17 DIAS NA BAHIA – ILHA DE BOIPEBA - Piscinas Naturais, Praia dos Castellanos, Cova da Onça, Canavieiras, Tassimirim, Cairus e Morerê.

19/10/2020

Foram somente 240 km desde Feira de Santana até o Cais de Torrinhas, porém gastamos 4h30 neste percurso, em grande parte por estrada de duplo sentido e intenso movimento rodoviário, e com muitos caminhões. Trafegamos pela BR-101, estrada com alguns pedágios, mas com pouquíssima manutenção. Este foi um dos motivos da lentidão do percurso. Quando saímos dela, ingressamos em estradas ainda mais acanhadas. E os últimos 7 km foram de terra, vermelha, compacta, mas bastante erodida em partes. E foram tantas curvas que houve trechos que, mesmo dirigindo, fiquei com náuseas. Minha mãe até resolveu recostar-se para dominar o enjoo. A atenção no trânsito, no tráfego e nos animais soltos, como vacas e cavalos, pastando um pouco além dos acostamentos. Em certo momento um pequeno sagui correu na travessia da rodovia. Na pista contrária um caminhão, ninguém atrás de mim, pelo menos muito próximo. O pequeno macaco parou no meio da pista, passei por trás dele, e quando o caminhão passava, ele correu para a margem de onde tinha vindo, passando por baixo do caminhão sem ser atingido. Que susto! E preocupação.

Fizemos poucas paradas, para combustível e água, para banheiro e café, para comprar artigos de madeira. Nenhuma por mais de vinte minutos. E conseguimos fazer o percurso no tempo previsto, sem pressa e em segurança. Só em algumas lombadas eu sacudi os passageiros do carro, já que a pintura das mesmas não existe. E algumas nem sinalização por placas. Mas minha copilota começou a me alertar quando as via. Em uma das barracas vimos um melão de casca escura, e formato alongado, como um pepino. O melão Coroá.

Quando vi a estrada de terra, assustei. Como eu já disse, faço pesquisas e estudos, mas não consigo verificar todos os detalhes. Uma das coisas que fiquei sabendo, também depois de chegar a Boipeba, que o Cais de Graciosa seria melhor para deixar o carro, já que o gasto de tempo e dinheiro seria menor, já que nós queremos fazer a Ilha de Boipeba e o Morro de São Paulo, na Ilha de Tinharé. Mas o rapaz que indicou o estacionamento em Torrinhas foi tão solícito e gentil que seria uma pena não conhecê-lo. E a diária do estacionamento por lá ficou muito em conta: somente quinze reais. E o povoado é tão pequenino que é possível conhecer todos os moradores. Daqueles lugares que a gente passa cumprimentando todo mundo. E o rapaz já estava na entrada da cidade nos esperando. E foi correndo no sol, indicando o caminho, mesmo eu o convidando a subir no carro, já que havia espaço. Deixou nossas malas com o Gagum, piloto da lancha da Coco Dendê e eu entrou no carro comigo para voltar ao estacionamento. Quando percorriamos o caminho até o Caís, a pé, passei cumprimentando todo mundo, até a namoradeira, que não dispensou o item de segurança combinando com sua vestimenta.

O Gagum também foi muito cordial e em vinte minutos fez a travessia até a ilha, ainda fornecendo algumas informações ao longo do caminho.

Fechei o pacote de translado e passeio em volta das ilhas com a Coco Dendê, indicada pela Pousada Villa da Barca, que nos hospedou nestes dois dias. E que achei através do Booking. E como fui eu que escolhi o Cais de Torrinhas como ponto de partida. Paguei R$ 180,00 para duas pessoas a lancha de Torrinhas a Boipeba, e 30 a mais por pessoa embarcada. No caso foram mais duas.

