17 DIAS NA BAHIA – MORRO DE SÃO PAULO - Piscinas Naturais na Quarta Praia e a Vila

20/10/2020

A travessia de lancha entre Boipeba e a Ilha de Tinharé, onde fica Morro de São Paulo, demorou poucos minutos. E do outro lado o motorista da Toyota já nos aguardava. Colocou as malas na caçamba e minha filha quis ir lá também, mesmo sendo advertida quanto aos pulos. Eu me sentei ao lado dele, minha mãe e prima foram sentadas no banco de trás e, mesmo dentro, as sacudidas foram muitas. É um trecho de uma hora de off-road, com muita areia e vegetação nativa. Avistamos uns carcarás. O motorista disse que é possível ver ainda raposas, gambás, sapos e muitas cobras. Ao longe eu vi um grande rio, mas ele disse que não o atravessaríamos. E passamos por um campo grande, com um pequeno avião estacionado. Ainda passamos por um povoado onde mora a maior parte do pessoal que trabalha em Morro, já que lá é tudo voltado para o turista.

O ponto final de transportes é na segunda praia, e contratamos o carreto para poucos metros, pagando 40 reais, preço abaixo da tabela, mas o carregador ficou feliz porque a distância era de somente 300 metros e no terreno plano. Tanto que já se comprometeu a nos esperar no domingo cedo para fazer o percurso contrário.

A Pousada Morro de São Paulo fica na rua de trás da rua da praia. E o Marcus, proprietário, conseguiu transformar nossa acomodação para dois quartos duplos, o de número 1 e o 5. No primeiro ficaram minha mãe e filha. Mas o quarto não tem janela para o exterior, e mesmo com o ar-condicionado, fica muito abafado. Ainda bem que foram somente duas noites, e durante a primavera. Mas o preço e a localização são excelentes. Nosso quarto era um pouco maior, e dava para a rua. Assim, tinha janela. E por motivo de reestruturação, o café da manhã foi servido em uma Pousada no final da rua, a poucos metros de distância. O que não gostei é que não havia nenhum protocolo de higiene por conta da pandemia. Mantivemo-nos de máscara e procuramos manter a distância pessoal. Além disso, no segundo dia, chegamos no horário marcado para o início, 8 horas, e os itens de café da manhã ainda não estavam prontos. Acho isso pouco profissional, um descaso com o público. Sempre fui muito exigente, enquanto profissional, neste quesito.

Como chegamos lá no final da tarde, só nos acomodamos e já fomos procurar o jantar, após um dia exaustivo de praia em Boipeba. Era o dia de aniversário de minha prima. Arrumamos um restaurante bem próximo ao hotel, com música ao vivo e pé na areia, onde solicitamos um prato preparado para três pessoas. Linguine com molho de gorgonzola, camarão e funghi. Minha prima disse não gostar muito do queijo gorgonzola puro, mas no molho ela aprovou. E as porções já vieram servidas em três pratos. E estava mesmo muito bom.

Enquanto preparavam nosso jantar, eu fui até o restaurante Funny, onde me disseram que acharia bolo para comemorarmos o aniversário. E achei um do exato tamanho necessário. O cantor puxou um: "Parabéns a você..." e ela apagou uma das velas que enfeitava a mesa. E, apesar de só estarmos em três, as mais jovens, foi uma alegre comemoração.

E deitamos super cedo novamente. Mas o dia seguinte prometia, já que seria o único no Morro.

E logo após o café da manhã nos dirigimos à terceira praia de onde saíam muitas excursões de barco para os diversos pontos da Ilha. Sentamo-nos junto a um vendedor de coco e água que se intitula: Parada Obrigatória. Pedimos ali quatro cocos, e dois pequenos pastéis recheados com banana da terra que, se não me engano, denominam paste real. E aguardamos terminar a muvuca. No entanto, antes de reiniciarmos nossa movimentação o Carlos Guia apareceu. Habitante do Morro, ou do povoado vizinho, já fez de tudo um pouco nestas paragens e convenceu-nos a seguir adiante até o restaurante "Piscinas", que fica já na Quarta Praia. Ele explicou para minha mãe que era logo ali, depois das pedras, e que conversando e andando se vai longe sem perceber. E não é que fomos mesmo!

