A Vila dos Mistérios – POMPÉIA, ITÁLIA.

12/02/2020

Pensei em ir de ônibus para Pompéia, porque pela hora que levantei, chegaria lá mais cedo. Tinha um ônibus para às 10h27 e o trem só às 11h07. O trajeto demora mais ou menos meia hora.

Mas programei o Google Maps e não consegui acompanhar o seu raciocínio, de modo que quando cheguei perto do ponto, o ônibus já havia passado.

E aí fui procurar a estação ferroviária, mas perguntando porque as indicações do mapa não estava, me ajudando.

Tive que acordar cedo para receber a bandeja de café da manhã, mas continuei dormindo porque estava cansada. E o dia estava reservado só para este passeio.

Fez um dia lindo, cheguei ao ponto inicial da Ferrovia, e ali consegui sentar. A próxima estação era a da Praça Giuseppe Garibaldi, e entrou muita gente, e alguns permaneceram de pé.

Uma das coisas que me chamaram a atenção é de que os trens são pichados. Parecem os 'Diablos" do Panamá, aqueles bonitos ônibus antigos, todo coloridos. E o interessante que as estações também são assim, exóticas.

E conforme vamos adiante, o Vesúvio aparece ao lado. E me faz pensar que a cidade continua ali, tão perto....A guia de ontem disse-nos que existe uma estação que mede a intensidade dos tremores, porque dado o tipo de vulcão, o Vesúvio com sua cratera fechada é do tipo que explode, também por sua alta concentração de sílica no magma, como já expliquei na visita ao Etna. Disse-nos ela que outrora era só uma montanha, e que uma das explosões formou a outra montanha. E entre ela existe o Vale do Diabo, assim chamado porque nada cresce ali. O Vesúvio tem pouco mais de 1800 metros. Ela também nos disse que as pessoas habitavam tão próximas porque pensavam se tratar de uma montanha comum, já que a cratera o topo não tem cratera aberta. Mas, e hoje? Por que continuam ali se já sabem. São mais de 700 mil pessoas. O plano de evacuação indica que em 72 horas podem evacuar a cidade.

Considerando o caos do trânsito local, e a manifestação comportamental dos habitantes, pelo que vi até agora, não me parece assim tão fácil.

Mas passamos em muitas estações. Pouco movimento de subida ou descida ocorria na maioria delas. Um movimento maior ocorreu na para em Erculano. E em Pompéia o trem esvaziou.

Cheguei lá ao meio dia e a entrada do Parque Arqueológico é quase na frente da estação. Gastei 5,60 euros nas passagens de trem de ida e volta. E já tinha comprado o ingresso antecipado por 20 euros, sem áudio guia.

Entrei, peguei um livreto em português no Centro de informação e me pus a caminhar por uma subida, onde ao lado tinha um museu com os modelos das pessoas que foram soterradas. Por que digo modelos? Porque é uma técnica que utiliza gesso líquido nos vãos onde se encontra alguma ossada. Como a cinza deixada pelo fluxo piroclástico recobre o corpo e os objetos tão rapidamente, asfixiando as pessoas, o corpo se desfaz mas fica o vão, guardando a posição e até as expressões dos mortos no local.

Mas não passei pelo museu. Quando sai do hotel já pedi preparo para enfrentar estas mortes. Talvez eu não estivesse preparada.

Mas sei que o local em si não me passou a energia pesada de tragédia, agonia, tortura e morte. Pareceu-me que as mortes ocorreram muito rapidamente, e as pessoas estavam vivendo felizes as suas vidas, com paz e tranquilidade, até a ocorrência surpreendente da erupção vulcânica. O desastre ocorreu em 24 de agosto de 79 da era cristã. E até 1748 a cidade ficou esquecida e soterrada sob as cinzas e pedras pomes.

Nota-se nas estruturas descobertas as influências greco-romanas (lendo agora parece que quis dizer sem teto, mas quis dizer encontradas). E mais de 20 mil pessoas foram mortas por aquele episódio, o que revela ser uma grande cidade.

Podemos ver casas enormes, de gente influente, com afrescos e pisos em lindos mosaicos.