Chegamos à Ilha sem saber o que esperar. Só sabia que veria praias calmas e paradisíacas, e sentiria a calma e a paz de locais quase intocados. Mas não imaginava que nosso caminhar seria pé na areia, e nem que a pousada era tão longe do ponto de desembarque. Bem que alertou o filho de minha prima que as rodinhas das malas seriam inúteis. E, por sorte, o pessoal da Coco Dendê conseguiu acionar o Romario pelo telefone (75) 99805-2689, que veio com sua carriola e levou nossas malas sob o sol escaldante, correndo e parando. Se ele fosse ao nosso ritmo, certamente chegaria muito mais cansado. E o preço é tabelado: 15 para mala pequena, 20 para a maior, que é do tamanho médio. Levou um pouco mais do que o valor cobrado. Trabalho exaustivo, que nos poupou tamanho esforço e sacrifício.

A Pousada é num local incrível, toda rodeada de árvores. E eles foram surpreendidos com a chegada de quatro hóspedes, pois esperavam três. Não leram o e-mail que mandei comunicando a alteração. A sorte que o quarto era grande e foi possível colocar mais uma cama. E o preço da cama extra foi de setenta reais por dia. O que ficou complicado foi um só banheiro para quatro mulheres. Por sorte, nenhuma que fica se empetecando para ir à praia. Fomos comunicadas da possibilidade de morcegos ou aranhas adentrarem pelas janelas, se deixadas abertas, mas devido ao calor, as duas mulheres mais velhas acharam por bem abrir as janelas assim mesmo.

Elas se cansaram muito com a caminhada na areia, para chegar à Pousada, e não quiseram sair nem para jantar. Minha filha e eu nos arrumamos e fomos ver o lindo por do Sol no restaurante Toca do Lobo, e jantar. Comemos polvo a vinagrete e foi a primeira experiência dela com esta carne, já que ela passou treze anos sem comer carne. Desde os onze anos de idade. E a experiência foi ótima. Estava mesmo uma delícia. E o tempero foi um belo por do sol e alguma conversa com o pessoal do serviço. Um moço que conversou conosco me fez perceber a alta capacidade de persuasão que ela tem. E ela mesma não se apoderou disso ainda. É um dom excelente e necessário para quem precisa vender o que produz. E ela, como excelente confeiteira e cozinheira que é, precisa reconhecer que é capaz de seduzir seus clientes.

O sol não decepcionou, e fez uma bela aparição de despedida nos palcos celestes, com direito a banho de mar. E a Toca do Lobo é um dos melhores locais para conferir este espetáculo.

No retorno para a Pousada, alguns cachorros se aproximaram de nós e sua dona acabou nos acompanhando pela noite escura. Ela é a Ana, uma paulista que vive há quatro anos na Ilha, com sua filha, catorze cães e igual número de gatos, e que tem toda uma sistemática de revezamento para passeios dos cachorros. Nota-se logo o amor que ela tem pela ilha e pelos bichos. É proprietária da Pousada Pérolas, ao lado da Coco Dendê, e responsável pela sociedade protetora dos animais da ilha.

Naquela longa noite, já que às 19h30 as três já estavam deitadas para dormir e um pouco depois da meia-noite minha filha dá um grito e acende a luz dizendo que uma barata enorme andou na perna dela. E minha mãe, assumindo a responsabilidade por sua escolha, levantou com o chinelo na mão em busca da invasora. Mas a bichona não correu da chinelada. E tamanha bobeira denunciou o equívoco quanto ao inseto. Era, na verdade, uma cigarra.

O café da manhã na Pousada é com porções medidas para a quantidade de pessoas, mas tem frutas, suco, café e leite, pão, manteiga, frios, e bolo. Mas o bolo, inspecionado pelos joviais olhos de minha filha, recebeu um 'r' no final. Ainda bem que foi só no primeiro dia. E nós chegamos às 7 horas para um café que só começaria às 8 horas, e fomos atendidas do mesmo jeito. E se pode solicitar ovos mexidos ou fritos, e tapioca. Não dá para reclamar do café.

E lá fomos nós, bem cedo, para nosso primeiro passeio: Volta às ilhas. Que partiu às 9h30 da Coco Dendê, numa lancha com 12 pessoas e mais uma criança pequena, conduzida pelo Tetéu, e soubemos depois que seu nome de batismo é Teófilo, mas que na ilha todo mundo tem apelido.

