17 DIAS NA BAHIA – ILHÉUS

27/10/2020

Eu sempre digo que tenho sorte, e que meu anjo da guarda me protege. E não seria diferente nesta viagem. Tempo bom e sol até agora. E, bem em Ilhéus, o tempo resolve nublar e até chover, bastante. Menos pior, eu diria, pelo menos é uma cidade grande com diversas outras possibilidades do que fazer além de praia. E o hotel também era muito bom, com quartos espaçosos e confortáveis. Mesmo tendo ficado em um único quarto, que foi ajeitado de última hora ao informarmos sobre a necessidade de cama extra. Acomodaram-nos em um quarto quadruplo no terceiro andar. A internet estava boa. A TV idem. Imaginem ficar presos no pequenos quarto da Pousada em Morro de São Paulo com chuva. Ou mesmo 'na lonjura' da Pousada sem Wifi na deserta Boipeba. Imaginaram? Ia ser sufocante. Um tédio só. Um estresse. Uma guerra. Hahaha.

A parte ruim desta acomodação foi que o elevador estava em manutenção, com promessa para resolução no dia seguinte ao de nossa entrada. E, nos três dias em que lá permanecemos, somente uma vez usamos o elevador. Depois soube, por uma funcionária, que o elevador já foi até trocado, mas toda vez que o Opaba Praia Hotel está com ocupação acima de 50%, o elevador não aguenta. Mas também, um elevador só é pouco, ainda mais agora, na pandemia, onde as pessoas evitam se misturar. E estão certas. E o subir e descer as escadas mais de uma vez ao dia cansou muito as pernas, principalmente de minha mãe e minha prima, que já estavam com dores antes mesmo de começar a viagem. Dores da idade, de ficarem muito tempo sedentárias durante o isolamento social, dores de doenças que tiveram neste ano.

No dia seguinte à nossa chegada, já que chovia, pensei em ir ao Shopping na vizinha: Itabuna, já que Ilhéus não tem este tipo de centro comercial. Mas primeiro passei na Localiza, tentando trocar o Virtus por um carro 4x4, pensando em Maraú e nas coisas que li e ouvi falar sobre a BR-030. Mas eles não tinham nenhum carro para atender minha demanda, e só estavam atendendo reservas. O movimento aumentou e acho que foram pegos desprevenidos. Ou será que os brasileiros que normalmente viajam para o exterior estão gastando seu rico dinheirinho nos destinos nacionais?

Bom, o jeito foi pegar estrada e dirigir por uns 30 km em direção ao interior da Bahia. Minha programação inicial previa visitar o Centro Histórico, mas com chuva, não ia ter graça. E lá fomos nós, observando o estilo de moradia nas regiões mais periféricas da cidade de Ilhéus. E depois as paisagens da estrada. E numa das avenidas principais de Itabuna, a Aziz Maron, onde fica o Shopping Jequitibás, apreciamos a vegetação sobre o Rio Cachoeira, e muitas garças pescando. E olhando estas belezas, vislumbrei na margem oposto o centro comercial, com o estacionamento vazio. Será que abrirá só ao meio dia, como os de Salvador? Mas já estava quase na hora. Paramos num posto de gasolina, ao lado, e descobrimos que... era FERIADO em Itabuna.

- Oh não!!!

Logo a frente havia uma outra agência da Localiza, locadora de veículos. Será que tinha alguém? Também não. O jeito foi voltar para Ilhéus, ir para o centro histórico e ver o que era possível fazer.

E a chuva parou. No Centro Histórico não é fácil achar vaga de estacionamento na rua. Mas conseguimos uma ao lado do Restaurante Vesúvio, e do outro lado estava a Catedral de São Sebastião. Precisávamos de água e banheiro. Entramos no restaurante com este objetivo, já que minha intenção era almoçar no também famoso Bataclan. Mas ao observar as comidas, no serviço de buffet a quilo, mudamos de ideia, e nos assentamos ali mesmo para uma ótima refeição.

