por lugares já visitados por mim, e outros não, mas que seria novidade para minha filha, a principal participante desta viagem, já que as férias são dela.

Decididos os destinos, com a passagem aérea já adquirida através do Programa Smiles, da Gol, tinha que encaixar as atrações no intervalo de 15 dias, entre 11 e 26 de outubro. E inquiri a rede hoteleira sobre a situação das permissões nos locais desejados. E logo em seguida ficamos sabendo das queimadas na região de Mucugê, entendendo que aquele não era realmente um destino satisfatório para este momento. E graças a Deus, com a mudança na direção dos ventos e um pouco de chuva que caiu na região, o fogo foi contido. E eis que recebo um e-mail da Gol cancelando o voo de volta. E mais adiante outro e-mail alterando o horário da vinda para o final da tarde.

Já que o voo de volta foi cancelado, e a festa de aniversário que eu queria fazer no final de semana dos finados não ter a adesão desejada, eu resolvi alterar o retorno para 28 de outubro e comemorar meu aniversário em Salvador. E assim o cancelamento do voo foi novamente oportuno. Será que sou abençoada porque me sinto assim? Ou me sinto abençoada porque estas coisas acontecem comigo?

Quanto ao voo Gol só tenho duas observações a fazer: saiu com um pequeno atraso de 20 minutos por troca de aeronave; e milagrosamente, após as instruções da comissária de bordo para que os passageiros permanecessem sentados até a autorização da tripulação, descendo primeiro as fileiras iniciais, e as seguintes, consecutivamente, serem obedecidas na íntegra, e onde nenhum passageiro se levantou assim que a aeronave parou, me causou assombro e gratidão. Que a doença e a pandemia sejam motivo de obediência às regras, respeito e educação, me faz acreditar que só por isso já valeu a pena toda essa dolorosa experiência.

Fomos até a Localiza com um Van disponibilizado pela companhia e pegamos um Virtus da Volkswagen, já que, por viajar com minha família, achei necessário oferecer algum conforto para elas. Uma de minhas primas, que mora em Salvador, seguiu viagem conosco. È um presente que ela está se dando, creio, devido ao seu aniversário na próxima sexta-feira. E o carro, sedan, atende bem nossas necessidades. Ainda assim vou tentar trocar amanhã por um 4x4 já que passaremos por Maraú, e lá existe um trecho de estrada de areia que judia de outros veículos.

E fomos direto ao Mercure Salvador Rio Vermelho, com reservas feitas pelo Clube de Turismo da Bancorbras. O hotel tem piscina com borda infinita, e boas acomodações. Precisam ser atualizadas, mas ainda assim oferecem bastante conforto. Só o estacionamento que deixa muito a desejar. Jantamos num restaurante com comida árabe ali na vizinhança, chamado Pasagarda, que só valeu mesmo pelo atendimento da garçonete, muito simpática, mas que ofereceu comida boa com toques de desastre em todos os itens solicitados. E os preços não são condizentes com o resultado.

O dia seguinte, sendo feriado Santo, dia da padroeira do Brasil, Nossa Senhora de Aparecida, não ofertava muitas opções de passeios, e com a pandemia nem eventos aconteceram. Mas isso não seria problema, já que iríamos encontrar no horário do almoço alguns parentes queridos.

Após um café da manhã com regras muito adequadas à situação de higiene demandada que, aliás, gostaria que permanecessem após tudo isso passar, já que o uso de máscaras no autosserviço de Buffet é extremamente aconselhável a qualquer tempo. Ainda tivemos que higienizar as mãos com álcool e vestir uma luva plástica para pegar os talheres de serviço dos alimentos.

Fomos depois conhecer a piscina, ver a Praia do Rio Vermelho, logo ao lado do hotel, e caminhando até a Praia do Buracão, que como todas as demais da cidade, estão interditadas aos finais de semana e feriados devido à pandemia. Mas nossa intenção era só tirar fotos e conhecer mesmo. No caminho ainda vimos muitos saguis caminhando sobre os fios de eletricidade, entre os postes. E seguimos sob um sol escaldante até a Praia de Amaralina, onde nos arriscamos a colocar o pé na água. Mas de onde também voltamos de UBER para não cansar demais a minha mãe, que já achou o percurso de ida exaustivo. O isolamento prolongado debilitou-a, e a muitos, que cessaram a movimentação e enferrujaram as articulações, e amoleceram a musculatura.

Um homem, revoltado com o fato de uma carreata a favor de um candidato a Prefeito aglomerar pessoas na rua frontal, e a praia vazia estar interditada para banhistas, esbravejando, entrou de roupa e tudo na água e tomou uns caldos das ondas, mas que, além de o derrubarem também levaram embora qualquer mau-humor. O que não faz a água salgada e o sol?

Na hora do almoço seguimos para a casa de minha tia, e sem abraços e beijos, mantendo a distância social e as máscaras, na melhor intenção de preservar minha tia nonagenária, contentamo-nos em sorrir com os olhos e driblar as saudades com histórias das boas lembranças que o tempo não consegue apagar, e que criaram laços indestrutíveis, que a distância não desfaz. E não bastasse toda essa alegria, ainda tivemos a satisfação de comer, ofertado pelos primos e anfitriões, deliciosos pratos típicos pelas mãos da cozinheira, mais que Masterchef: Gil. Caruru, vatapá, feijão verde, galinha ensopada, frango frito, banana da terra frita, em fatias. E arroz. A salada deu um colorido à mesa, mas não teve vez no meu prato, não desta vez. E o doce e digestivo abacaxi de sobremesa abriu espaço para o delicioso pudim de leite, feito por minha prima. Papo vem e papo vai, mas a hora de seguir em frente e deixar de abusar da boa disposição da família em receber-nos, motivo pelo qual eu só posso agradecer, era chegada.

E já no hotel, minha filha se prepara para tomar um banho naquela diferenciada piscina, enquanto minha mãe resolve tirar um cochilo e eu decido acompanhar minha filha, mas só observando a partir das mesas, tomando um drink, quem sabe... Mas logo em seguida recebo a informação de que um tio, que não via desde 1986, estava já nas proximidades do hotel. Descemos então para a recepção, eu e minha filha, para perguntar se era possível ficarmos conversando na beira da piscina. E quando chegamos ao Lobby, minha prima já estava com seu filho, na fila para ser recepcionada. E num instante estávamos ali reunidos, sangue do sangue, que fala mais alto, mesmo que décadas de histórias pessoais nos tenham separado, e logo estamos em torno de uma mesa, aguardando minha mãe para sairmos, já que nosso pedido não podia ser atendido pelo hotel.

E lá vamos nós para o Largo da Dona Mariquita, comer acarajé da Cira, um dos melhores e mais famosos de Salvador, servido a moda francesa, segundo as funcionárias da barraca e, sentados os seis à mesa de uma lanchonete próxima, bebemos e conversamos até quase 22 horas. E foram tantos risos loucos... E foi tanta felicidade que toda cidade se iluminou. Hoje entendo estas linhas da música de Chico Buarque. Quando a gente está feliz o mundo se ilumina, e a gente nem percebe quem está em volta. Parece que todo mundo está com o mesmo sorriso que a gente na cara. E ficamos tão atraentes que muitas pessoas se aproximam, como as mariposas em volta da lâmpida (de Adoniran Barbosa).