Nossa primeira parada foi nas Piscinas Naturais de Morerê, onde minha mãe que não quis descer. Tinha muita gente e ela tem medo de água. Mas a água transparente e quente, cheia de peixinhos coloridos, não atemoriza. E estava pela cintura, com a maré muito baixa. Que sorte!

Depois fomos para a linda Praia dos Castellanos, e já tínhamos fome. Mal desembarcamos e já pedimos pastel com água de coco ou cerveja. E ali relaxamos. Mas eu queria conhecer a enseada ao lado, muito mais bonita. E quando descobri isso, voltei para convidar as demais para desfrutarem também daquele paraíso. E ali minha mãe tomou coragem e entrou na água conosco. E foi uma diversão.

Minha mãe e prima ficaram com nossas coisas sob uma sombra enquanto minha filha e eu seguimos adiante para um local ainda mais interessante, onde as piscinas naturais eram mais rasas, com mais pedras e a água tão quente como a de um chuveiro na posição de inverno. E tivemos que acelerar o passo para não nos atrasarmos, pois o horário marcado era 13 horas. Ainda bem que as experientes e impacientes acompanhantes seguiram para a lancha sem nos esperar, assim foram devagar. E nós chegamos no horário.

Neste passeio conhecemos a Letícia, uma paulista que está viajando sozinha, já que tirou férias e o marido está trabalhando. E minha filha fez amizade com ela, já que a diferença de idade delas é menor, menos de dez anos. E na proxima parada, na Cova da Onça, um povoado de pescadores, ela ficou conosco para almoçar, no Restaurante Boa Vista, e comemos filé de lagosta na manteiga, enquento minha prima e minha mãe preferiram peixe frito. E ambos os pratos são acompanhados de arroz, feijão, farofa e pirão. E os pratos para dois serviram bem as cinco pessoas. Enquanto elas terminavam a refeição e conversavam, eu me aventurei pela vila, observando as moradias, o jeito tranquilo de quem vive na segurança de uma ilha, com crianças bem pequenas andando sozinhas pelas ruas. E as paisagens estonteantes. E o barco que parece um ônibus, que leva logo às 5 horas da manhã as pessoas que se deslocam rumo a Valença, uma das maiores cidades da redondeza. E os moradores voltam carregados de compras, que são levadas para casa nas carriolas, de parentes que os aguardam ansiosos.

Quando voltei o pessoal estava comendo ainda as deliciosas cocadas caseiras, de coco fresco.

E logo embarcamos, já com a maré muito cheia, para nossa última parada, em bares flutuantes junto à Praia de Canavieiras, para comer ostras. E eu provei a minha primeira ostra crua. Tem que engolir sem morder, então só senti o gosto do limão. Mas comi também ela gratinada com queijo e orégano, e foram destes dois ingredientes que senti o sabor. E o horário de saída estava marcado para 17h30, mas ficamos uns minutos a mais aguardando o por do sol, atrás da ilha de Cairu, dourando as águas do Rio dos Patos. E a volta já nos reservava um vento frio. Penso que este passeio tem preços diferenciados de acordo com a cara do freguês. Ouvi dizerem para a Letícia que custava cem reais. Acho que paguei cento e trinta, enquanto que para a minha prima foi cobrado cento e vinte. Hum!

Ainda assim o passeio foi ótimo e o nosso capitão mereceu uma gorjeta.

E marcamos com a Letícia o jantar na Vila. E só voltamos minha filha e eu. E depois da canseira do dia, se não nos comprometêssemos, depois do banho, não teríamos coragem de retornar. E tomamos banho primeiro, deixamos as duas senhoras descansando e voltamos na noite sem luar, olhando o lindo céu estrelado e o planeta Marte, vermelho, parecendo uma luz de sinalização para aviões, lá no alto. Parece que em sua trajetória, ele está muito próximo à nossa Terra. Só por essa visão já compensou a caminhada noturna.