A maior parte do que vemos são as bases das paredes de pedras, das ruas, casas, templos, comércios e etc. Em alguns casos a restauração implica em concluir com materiais modernos a estrutura, para proteger um afresco, ou um mosaico...

Como eu disse, fui andando a esmo, e registrando o que mais me chamou a atenção. Ao fundo, na próxima foto, aparecem as montanhas conhecidas como Montanhas de Leite, pela criação de gado leiteiro e fabricação de queijos. 

A Basílica, no espaço denominado Regio VIII, tem aproximados 1500m2, e era o edifício mais suntuoso do Fórum.

A Casa dos Mosaicos Geométricos elucida bem o que falei sobre a restauração com complementação. É uma casa completa. Cheia de interiores decorados.

O Ginásio de Luvenes, trancado a chave, era uma Termas Privada, e nela aparecem ricos afrescos decorando as paredes, assim como uma cena de conflito no mosaico do piso.

A Casa de Regina Carolina conserva evidências da existência de um andar superior, e um rico Jardim onde havia um pequeno templo à Diana.

Observem a faixa de pedestres abaixo. Acho que os carros respeitariam os transeuntes dessa forma, não?

O Fórum Triangular foi outro espaço que roubou minha atenção, mas não foi fácil fotografá-lo já que umas adolescentes tomaram conta do local para fazer suas fotos pessoais. Mas realmente o local oferece um belo requadro de fotos.

Tive a melhor surpresa de minha viagem quando passei pelo Templo de Isis. Ali vi um casal conversando em português, mas não quis interromper (observem que eles aparecem na lateral direita da primeira foto). Olhei bem para eles, e adentrei ao recinto onde duas obras nas pontas de uma grande mesa de madeira, faziam refletir sobre a mitologia contada pelos auto falantes, em italiano, mas consegui compreender e apreciar. 

Quando sai o homem estava saindo pelo corredor, e eu resolvi perguntar de onde eles eram, mas não tive tempo. Ele voltou-se e me disse:

_ " Meyre?"

Ao que repondi, reconhecendo-o:

_ " Edgar?"

Um grande amigo, que não via desde 1996. Trabalhamos juntos entre 1992 e a data de sua transferência para outra unidade da empresa. E nunca mais nos vimos, apesar de torcarmos algumas mensagens, mais pela ocasião de nossos aniversários, no Facebook. Enquanto eu estava lá dentro ele aproveitou para ver na rede social onde eu me encontrava, assim ficou fácil certificar-se que era eu mesma.  Fomos ao encontro de sua esposa, Sirley, e afilhada, que já estavam mais adiante.

Aí destrambelhei a falar, uma oportunidade única, de conversar em português com amigos. Gente que fala a mesma língua que você não só pelo idioma, mas pelas mesmas experiências. Ele saiu da empresa em 2011, tendo cumprido 31 anos de trabalho, e já está aposentado desde 2016.

A afilhada deles conseguiu captar minha alegria nas fotos que fez de nós e para nós.

E cada um foi para seu canto, nos encontrando depois para trocar dicas do lugar e para fazer mais uma foto, desta vez no celular dele. E nos comprometemos a falarmo-nos com mais constância. Ele sempre foi uma referência para mim, pelo seu jeito amoroso e cordial de ser e tratar todas as pessoas, com muita igualdade. Que alegria e que satisfação este maravilhoso encontro.

Dali fui para o Regio I e visitei a Casa de Menandro, assim chamada por causa do afresco na estrada, obra deste artista. Era a casa de família aristocrática, e nela foi encontrado um faqueiro de prata com 118 peças (acervo do Museu Arqueólogico de Nápoles).

No Regio I constava a existência de modelos humanos na Porta dos Fugitivos, e fui à sua procura. Era uma área que foi transformada em vinha, e onde, no momento da erupção do vulcão, se encontravam treze pessoas entre adultos e crianças, patrões e servos. Eles ainda tentaram correr, mas com fluxo piroclástico a aproximados 500 graus, correndo na velocidade de 80 km/hora, não conseguiram escapar, como ninguém mais da cidade. Mas não achei os modelos e quando vi já estava no Regio II.

Ali pude ver a Porta Nocera e a Necrópole adjacente. A Necrópole está nos limites da cidade e dali se avista a rodovia, e a cidade que vive no entorno de Pompeia.

