MÉRIDA merece ao menos um dia inteiro

26/11/2019

Não tem sido fácil levantar cedo com este tempo frio e escuro. Ainda assim levantei-me às 9 horas. Fácil para arrumar-me e sair. Só estou carregando uma mala agora. As roupas sujas estão na mochila, no carro.

Passei num café que tem entre o hotel e o estacionamento. Amanheceu com chuva. Fraca. Mas tinha parado quando me dirigi ao café. Pedi uma tosta, um suco de laranja, um café com leite e um croissant napolitano, que vem recheado de chocolate e com calda de??? Chocolate. Mas cadê o morango. Acho qu nos enganaram com a mistura de sabores do sorvete napolitano.

No curto caminho entre o bar e estacionamento peguei uma garoa, mas que não chegou a molhar. Paguei os últimos 16,50 euros e sai para os 260km de viagem até Mérida.

Viajar de carro é muito bom, quando não somos o motorista. Gosto muito de dirigir, principalmente nas estradas, mas quando a velocidade é alta e as condições climáticas ou da estrada requerem muita atenção, não consigo observar a paisagem, que tanto gosto. Só de relance, e sinto falta de um passageiro que faça o registro fotográfico, como eu faço quando sou a copilota.

Foram 3 horas de viagem, e destas, 2 ½ horas sob chuva, fraca, média, forte. Uma boa parte da viagem em serras, não tão altas, e depois o caminho amansou. E pude perceber que o céu ficaria nublado, mas a visita a Mérida seria seca.

Fui direto para a Casa Mami. Ela fica numa rua sem saída. E achei um lugar para estacionar quase em frente. Tentei ligar para a proprietária, pois queria saber se era permitido deixar o carro ali. Como ela não me atendeu, perguntei a um senhor que passava, morador local, que me disse que estava autorizado.

Assim deixei o carro tranquilamente e comecei o meu roteiro. Mas precisava ir ao banheiro, e então vi um restaurante próximo ao Teatro e anfiteatro romanos. Deixe-me almoçar logo então porque já resolvo dois assuntos e fico livre.

Era um restaurante simples e o menu tinha 3 opções de entrada e mais 3 para o prato principal. Pedi macarrão com molho à bolonhesa. E depois solomillo, que veio acompanhado de batatas fritas. O macarrão estava ótimo, mas o prato principal estava demasiado salgado. Trata-se de lombo com molho. Só dei umas beliscadas. E já ia embora quando o proprietário me disse que estava incluída uma sobremesa. Paguei os 10,50 euros e comentei sobre o excesso de sal. E olha que não sou de reclamar, nem tenho um paladar tão bom... A sobremesa foi torta de chocolate com molho de laranja. Bom!

Dei uma bela volta até achar a entrada para o Teatro romano. As duas construções estão numa ampla área que faz pensar a importância que esta cidade teve na era romana. Sem brincadeira, é um espaço de fazer inveja. Na bilheteria eu tive a opção de comprar um ingresso para várias atrações que custou 15 euros. Aposentados com mais de 65 anos pagam a metade.

E entrei. Existe uma marcação em placas que sugere um sentido de visitação. Segui-o e comecei pelo Anfiteatro Romano. Este conjunto Monumental da cidade esteve soterrado por séculos e dele só se avistavam 7 blocos conhecidos como sete cadeiras. Ele foi construído e inaugurado antes da era Cristã, como 15 a.C. Ele é destinado a competições. Entrei por uma das portas laterais com degraus muito altos, segui pela arquibancada até a porta principal. Nesta uma rampa foi colocada para tornar o espaço acessível a pessoas com dificuldades motoras, mas não cadeirantes, porque o piso do entorno é todo de pedras bastante irregulares. Sai por a porta principal e fui rodeando até conseguir entrar por uma porta que me deu acesso ao palco. Lá estavam um grupo de jovens ensaiando uma encenação de época. Uma francesa fez uma foto minha.