Como se não bastasse este presente da natureza, ainda encontramos um pub, com cervejas e hambúrgueres artesanais, dentro do espaço da Pousada Villa da Barra, com seus arcos de primaveras que até parecem um túnel preparados para receber casamentos. E ali provamos cervejas IPA com Jamelão e Pequi. E minha filha tomou também um chopp stalt, com gosto e café. E o hambúrguer foi de picanha ao pongto, e linguiça com queijo coalho. As duas meninas tem gostos muito parecidos, e compartilharam de pedidos semelhantes. E levamos para minha prima um hambúrguer de frango, que foi o que restou, já depois de nossa chegada, outros clientes foram enchendo o pub Cervejaria M'Boi Pewa.

E assim terminou o dia longo de tantas atividades que foram realizadas. E o compromisso de encontrar a nova amiga no dia seguinte, antes de nossa partida.

E após o café da manhã, desta vez com bolo e tapioca, além de manga cortada em quadradinhos, na casca, fomos caminhando até a Praia de Cairus, onde fica o famoso restaurante Lagostas do Guido, onde as lanchas vindas de Morro de São Paulo fazem parada para almoço em sua viagem de Volta à Ilha de Tinharé, onde se localiza Morro. Antes do final da Praia de Boipeba tem uma escadaria que leva a uma trilha pelo meio da mata. Lugar bucólico, sombreado, que muito agradou minha mãe, não fosse por sua grande extensão. Eu levei uma hora para chegar ao Restaurante. A Brenda já estava lá. E elas, minha mãe e prima, ficaram descansando numa sombra antes das pedras, onde iniciam as piscinas naturais.

Minha filha e eu escolhemos uma mesa, conversamos com o garçom que nos informou que era possível fazer parte do caminho de volta com quadriciclo, pagando 10 reais por pessoa.

Eu segui em frente, sozinha. Queria tentar chegar às piscinas naturais na Praia de Morerê por terra, ou melhor, por areia. E andei muito, cortando as curvas da enseada, já que a maré estava tão recolhida, que a faixa de areia disponível era imensa. Depois de muito andar, já quase lá no final da praia vi o rio. Um pequeno rio de água marrom, achei até que fosse ferruginosa, mas os nativos me informaram que trata-se do lodo do mangue. Na verdade é só um pequeno curso de água. No entanto, com a maré cheia, a pororoca acontece muitos metros acima. Mar e rio se fundem e a passagem tem que ser a nado.

Após a travessia do rio, uma entrada para uma fazenda de cocos nos leva até a Praia de Morerê. E não cheguei até o povoado, mas observei as lindas piscinas, rasinhas, com água aquecida. E a pria é tão deserta, dada a distância, que é possível até praticar um nudes, creio. Mas na água, á longe, eu avistei as lanchas que faziam o passeio com os turistas. No mesmo lugar que estivemos ontem. Era hora de retornar e fiz no mesmo ritmo da ida. Depois de uma hora e meia, estava de volta ao Restaurante. 

E quando cheguei, já estavam todas reunidas, inclusive a Letícia, de Ribeirão Preto. E por ser sexta-feira, até ouvimos ótima música ao vivo, com o Elton Risco. E comemos lagosta grelhada, enquanto minha prima e minha mãe comeram peixe vermelho frito. Eu tomei batida de coco, mais de uma, e estavam deliciosas, já que coco na Bahia é o que não falta.

Saímos de lá e, um pouco depois, indo em direção a Morerê, tem um ponto onde ficam os quadriciclo esperando clientes. E os dois que precisávamos estavam lá. Dois simpáticos condutores que nos levaram até uma rotatória, e subiram conosco parte da trilha, íngreme, orientando nosso caminho. Eles são empregados e recebem comissão sobre a quantidade de pessoas que carregam. Um dos condutores nos confessou que o sonho dele é adquirir um daqueles veículos e coloca-lo para trabalhar ali.

Cada quadriciclo levava duas pessoas além do condutor. Mas mesmo assim tivemos que caminhar um pouco, mas bem menos, e chegamos por uma estradinha bem ao lado da Pousada, e o Romário, da carriola, já nos aguardava para levar as malas até a Coco Dendê. E a lancha já nos aguardava para fazer a pequena travessia até a Ilha de Tinharé, rumo a Morro de São Paulo. E assim encerrou-se nossa passagem pela linda Ilha de Boipeba.