Tiramos fotos com a estátua de Jorge Amado que está bem em frente ao restaurante. E seguimos, passando em frente à casa onde ele viveu e que hoje é uma casa de cultura dedicada a ele. Estava fechada para almoço.

Nosso próximo destino foi o Centro de Artesanato, que não estava muito próximo, mas que rendeu algumas comprinhas e alegria das compradoras. Até mel compramos por ali. E dali fomos ao Bataclan, que só avistamos a fachada, pois por algum desconhecido motivo, estava fechado também. E não fomos só nós que demos com a cara na porta. Alguns prédios históricos se encontram muito deteriorados,  que é uma lástima.

O jeito foi buscar a sobremesa, que pensamos em comer ali, no Vesúvio mesmo. E ingressamos de volta àquele estabelecimento para satisfazer esta última vontade. E depois de tirar fotos do Teatro Municipal e da Catedral, voltamos ao hotel.

A Catedral foi motivo de muitas risadas para nós. Em cada novo ângulo em que a avistávamos, vindo de diferentes direções, uma de nós se manifestava querendo saber qual era aquele imponente edifício. E minha filha dizia, com um muxoxo:

- É a Catedral!

E isso aconteceu de dia, e de noite, e chegamos a conclusão que ela é mesmo um marco, encantador. E visível por todo lado da grande cidade em que se transformou Ilhéus.

Naquela noite fomos comer pizza num rodízio, não muito longe do hotel, a Pizzeria Pinocchio. Massas e pizzas. E foi bem satisfatório.

No dia seguinte eu soube, pela moça que vende os passeios turísticos no hotel, que a Fazenda Provisão estava aberta para visitação. Eu pensei em conhecer a Chocolates Mendoá, mas por causa da pandemia eles não reabriram as instalações para visitação. E lá fomos nós, 30 km adentro, em direção a Uruçuca, para conhecer a bela fazenda, a beira do Rio do Braço, que foi cenário de novela da Rede Globo de Televisão: a Renascer. Diz o Senhor Rigoberto, que gentilmente nos atendeu, que ali foram feitas as cenas do interior da casa. O exterior era de outra casa, na mesma propriedade, mas bem adiante.

Chegamos e o portão estava fechado. Ele se aproximou e nos disse que já estavam encerrados.

- Sério? Viemos de Ilhéus só para isso. Disseram-me que estavam em funcionamento, mas não me informaram os horários.

- Em quantos vocês estão?

- Em quatro.

- Está bem. Vou deixar vocês entrarem. Coloque o carro ali adiante enquanto eu pego a chave da Capela.

E assim eu fiz. E lá foi ele atrás da chave. E nos conduziu até a Capela dedicada à Nossa Senhora da Conceição. E nos disse:

- Se as moças quiserem podem rezar.

Como só eu sou de reza, as demais se espalharam. E logo ele retornou para contar um pouco da história da Fazenda do falecido Coronel Domingos Adonis de Sá. Naquele tempo em que o título de 'Coroné' era adquirido junto com grandes proporções de terras, por pessoas endinheiradas, e que até hoje são veneradas. E ainda tem muito 'coroné' por estes interiores brasileiros.

O rio que passa raspando na propriedade hoje é de pouca água e muita beleza. Mas já foi um rio bem mais caudaloso, que servia para transportar o cacau para o porto, na cidade de Ilhéus.

E logo fomos conhecer o cacaueiro, e saber sobre uma doença, chamada vassoura-de-bruxa, que afeta as plantações. Trata-se de um fungo, o caule da planta fica inchado e a casca do fruto fica preta. Ele nos disse que, além de cacau para chocolate, eles fornecem para a Dengo, braço da Natura, que só aceita o produto da melhor qualidade.