Chegando ao restaurante, procuramos logo uma boa mesa sombreada e com boa ventilação. Mal nos acomodamos, ele perguntou:

- Alguém quer ir logo ali à frente, onde tem umas barraquinhas de caipirinha?

- Eu vou, disse.

- Eu também, disse minha filha.

Eu, na verdade, queria ir adiante para ver melhor as piscinas naturais. Em frente ao bar as piscinas estavam muito distantes, devido à maré vazante. E mais lá na frente me pareciam mais próximas.

Os dois pararam no quiosque da Ana, a bela Ana, que o Carlos chama de cunhada, já que o marido dela é 'brother' do guia desde menino. E minha filha pediu uma caipirinha. Enquanto eles todos ficavam lá, conversando, fui apreciar as piscinas. E que delícia. Rasas, quentes, transparentes, vazias. Entrei com muito cuidado para não remexer a areia do fundo deixando a água turva. Logo adiante duas crianças brincavam com um escorredor de macarrão redondo, em plástico. Perguntei-lhes:

- O que estão fazendo?

- Pescando.

- Que legal! Olhem, tem uns peixes aqui.

E os dois disputavam de quem era à vez de pescar, da menina ou do menino. Pareciam irmãos.

E uns dois ou três casais de namorados desfrutavam a paz e a companhia dos parceiros.

Rodeei um pouco por ali e voltei quando minha filha iniciava a segunda caipirinha. Sentei-me um pouco, fiz uma foto e logo decidi seguir adiante, com a promessa de retornar com o dinheiro para pagar as bebidas. 

Mas, ao chegar à nossa mesa, vi minha mãe sozinha. E minha prima acabara de ir em direção ao mar. Assumi o cuidado de nossos pertences enquanto ela ia se juntar à sobrinha.

Já que ia ficar sozinha, pedi uma caipirinha de seriguela. O legal daqui é a diversidade de frutas que podem ser colocadas nas caipirinhas. E fica uma melhor que a outra.

Um senhor passou vendendo queijo coalho assado. Eu sabia que minha filha estava com vontade de comer essa iguaria. Chamei-o e encomendei logo quatro, um para cada, mas só o meu devia ser preparado, já que as demais não estavam presentes.

Terminei de comer meu queijo com orégano quando minha filha chegou, e comeu logo o queijo dela. Mais um pouco de tempo nossas companheiras saíram da água, e só minha prima quis o queijo, o dela com melado. Então pedi outro com melado para minha filha. E começamos a olhar o cardápio para escolher o almoço. Decisão por duas moquecas: de peixe e de siri. E ela saiu para pagar a caipirinha, que custou 18 reais lá na Ana, e convidar o Carlos para almoçar conosco.

Pouco depois eles chegavam. E nesse interim fomos avisadas que não tinham mais siri para a moqueca. Decidimos por camarão com lagosta para substituir. Acho que nunca comi tanta lagosta assim, consecutivamente.

A comida estava boa e a conversa também. Vendedores ambulantes passaram e venderam-nos cocadas e tornozeleiras. E, neste último, convidamos para almoçar conosco. O Ricardo agradeceu, mas tinha que continuar com as vendas, aproveitando o horário em que muitos turistas paravam ali para o almoço. Mas sugeriu que preparássemos uma marmita para ele comer mais tarde. Como já tínhamos comentado com o Carlos para que ele levasse o restante dos pratos para casa, já que nós não tínhamos como levar, o resultado foi a divisão, feita por mim, em dois recipientes de isopor fornecidos pelo garçom. E não houve desperdício, ainda bem.

O Carlos nos acompanhou até o hotel. Já eram quase 15 horas e a maré já invadira as praias pelas quais transitamos tranquilamente pela manhã. Teve momentos em que tivemos que botar o pé na água. Passar por entre as raízes expostas das árvores nas beiradas secas do terreno. E minha mãe ia sendo ajudada por ele, enquanto minha filha ajudava a mim e a minha prima. Foi uma aventura e tanto. E o dia foi de sol e alegria. Mas a noite ainda nos reservava alguns passeios. Só passamos na pousada para nos banharmos, trocar de roupa e seguir para a Vila. A ideia inicial era subir até o Forte, talvez descer na tirolesa, ver o sol poente e fazer compras na Feira de Artesanato. Mas as nuvens começaram a aparecer, o mar estava cheio e o final da tirolesa era numa parte profunda do mar, que exigia o nado até a borda, o sol se escondeu atrás das nuvens. 