Comecei a retornar quando encontrei novamente meu amigo e suas acompanhantes. Trocamos informações e depois de nosso segundo encontro, fui fazendo um caminho diferenciado mas já em direção a saída. Não tinha visto nenhum dos modelos humanos. Mas necessitava ir ao banheiro.

A próxima parada foi na Casa de Termopólio. Era uma casa co comércio de bebidas quentes na frente e residência no fundo. Nela foi encontrado um tesouro de quase 3 kg de moedas. Isso nos mostra que a morte leva o intangível, o material fica aí, para contar a história. Vivamos vem o hoje, e usemos a matéria a nosso favor. Cuidado para não ser escravizado por ela.

Certamente, não fosse pelo cansaço dos pés, daria para passar um dia inteiro ali apreciando e ainda não veria tudo.

E o caminho de volta foi pelo Regio VII. Comecei passando pela Casa da Caça Antiga. Os nomes escolhidos para os locais estão normalmente ligados às suas atividades, ou objetos encontrados no local. Esta possui um afresco com uma cena de caça, que não foi a fotografada por mim.

E a seguir vem a Casa do Fauno, que já estava no Regio VI, mas em local limítrofe com o Regio VII. O nome desta é evidente. Tem uma pequena estátua de um Fauno logo na entrada, cópia da original (que se encontra no Museu Arqueológico de Nápoles). É uma das maiores residências de Pompeia, com 3 mil metros quadrados.

As ruas vão se abrindo em bifurcações, mas não é possível se perder por ali, já que de tempos em tempos, uma placa indica a localização e sinaliza a saída.

A Necrópole de Porta Erculano brilha ao sol.

Mas o caminho que escolhi levou-me a Vila do Mistério, e lá dentro havia dois modelos. Como são mantidos em caixas de vidro e a distância, não fiquei mal impressionada com o que vi. Mais dor me causou as múmias das três crianças dos Andes, na cidade de Salta, na Argentina. Que foram oferecidas em oferenda e ficam ali, onde foram deixadas, passando frio, sede e fome até a morte. Parece cruel, mas era a crença deles, e deve ser respeitada. Nela também se encontram um grande afresco, uma das mais bem conservadas obras da antiguidade.

Depois de passar pela vila já estava na saída, e junto ao banheiro que estava limpo e me atendeu perfeitamente.

E logo após, um restaurante, como massa caseira. Entrei, já eram 15h40. E eu só tinha tomado café da manhã, e nem muita água, para não encher demais a bexiga. E parei para comer aquela massa estranha, que nunca tinha visto antes, com vongoles e berinjela. E estava muito boa. Pedi parmesão para acompanhar o prato e me trouxeram, dizendo que, no entanto, não é hábito napolitano comer com o queijo. Tomei um suco de romã. E de sobremesa uma torta de chocolate. Que na verdade era um bolo, que pareceu seco, o que me fez pedir um café. Mas o bolo era seco sim, mas com castanhas e estava delicioso. Ainda bem. A comida está melhorando. O atendimento também. Fui acompanhada por curiosos gatos loucos por uma sobrinha de comida. Alguns até se arriscaram subir na mesa, mas devagar, a partir das cadeiras, e eu impus respeito. Kkkk

E no final molhei o pão no molho do prato e dei um pedaço para cada, mas eram uns oito, e quando o garçom se aproximou da mesa, acabou se enroscando nos mesmos.

A decoração do restaurante era de bandeiras dos países, e logo achei a minha. Isso também dá uma alegria e sensação de acolhimento.

O portão que saí era a 650 metros da estação, e um trem partiria dentro de 5 minutos. Esquece, vou pegar o das 17h07.

E na volta sentei-me de novo, mesmo com o trem ficando bem cheio. E fui observando o por do sol, do lado oposto ao vulcão. Precioso!

E de tudo, o que mais me impressionou em Pompéia foi ver a cidade soterrada ainda avizinhada pela cidade viva. Tanta gente vivendo ali ainda. E talvez, espero que não, um dia recebamos comovidos a notícia de outra tragédia. É lógico que, poder apreciar obras humanas executadas antes do nascimento de Cristo é incrível! Mas a localização causou-me um certo receio.