Mostrou-nos também um cacau modificado, que ele chamou de Cacau-Show, que produz mais rapidamente, porém tem uma qualidade inferior em termos de sabor. O produto de melhor qualidade costuma ser exportado. Hoje, com o consumo mais exigente de chocolate com maior teor de cacau, nossos chocolates têm feito bonito nos mercados internacionais. E a flor do cacau, e os pequenos frutos que já apareciam nas flores abertas, e o cacau, que vai nascendo preso ao tronco por um pequeno caule, seu cordão umbilical.

Um barulho que parecia choro de crianças ou miado de gato invadia o lugar. Descobrimos que eram rãs que soavam daquela forma.

Visitamos o galpão onde as castanhas são armazenadas. E vimos um dos meeiros trabalhando no terreiro, espalhando as castanhas para secagem, e já tirando as sujeiras do meio. As fileiras são preparadas com os pés. E depois ele vai virando com a enxada.

O senhor Rigoberto nos disse que já viveram ali quase 70 famílias manuseando o cacau. Muitos eram funcionários registrados da Fazenda. Hoje são em torno de 30 famílias, muitas trabalhando com 50% do resultado da colheita, para usar a terra e as instalações da fazenda. Estes apontamentos são conforme meu entendimento das explicações dadas.

Depois fomos conhecer a casa da Fazenda, onde atores como Antônio Fagundes fizeram morada na interpretação de seus personagens novelísticos. E hoje são charmosos cômodos decorados como na novela, e que servem de hospedagem para pessoas que querem passar ali alguns deliciosos momentos. Creio que o valor é de R$ 190 por pessoa, com pensão completa, e é possível fazer passeios a cavalo a partir dali, e passeios de barco, e desfrutar um pouco da vida em uma fazenda cacaueira, conhecendo um pouco da história e tradição local. Os descendentes do Coronel ainda são os proprietários da Fazenda Provisão e podem ser contatados pelo número (71) 9152-7024, e falar com a Andreia, para reservas.

Terminamos a visita tomando um suco de cacau bem espesso e delicioso, pelas mãos da Jessica, filha do Sr. Rigoberto e que também trabalha no local. O passeio guiado na Fazenda custa R$ 30,00 por pessoas e deve ser pago em dinheiro.

No retorno paramos à Chocolate Caseiro Ilhéus, uma loja com diversos artigos fabricados com esta semente dos deuses, passando por um delicioso chocolate com leite gelado, licores, bombons, barras de chocolate ao leite e meio amargo. Coisas de encher os olhos e esvaziar os bolsos. Eu consegui me conter com três bombons, sendo um de cereja, um de cupuaçu e um de brigadeiro. Prefiro chocolates recheados. E dividi um copo de leite achocolatado com minha filha.

Junto ao estacionamento da loja tem uma maquete de uma Fazendinha de Cacau. E uma barra de chocolate que é um marco comemorativo aos 25 anos da Fábrica, completados em 2016.

Depois só paramos de novo no Hotel, e novamente fomos jantar no Vesúvio Praia, só em três, já que minha mãe queria poupar as pernas nas escadas do hotel. Nessa última noite resolvi comer um queijo coalho com camarão, mas triste porque queria comer algo de sal, porém também queria o melado e a geleia de pimenta que acompanhavam a outra opção. Mas não é que acompanhavam também a versão com camarão. A mistura de todos os itens foi diversidade demais para meu pobre paladar, então comi um queijo com o camarão e o outro com os acompanhamentos doces. Pedi ainda um drinque com champagne, licor de cassis e cereja. Senti-me refinada. Kkkk E todas aproveitamos muito bem a última noite de Ilhéus.

No dia seguinte, ao sair, manifestei minha insatisfação com o 'desleixo' do hotel. Palavra usada pela atendente quando relatei a falta de cuidado. Considerando que eles tinham nossos dados, percebendo que duas idosas estavam no último andar, sem elevador por três dias, podiam ter nos realocado, até porque, como a descarga estava com vazamento, essa era a medida sugerida para resolver o problema. Não deram nenhuma satisfação e não tomaram nenhuma providência. Uma pena. Um hotel muito bonito, que tem grandes possibilidades, se queimando por falta de comunicação interna e de gerenciamento.