Só nos restou mesmo a feirinha, após tomar sorvete na Filial da Sorveteria da Ribeira que, por sinal, serve uma bola gigante. Pedimos duas bolas e foi um sacrifício e até uma gulodice tomar todo aquele sorvete. Eu pedi uma bola de doce de leite com ameixa e a outra de castanha. Minha filha trocou a castanha por pistache. E não aguentou chupar todo o sorvete. E começou a passar mal. Ela tem dumping, e coisas doces costumam provocar esta reação.

O negócio foi ir para os bancos ao redor da grande figueira. Enquanto as demais apreciavam o movimento, ela deitou no banco até melhorar.

E fomos ver a feirinha, e comprar algumas coisinhas. Tem uma boa diversidade. Compramos um Xequerê, instrumento de percussão. E o vendedor fez até um show para nós, tocando o instrumento em vários ritmos.

Eu ganhei um brinco com a pedra da lua, num arco parecendo meia. O que? Lua. Presente de minha mãe, pelo aniversário que já se aproxima.

E ela achou também diversas lembranças cujo destino somente ela conhece.

Minha filha fez um tererê no cabelo, na barraca ao lado do xequerê. E uma barraquinha após a outra, achamos pequenos encantos que ganharam nossos corações e esvaziaram nossos bolsos.

E devagar seguimos para nossa hospedagem, parando em muitas lojinhas, com um cansaço contido pelo prazer das compras. E quando finalmente chegamos, subimos novamente até o quarto para guardar as coisas, e descemos só as três mais jovens para comer tapioca na praia, de carne, queijo e creme de aipim. Hummm. Eu escolhi um suco de biribiri com morango e as outras tomaram abacaxi com gengibre e hortelã.

No domingo, às 9 horas tínhamos que estar prontas para a viagem de 4x4, rumo à outra margem da ilha e Torrinhas. Deixamos tudo adiantado e dormimos o sono dos justos. Mas nem todas.

No outro quarto minha filha passou mal a noite toda, com cólicas e dores abdominais. Um dia de rei, como alguns dizem. Diarreia e vômitos a levaram a buscar remédio logo cedo em nosso quarto. E um pouco depois das seis horas nós estávamos de pé.

Ela nem foi tomar o café da manhã. E quando o carregador chegou para pegar nossas malas, ele me indicou uma das duas farmácias do Morro, e fui atrás de Floratil, ideia de minha mãe. Porém, esquecemos que era domingo, e tive que pegar o remédio na farmácia mais distante: a da Vila. E na hora tive a ideia de pegar também uns Eparemas. Ela bebeu bastante por estes dias, e comeu temperos diferenciados. Quem sabe o que estava reclamando lá dentro.

Com isso tudo, saímos às 9h20. Mas o condutor, do Japa Guia, voltou pela praia, um caminho mais curto que só é possível fazer com a maré baixa. Este era muito falante, e foi contando um pouco sobre o lugar, as estradas, e o dono de grande parte da ilha, Fabio Perrini, que dá nome ao Pontal onde desembarcamos. Toda a extensão da longa praia era recoberta de coqueiros, nativos e plantados para atender a demanda da própria ilha. E passamos pela famosa Praia de Guarapuá, aonde os turistas vão de barco visitar as piscinas. E pela Praia de Pratigi. 

E num instante chegamos de volta ao Cais de Torrinhas. E lá chegando ninguém nos esperava. e eu não lembrava o nome do dono do estacionamento. E só tinha uma vaga ideia de onde era. E lá fomos nós, minha filha e eu, a procura do caro enquanto minha prima e minha prima cuidavam da bagagem. No entanto, um pouco antes de chegarmos ao Estacionamento ÁREA VIP, encontramos o Carlos Pescador, já se dirigindo ao Cais. Paguei o estacionamento em pouco mais dos quinze reais que ele cobrava a diária. Ele é uma simpatia, um trabalhador empenhado. Tenho procurado valorizar mais o trabalho de trabalhadores independentes. 

E a volta pela estrada de terra foi mais rápida, já que o caminho era conhecido.