Saindo passei por um jardim que fica entre o anfiteatro e o Teatro, este também de forma semicircular, também a céu aberto, mas destinado a apresentações artísticas. Ele é ricamente decorado com colunas de mármore e esculturas. Tem capacidade para 6 mil espectadores. O que mais me impressionou foi o tamanho do conjunto. Imaginem, 6 mil pessoas no Teatro...

Meu próximo destino foi a Casa del Mitreo. Também estava incluído no preço do ingresso e fica a quase um quilômetro do Conjunto visitado.

Estava quase chegando na Casa, quando vi uma construção circular bonita. Olha ela aí outra vez. Mais uma Plaza de Toros. Mais um marco importante na cultura da região. E nesta tem um restaurante dentro. Será que consigo ver o interior? Fui circundando pelo corredor interno, entre a parede exterior e a parede da arena. E vendo as fotos e os ornamentos para dar o clima aos apreciadores das touradas. Quando cheguei ao restaurante perguntei a garçonete se tinha como ver a arena e ela me autorizou passar por uma porta. Depois dela outra porta com uma janelinha, só estava passado o ferrolho, mas fiquei cm receio de abrir, entrar e alguém me fechar por fora, por não me haver visto. Assim olhei só pela janelinha mesmo. E ainda não consegui ter a sensação de estar ali no meio.

Na Casa del Mitreo, quando apresentei o ingresso, o recepcionista informou-me como chegar aos Columbários. Então tenho duas atrações no mesmo endereço. Como os Columbários era seguindo reto, ao fundo, entrei no primeiro corredor a direita para apreciar as ruínas da Casa, e ler as placas explicativas dos cômodos, das pinturas e dos mosaicos. Esta casa foi descoberta casualmente nos anos 70, tem mais de 2000m2 de construção em 3 plantas interligadas. Certamente, dado seu tamanho, pertencia a alguém de importância nos séculos I e II quando foi construída. Seu nome se dá devido a proximidade de um templo dedicado a deusa Mitra, na estrutura do Praça de Touros.

E o que serão os Columbários? Fui seguindo por uma trilha entre ciprestes perfumados. E alguns pinheiros carregando suas pinhas, prontos para o Natal. 

E toda uma área com pedras foi surgindo, e ao me aproximar dei-me conta que tratava-se de um cemitério romana, com suas inscrições e formas diferenciadas, sempre levando em conta a importância do morto. Durante muito tempo os corpos romanos eram incinerados e reduzidos a cinzas que permaneciam em suas urnas, nos sarcófagos, exceção feita às crianças, que eram só inumadas (enterradas).

Depois, devido a contato com outras culturas, a incineração deixou de fazer parte dos rituais pós-morte, passando a enterrar todos os mortos na cultura romana.

Achei interessante o epitáfio que faziam na maior parte das tumbas: " Que la tierra te sea ligera." E que significa: Que a terra te seja luz. É uma bonita forma de despedir-se de seus mortos.

Eu não gosto muito de visitar cemitérios, mas este aqui tem história, é possível obter uma enormidade de informações de um povo através de seus cemitérios. E eles têm, aqui no Columbários, uma montanha de pedras que foram extraídas do solo e estão sendo classificadas pelos arqueólogos para trazer à luz um pouco mais de conhecimento sobre a história de nossos antepassados.

Eu estava olhando uns mausoléus quando duas vozes, por trás das pedras, iniciaram uma conversação em espanhol Pouco depois surgiu o casal. Eu falei com eles que, se não surgissem logo, eu poderia pensar que alguém de dentro do túmulo falava comigo. Só não pensei nisso porque já os tinha visto. Assustador não?

Quando sai perguntei ao senhor da portaria se as pedras foram colocadas aleatoriamente ou estão em seus lugares originais. Ele me disse que ambas as coisas. Foi mesmo o que me pareceu. E eu recomendo muito esta visita.

Agora vou em direção a Alcazaba, mas preocupada com o horário. Mais 850 metros de caminhada, apressada. Rodeio todo a imensa edificação, sua entrada é perto da Ponte Romana, junto a uma bela Praça. Entrei, e vi que o que se mantinha era realmente os muros externos. Subi para a muralha mais próxima, de onde avisto o Rio Guadiana, os jardins externos e todo o pátio interno. Tinha que decidir se valeria a pena circular por ali. Fiz minhas fotos e fui até a guarita de entrada para saber o horário de encerramento das atrações. Encerram-se todas às 18 horas, disse-me o guarda.

Então vou adiante. Queria tanto atravessar a linda e grande Ponte Romana. O rio parece se esticar com dois braços por estas paragens... 

Mas vou outro quilômetro em sentido contrário em direção à Basílica de Santa Eulália. A entrada previa a visitação da cripta. Nem sei se quero ver a cripta, mas gostaria de ver a Basílica.

Quando apresentei meu bilhete fui logo perguntando ao guarda se o bilhete era válido por mais de um dia. Ele me disse que pelo mês todo até, podia visitar uma vez cada atração.

_ " Bom, se é assim, vou entrar, porque ainda quero ver o Circo Romano. Então poderei ir amanhã cedo."

Na primeira parte constam informações preciosas acerca da Santa e da construção e reconstrução da igreja.

Segundo consta, a santa era uma menina de 12 anos, católica, que se apresentou aos romanos confirmando sua fé, e por ser um tanto enérgica durante seu julgamento, acabou sendo condenada e executada de forma muito dura. E que depois de sua morte, junto ao seu túmulo, três árvores floresciam, fora de época, inexplicavelmente.

Quando visitava a Cripta, com cara de Cripta, ruínas e mosaicos, vi um moço sentado junto a uma mesa, ao canto. E uma escada que conduzia a Igreja. Só que ele estava ali para cobrar mais dois euros pela visitação. E disse-me valer a pena. Paguei, subi, visitei, achei interessante, mas senti-me lograda. A igreja não muda. Já não foi cobrado, junto ao bilhete único, um valor para a visita. Por que eles fazem uma cobrança extra?

A parte interessante dessa igreja, que é relativamente nova, é que existem áreas com vidros como cerca ou como piso que possibilitam ver as ruínas da Cripta, abaixo, colocando-a com a devida importância histórica.

São 17h50 quando termino. Recebi uma mensagem da proprietária da Casa Mami dizendo que chegará com atraso à Casa. Marquei com ela às 18 horas. Mas creio que também eu me atrasarei.

Mas a casa está a menos de 10 minutos de distância. No caminho passo por uma pequena praça, com poucas árvores, mas que são dormitórios de uma infinidade de passarinhos. E ao olhar para o céu vejo vários bancos de pássaros, de tamanhos diferentes, sobrevoando a área como que ao sabor do vento. E aquelas árvores de folhas amareladas, e os passarinhos fazendo algazarra. Contemplei-os por uns 5 minutos(veja o vídeo no Facebook- Meyre Lessa).

Como ainda me restava tempo até a chegada da proprietária, eu fui procurar um mercado para comprar as guloseimas do jantar. Tive que caminhar mais uns 300 metros, e passei em frente a uma escola de dança flamenca. Adivinha se eu não perguntei para a professora se poderia assistir a uma aula mais tarde.

_ " Sim, entre 8 e 9 horas."

No mercadinho comprei, uns nozinhos de amêndoas, duas tortinhas de maçã, pechugo de pavo (peito de peru), bananas, um litro de suco de abacaxi e uma salada russa com atum. A atendente ouvia uma alegre música em inglês e eu disse a ela que, se trabalhasse ali, com aquela música, estaria dançando o tempo todo.

_ " Gosto muito dessa banda, disse-me ela, e a coloco para me alegrar. Tenho-a também no carro, e se a coloco logo cedo, quando venho ao trabalho, já fico animada, senão fico assim...". E se colocou numa posição de ombros caídos e cara desanimada.

Sai desejando que desfrutasse da música.

Cheguei ao apartamento, que na verdade é um loft, e a proprietária já estava lá. Me entregou a chave, pegou meus dados no passaporte, me orientou sobre o local e a forma de usar as chaves e depois como deixa-las numa caixa de correio externa.

O loft tem uma pequena cozinha, com refrigerador, duas bocas de fogão sem chama, uma pequena pia, armários com utensílios, micro-ondas. Mesa de parede com uma única cadeira, ao lado uma cadeira do papai e uma TV de tela plana, ar-condicionado. O banheiro só tem o sanitário. E no quarto está o box, no canto, com piso de plástico, e portas em arco. A cama é de solteiro e tem um pequeno armário. Daria para morar aqui tranquilamente. Só me incomoda um pouco o tamanho dos banheiros.

Aliás, acho que isso é feito de propósito. Eu tenho prazer em tomar banho, gosto de gastar uns bons minutos sob a água quente, para relaxar. E gosto mais de ducha do que de banheira. Hábito. Mas por aqui os banheiros são tão desconfortáveis que, só posso pensar que o objetivo é desestimular o banho diário. Só pode ser. Quando o espaço é retangular, um pouco maior, colocam a chave de abertura e regulação da temperatura na lateral maior, às vezes o suporte da ducha está na mesma parede, às vezes na de menor dimensão, mas você fica, obrigatoriamente, ao lado da torneira. Se a lateral menor tem um metro e o dispositivo tem uns 15 centímetros, do outro lado tem a cortina, que tem que ficar para o lado de dentro da base, para que a água não escorra molhando todo o chão externo, sobram para você se movimentar uns 80 centímetros. No meu caso, não tem lado que eu vire que não esbarre em algo. Neste do loft não é possível lavar os pés. Se você levantar a perna para fazê-lo, bate o joelho na porta do box. Se abaixar-se, bate a cabeça. Em suma, não é gostoso tomar banho. Mas eu insisto.

Comi minha pequena refeição e acho que o que sobrou será suficiente para o café da manhã.

Já são 20 horas e preciso me animar para siar novamente. Ainda bem que a escola está só a um quarteirão de distância. Cheguei lá bem quando estavam trocando as turmas. A professora me convidou a entrar e disse aos alunos que teriam uma convidada.

Sentei-me na única cadeira disponível e fiquei observando, primeiro o alongamento, depois uma sequência de passos individuais. Depois formaram-se pares, só haviam dois casais, mas os pares dançam como se fosse um enfrentamento e uma parceria, ao mesmo tempo. A professora ficou com uma moça que estava só, e mais próxima de onde eu estava. E fiquei observando as caras e bocas que ela fazia toda vez que se punha a dançar. Como ela só tinha mais umas duas ou três. Fazer a cara certa é meio caminho para convencer a assistência de que você sabe o que está fazendo, e isso não é só na dança. E aqui ela usa um recurso para evitar que as pessoas dancem olhando para o chão, dizendo que não tem euros ali. Ela terminou com danças em roda, depois colocava um par no meio e os outros continuavam dançando em volta, sempre os mesmo passos. Ou seja, eles podem ser usados de diversas maneiras. A última parte foi muito divertida. Todos desfrutaram. Até eu que só assistia. Sai às 21 horas agracedendo e parabenizando-a pela aula.

De volta ao loft, aproveito a mesa da cozinha para escrever. É bem mais confortável do que na cama. E vou dormir que o tempo está bom para isso.

Vi que a cidade de Mérida é a capital da Comunidade autônoma de Extremadura. E Badajoz, para onde irei amanhã, é a capital da província de Badajoz, que faz parte da Comunidade Autônoma junto com Cáceres. Mas Badajoz é maior em população.